Como o bolsonarista arrependido se tornou o rosto das operações contra festas clandestinas na pandemia

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(Foto: Acerto Pessoal)
Deputado federal Alexandro Frota lidera força-tarefa contra festas clandestinas em São Paulo (Foto: Acervo Pessoal)

O deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP) se tornou um ícone no combate às festas clandestinas durante a pandemia de covid-19 em São Paulo. Eleito pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em 2018, ele se considera “o primeiro bolsonarista arrependido” e se coloca como um opositor das ideias do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A partir de centenas de denúncias recebidas, Frota se tornou um símbolo da luta contra festas clandestinas. Questionado se há ajuda do governo federal, o deputado foi categórico: não.

“Não, eu não tenho apoio do governo federal, até porque o governo federal não apoia o combate ao vírus e o combate à pandemia. O governo federal, muito pelo contrário, ele apoia a aglomeração, ele apoia que as pessoas não usem máscara, ele é contra a vacinação, está sendo quase que obrigatório. Então, eu não tenho apoio do governo federal”, afirmou.

Para apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, Frota pode ser considerado como um “traidor”, por ter pulado do barco logo que foi eleito. “Não fui eu quem trai o Bolsonaro, foi o Bolsonaro quem me traiu, assim como ele traiu grande parcela da população, você vê nas pesquisas que as pessoas enxergam aquilo que eu enxerguei lá atrás. Eu não mudei, quem mudou foi o Bolsonaro.”

O combate às festas clandestinas é feito em parceria entre prefeitura e governo estadual de São Paulo. “Eu tenho muito apoio do governo estadual, através do governador João Doria, do vice-governador Rodrigo Garcia também. E da prefeitura. Como foi uma coisa idealizada em São Paulo, as coisas acontecem aqui.”

Ao Yahoo! Notícias, Frota detalhou como acontecem as operações, de onde surgem as denúncias de festas clandestinas e quais são as estratégias para identificar eventos ilegais na cidade de São Paulo.

(Foto: Acerto Pessoal)
Denúncias de festas clandestinas chegam, em grande parte, às redes sociais do deputado Alexandre Frota (Foto: Acervo Pessoal)

Combate às festas clandestinas

Tudo começou a partir de denúncias feitas ao parlamentar pelas redes sociais. Hoje, o modelo de fiscalização chama atenção da sociedade, que viraliza os vídeos das ações nas redes sociais, e também inspira políticos de outros estados.

Segundo o deputado, ele foi procurado pelo prefeito do Rio de Janeiro. “Com certeza a força-tarefa se tornou um sucesso, o próprio Eduardo Paes já nos procurou para fazer essa implantação. Existem outras cidades do estado de São Paulo que fizeram a implantação da força-tarefa”, disse em entrevista ao Yahoo! Notícias.

Na última semana, uma nova ação da força-tarefa contra as festas clandestinas repercutiu nas redes sociais. Foi o caso que envolveu a socialite Liziane Gutierrez. Ao ser flagrada em um evento com mais de 500 pessoas e ser filmada, ela sugeriu ao cinegrafista que a equipe de Frota fosse “para a favela”.

Ao comentar o caso, o deputado revela que não esteve presente no momento da fala, só viu as imagens após o fim da operação. Por acaso, após acabar com a festa, onde estava Liziane, a equipe seguiu para um evento que aconteceria na periferia.

“Geralmente, na periferia a gente tem menos problema do que as festas de classe alta, né. A periferia é mais educada do que a classe alta. A classe alta, como eu te falei, sempre querem dar carteirada, ‘você não sabe com quem tá falando’, vocês viram o exemplo daquela mulher gritando. A gente já encontrou várias pessoas assim quando são festas de pessoas milionárias, pessoas ricas. Na periferia as pessoas são ais educadas, mais tranquilas, apesar de saberem que estão erradas, etc e tal”, contou o deputado.

Tentativa de carteirada

Segundo Frota, é comum que ele chegue a festas da elite paulistana e ouça esse tipo de carteirada. Recentemente, um frequentador tentou se passar por um parente do governador João Doria (PSDB). Para evitar problemas desse tipo, a força-tarefa conta com apoio do Ministério Público e da Ordem dos Advogados do Brasil.

“Justamente para evitar aquelas pessoas que usam o ‘você não sabe com quem você está falando’. Tem aquelas pessoas que falam ‘eu sou amigo do Doria, amigo do prefeito, filho do desembargador’. Isso pouco importa pra gente, não interessa. Outro dia teve um cara que se apresentou como Jorge Doria, porque queria se passar pelo primo do governador. Foi o primeiro que foi colocado na parede, de escanteio. Outro dia um rapaz saiu e falou ‘ô, Frota, eu sou sobrinho do Carlos Alberto de Nóbrega’. Eu falei: ‘Todo mundo tem um tio, por acaso o seu é famoso. Você quer que eu ligue pra ele? Eu sou amigo dele, vou ligar pra ele agora. Tenho certeza que ele não sabe que você tá aqui’”, contou.

O próprio Gabriel Barbosa, jogador do Flamengo flagrado pela força-tarefa em um cassino clandestino, tentou usar dessa estratégia, dizendo que chamaria o prefeito, contou o deputado.

“O Gabigol, por exemplo, falou na nossa cara ‘ô, vocês estão atrapalhando aqui a noite, eu vou chamar o prefeito’. Eu falei ‘não é preciso você chamar ele, ele está aqui do meu lado. Gabigol, Ricardo Nunes, Ricardo Nunes, Gabigol’”, relembrou, ao citar o caso de 14 de março deste ano. “Ele achou que era o Bruno Covas, mas era o Ricardo Nunes.”

Perigo de uma “nova Boate Kiss”

(Foto: Acerto Pessoal)
Deputado relata que festas clanestinas carecem de condições de higiene e de segurança (Foto: Acervo Pessoal)

O deputado descreve um cenário perigoso nas festas clandestinas que aconteceu na cidade de São Paulo.

“Essas festas são geralmente realizadas em balcões ou fábricas desativadas, que não oferecem nenhuma segurança para o frequentador. O produtor não consegue garantir nenhuma segurança para aquele que vai frequentar a festa. Sem extintores de incêndio, quando tem geralmente não funciona, sem saída de emergência, exploração ilegal de estacionamento, sem equipes de segurança”, relata Frota. Ele lembra ainda que não há Bombeiros para ajudar caso haja qualquer problema.

Outro tema levantado pelo parlamentar é a falta de higiene – o que chama atenção em um cenário de crise sanitária mundial. Segundo Frota, há bebidas falsificadas, alimentação sem procedência, além de “reciclagem de bebidas” e drogas.

“Nas cozinhas muitas vezes a gente encontra lixo junto com comida, junto com bebida. Reciclagem de bebidas. Fora cocaína, maconha, loló, lança perfume, ecstasy, o tal do ‘key’, que tá sendo muito usado, um anestésico para cavalo, e as pessoas estão usando muito”, diz. Outro ponto que chama atenção de frota é “aquele famoso narguilé, muitas pessoas compartilham, passam aquela piteira de boca em boca”.

“E o principal: aglomeração. E na maioria das vezes, todo mundo sem máscara, aglomerado. Uma confusão generalizada. Então, nós partimos para fazer o combate a essas festas clandestinas, visando salvar vidas e também fazer com que o avanço das vacinas pudesse funcionar de forma mais eficaz. Porque não adianta você estar vacinando e as pessoas fazendo esse tipo de festa”, afirma.

(Foto: Acerto Pessoal)
É comum que festas clandestinas tinham uso de narguile, compartilhada pelos presentes (Foto: Acervo Pessoal)

Falta de punição para os envolvidos

Alexandre Frota admite que a lei para os infratores é, na maioria das vezes, branda. No caso de Gabriel Barbosa, por exemplo, bastou um termo circunstanciado para que ele se visse livre no dia do ocorrido.

“Eu cobro muito isso, mas são leis fracas, que permitem que as pessoas voltem a fazer, serem reincidentes na produção de festas”, pontua.

No entanto, como lembra o deputado, pode doer no bolso. O jogador teve de pagar 100 salários mínimos, cerca de R$ 110 mil, para fazer um acordo na Justiça.

“A gente já teve festas que com R$ 5 milhões em multa, R$ 2 milhões, R$ 1,5 milhão, muita gente multada por estar sem máscara também, os equipamentos são recolhidos, quando não se tem nota fiscal os equipamentos de DJ e as máquinas de cartão são recolhidas... De alguma maneira, muita gente já sentiu também no bolso. Fora que não é um grande exemplo isso, né? A gente está vivendo uma pandemia com meio milhão de mortos no país, as UTIs lotadas, filas em hospitais, pessoas morrendo, amigos indo embora, pessoas que a gente gostava e admirava... E as pessoas fazendo festa como se não existisse o dia de amanhã, como se não tivesse nada acontecendo.”

“E eu volto a lembrar, muitas dessas festas, pelo menos 75%, tem tudo para acabar como a boate Kiss, em Santa Maria. Eu não gosto de sair de casa, deixar minha família e ir para a rua, mas eu iniciei esse processo com tantas outras pessoas que participam da força-tarefa. Como cidadão brasileiro, eu não concordo e como parlamentar eu tenho obrigação de fiscalizar e ajudar nesse combate”, afirma.

Como são feitas as denúncias

Alexandre Frota contou ao Yahoo! Notícias que recebe cerca de 500 denúncias de festas por dia. Elas chegas de todos os lados, inclusive de gente que não está feliz em ter negócios fechados, enquanto outros violam a lei.

“Essas denúncias vieram através de empresários que mantém suas casas fechadas durante a pandemia, pagando seus impostos e pagando também seus funcionários, sem poder fazer festas. Então, eles começaram a denunciar, pedindo que eu, como parlamentar, e eleito por São Paulo, pudesse, de alguma forma, ajuda-los”, conta.

Além disso, pais de jovens que frequentam as festas também procuram Frota para alerta-lo. “A gente começou a receber de diversos pais e mães, acredite, denúncias de festas que os filhos iam participar no fim de semana, teriam comprado ingresso, etc e tal. E as famílias passaram a nos ajudar, começamos a receber mais ainda denúncias.”

Outro motivador para denunciar é o rancor. Segundo o deputado, chegam denúncias de “ex-sócios, os sócios brigam, um continua com a casa e o outro não e o cara, de vingança, acaba denunciando.”

A força-tarefa conta com o apoio do governo do estado de São Paulo, da prefeitura da capital, do Ministério Público, da Ordem dos Advogados do Brasil, pelas Polícias Civil e Militar e é executada pelo Garra-DOPE. 

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