Como o Brasil investe em pesquisa e desenvolvimento de vacinas?

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(DOUGLAS MAGNO/AFP via Getty Images)
(DOUGLAS MAGNO/AFP via Getty Images)

Por Alana Ambrosio

A pandemia do novo coronavírus fez com que as atenções do mundo se voltassem para um objetivo comum – controlar a doença. A busca por uma vacina virou prioritária. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reúne mais de 40 iniciativas de cientistas que buscam uma fórmula capaz de frear o vírus.

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No Brasil, o antiviral produzido em território nacional só deve ficar pronto para imunizar a população daqui a dois anos. O método é diferente do desenvolvido em outros países e distingue-se pela parte do vírus que os cientistas pretendem desativar.

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A ideia é criar um mecanismo para desarmar as chamadas “proteínas de Spike”, responsáveis por conectar o vírus ao receptor. Esses fragmentos do coronavírus serão juntados a partículas sintéticas, parecidas com vírus, mas sem material genético. Isso impede a multiplicação, mas é suficiente para que o corpo humano produza uma resposta imunológica contra a Covid-19. O financiamento do projeto está sendo feito através da liberação de R$ 4,5 milhões em verbas emergenciais do Governo Federal e ainda com auxílio da FAPESP, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

O imunologista Gustavo Cabral coordena a pesquisa para desenvolver a vacina contra o coronavírus no país. Ele chegou há poucos meses em solo brasileiro, depois de trabalhar por anos na Inglaterra e Suíça. O cientista vê a área no Brasil sucateada:

“Essa mentalidade de que pesquisa tem que dar retorno imediato é completamente equivocada. Pesquisa dá resultado permanente. É só olhar para as vacinas que usamos até hoje e foram desenvolvidas décadas atrás. Aqui no Brasil há oscilações muito grandes nos investimentos e para a produção intelectual isso é terrível, esse vai e vem político. Sem contar com a visão que se tem dos cientistas no país é degradante. Os investimentos na área são sempre mais eficientes se essa visão for positiva, diferentemente daqui.”

Gráficos elaborados em janeiro deste ano pelo IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mostram a oscilação dos investimentos federais desde 2000 até hoje. Os valores estimados em pesquisa e desenvolvimento para 2020 se assemelham aos aplicados onze anos atrás, em 2009. Quando se leva em consideração as despesas com Capes, CNPq e FNDCT, a comparação cai abruptamente abaixo do auxílio dispensado no início do século.

Reprodução/IPEA
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Como é financiada uma vacina no Brasil?

Apesar do processo demorado, a criação de uma vacina, é uma das melhores respostas de combate a doenças em longo prazo. Primeiro são feitos estudos para definir a estratégia de combate. Depois há um período de testes in vitro, ou seja, fora de sistemas vivos. Só aí os animais passam a ser testados. A aplicação em humanos é liberada apenas quando a melhor composição é encontrada. Primeiro é feita em pequenos grupos e, após mais uma fase de testes, pode ser aplicada em larga escala.

O Brasil é referência mundial na produção de vacinas. Conforme uma pesquisa feita pela Organização Mundial de saúde, em 2017 o Governo investiu mais de U$1,2 bilhão em imunizações de rotina. Entretanto, não se investe na mesma proporção em pesquisas. O financiamento público é praticamente a única forma de obtenção de recursos. O modelo difere do visto em países como Estados Unidos, Inglaterra e outras nações europeias, que contam com aportes privados, provenientes de empresas e universidades.

Ana Maria Malik, coordenadora do núcleo de saúde da FGV, considera que as limitações estruturais dos órgãos de fomento à pesquisa seja um entrave ao progresso:

“Em países como os Estados Unidos e Grã Bretanha há diversas instituições fonte de investimentos e dispostas a custear e regulamentar os procedimentos. No Brasil isso é menor, mais limitado em termos de volumes e muito mais difícil de fazer porque não tem um modelo habitual, o financiamento é direto ou feito com agências de fomento. Além disso, os estímulos são menores. Por exemplo, ao desenvolver alguma fórmula é muito difícil conseguir patenteá-la, então é um incentivo a menos. O Instituo Nacional de Patentes é muito burocrático, demora. Isso desincentiva a pesquisa.”

Investimentos

Uma análise elaborada pela R&D World, renomada publicação internacional voltada para a área de ciências, mostra que os países que mais investem em pesquisa são, nessa ordem, Estados Unidos, China e Japão. O Brasil não está classificado no ranking. Os dados mostram que todos os países da América do Sul e África combinados são responsáveis por menos de 5% do total investido em pesquisa e desenvolvimento gasto no mundo, mesmo com mais de 20% da população global. Enquanto Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Índia e Coreia do Sul realizam praticamente 70% de todos os estudos.

No Brasil os cortes na área de ciências têm sido constantes. No mais recente, já em meio à pandemia, o governo federal publicou uma portaria na qual exclui as ciências humanas das prioridades de projetos de pesquisa no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) até 2023, reduzindo assim os mecanismos de financiamento.

O professor e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) da Faculdade de Medicina da USP, Jorge Kalil, está liderando o grupo de pesquisa do coronavírus no Brasil. Na avaliação dele, uma evolução gradativa dos investimentos em ciência e tecnologia nos últimos anos teria permitido que o Brasil estivesse mais preparado para o enfrentamento de novas ondas de doenças, como a Covid-19:

“O mundo todo foi pego desprevenido, claro. Mas se há uma ciência local mais equipada e com gente suficiente é muito mais fácil fazer o sequenciamento do vírus, diagnósticos e terapias. A comunidade científica espera que os líderes da nação se deem conta de que são dependentes de ciência nacional especialmente nesse tipo de crise. Ficou muito claro que não dá para se basear só no que dizem e fazem no exterior, gastar uma fortuna para importar tecnologia externa.”

Vacinação para todos

O Programa Nacional de Imunizações foi criado oficialmente no Brasil em 1973, implantando um calendário infantil composto pelas poucas vacinas disponíveis na época: varíola, poliomielite, difteria, tétano, coqueluche, BCG e sarampo.

A capacidade de produção foi aumentando. Hoje, grande parte das vacinas essenciais utilizadas no SUS (Sistema Único de Saúde) tem produção local. São mais de 300 milhões de doses distribuídas por ano gratuitamente.

No Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos), no Rio de Janeiro, são produzidas as seguintes vacinas: febre amarela, Haemophilus influenzae tipo B (Hib), meningite A e C, pneumocócica 10-valente, poliomielite oral (VOP), poliomielite inativada (VIP), rotavírus humano, tríplice viral, tetravalente viral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela) e DTP e Hib (difteria, tétano e coqueluche)

Dentre essas vacinas, a de febre amarela e a tríplice viral têm a produção completamente nacionalizada em Bio-Manguinhos, enquanto as demais são produzidas na unidade em processo de transferência de tecnologia de laboratórios parceiros.

Já o Instituto Butantan, em São Paulo, produz seis vacinas para o Ministério da Saúde: Hepatite A, hepatite B, DTPa, (HPV) e Raiva inativada são produzidas no instituto por acordos comerciais com farmacêuticas parceiras que incluem a transferência de tecnologia para o instituto. A Influenza sazonal trivalente é produzida inteiramente no Butantan.

As vantagens da produção local são muitas. O país não entra em guerra de preço internacional, prioriza o mercado brasileiro e foca mais nas necessidades de aplicação dessa população. Como explica Akira Homma, assessor científico sênior do Instituto de Tecnologia em Imunológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e referência no tema:

“É só pegar o exemplo do coronavírus. Estão faltando insumos básicos como máscaras e respiradores. Estamos importando esses insumos básicos com uma grande dificuldade, porque o mundo inteiro preciso disso. O dinheiro fala muito mais alto até nessas situações, por isso a importância da produção local. Essa crise também está mostrando a dificuldade de ser dependente tecnologicamente e cientificamente de importação de produtos para a saúde.”

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