Como o Coldplay piorou o seu som e se tornou a maior banda do mundo

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - OCTOBER 01: Coldplay performs on stage during a concert in the Rock in Rio Festival on October 01, 2011 in Rio de Janeiro, Brazil. Rock in Rio Festival comes back to Brazil after ten years. (Photo by Buda Mendes/LatinContent via Getty Images)
Chris Martin faz coração com spray durante show do Coldplay no Rock in Rio 2011: sonoridade da banda mudou drasticamente nos últimos anos (Fotos: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images)

Resumo da notícia:

  • Coldplay se consolida como maior banda do mundo após lançar álbuns questionáveis

  • Grupo britânico se lançou com músicas tristes e delicadas e hoje se caracteriza por faixas alegres e superficiais

  • Como visão de mercado, mudança na sonoridade se mostra um grande acerto

O Coldplay é a maior a banda do mundo. Para quem acha que não é bem assim, basta ver a procura por ingressos da turnê "Music of the Spheres" no Brasil. Por causa da alta demanda, os músicos liderados por Chris Martin farão oito apresentações no país, todas com lotação máxima, em pleno momento de penúria econômica local. Quem acompanha o quarteto britânico sabe que tal estágio de grandiosidade no show business foi alcançado pouco a pouco graças a uma incomum mistura de talento, profissionalismo e, o mais curioso, uma surpreendente piora no som do grupo com o passar dos anos.

Dependendo da sua idade, é possível que você se lembre do Coldplay do começo do século. Tida como uma das bandas mais talentosas da sua geração, o grupo deu início à sua trajetória logo em 2000, com o ótimo "Parachutes". Chamando a atenção pela melancolia tanto no canto quanto nos versos, Chris Martin se apresentava ao público como um compositor capaz de compor baladas delicadas como "Shiver" e "Yellow" e outras faixas levemente esquisitas que remetiam ao Radiohead, como "High Speed".

Dois anos depois, o Coldplay se firmava como um "grupo de belas músicas tristes" com "A Rush of Blood to the Head". Com faixas como "Politk", "In My Place" e "Clocks", a banda se aproximava da sonoridade de arena dos irlandeses do U2, sem deixar de ser melancólica. Veio do disco o maior hit da banda até hoje, "The Scientist", cujos versos "Ninguém disse que seria fácil. Mas também ninguém nunca disse que seria tão difícil" parece resumir perfeitamente a fase de ouro da banda.

A banda ainda faria mais dois grandes discos: "X&Y", de 2005, que marcou o início da parceria do Coldplay com o lendário produtor Brian Eno (no álbum, ouvido no sintetizador), e "Viva la Vida or Death and All His Friends" (este já produzido por Eno), disco conceitual lançado em 2008 que pode ser visto como a despedida artística da banda.

Na época de lançamento do "Viva La Vida", Chris Martin falava da ambivalência das composições. Ele também anunciava um desejo próprio de fazer algo diferente, que definia como "passar do preto-e-branco para o colorido". O sucesso do videoclipe da faixa-título - que conta com mais de 700 milhões de views no Youtube - possibilitou que o Coldplay ganhasse público o suficiente para lotar estádios, talvez o grande sonho do seu vocalista. A partir desse momento, a história do grupo ganharia outros contornos.

A era das grandes arenas

Ainda sob a batuta de Brian Eno, o Coldplay lançaria em 2011 um disco que mostraria a sua nova posição enquanto marca global. Já consolidado no show business, o grupo mostrava a sua carta de novas intenções na capa multicolorida de "Mylo Xyloto". As músicas depressivas haviam sido superadas e trocadas por outras muito mais alegres, por vezes histriônicas, feitas para o público que abarrota as arenas.

Em uma época de início de vendas digitais de músicas, "Mylo Xyloto" quebrou recordes de downloads no Reino Unido, superando até mesmo Adele e Lady Gaga nos charts. A mudança na sonoridade espantou muitos antigos fãs, ligados ao britpop e à música alternativa, mas possibilitou que o grupo se aproximasse de um público novo e maior, ligado aos artistas pop.

Neste período de mudanças, o Coldplay também se aperfeiçoou musicalmente. A banda passou a tocar melhor e Chris Martin, antes visto como um cantor triste na beira do piano, passou a ser visto como um legítimo "frontman", capaz de levantar multidões. A ideia de se tornar uma banda de proporções gigantescas parecia divertida aos integrantes.

"Melhoramos como músicos e realmente nos divertimos. Continuamos com fome de fazer música e estamos bem animados com as músicas novas que estamos criando", dizia o baixista Guy Barryman ao portal Terra na época. Além disso, os shows deixarão de ser meras apresentações musicais para se tornarem verdadeiros espetáculos circenses, com muita luz e pirotecnia.

Na época do "Mylo Xyloto", por exemplo, a banda chegou a investir mais de 4 milhões de libras na 'Xylobands', pulseiras da turnê que mudavam de cor. O acessório virou marca registrada dos shows da banda por muitos anos, unindo-se visualmente nos estádios com muitas chuvas de papel picado colorido e bolas gigantes rolando na plateia. A estética, embora seja chamada de "coxinha", virou marca registrada.

Bom de palco, o Coldplay parece se importar cada vez menos com o estúdio. A banda lançou o ligeiramente introspectivo "Ghost Stories" em 2014, voltou a soar animada e farofeira em "A Head Full of Dreams" e recentemente apostou em músicas com nomes de emoji em "Music of the Spheres", abusando da positividade tóxica. De positivo só conseguimos citar "Everyday Life", de 2019, um disco que consegue se sobressair artisticamente com faixas como “Arabesque”, não por acaso uma sobra de estúdio de "Viva La Vida".

Quem compra o ingresso para o show do Coldplay, claro, pode até discordar que a banda perdeu qualidade nas composições nos últimos anos. Mas é difícil encontrar alguém que não afirme que os melhores trabalhos da banda no estúdio foram os quatro primeiros. Os próprios músicos do Coldplay, aliás, não negam que os seus maiores hits estão naqueles álbuns calminhos e depressivos na hora de escolher a setlist dos shows. Fãs old school da banda, fiquem tranquilos: não há apresentação do Coldplay sem choro em "The Scientist" , "Clocks" e "Fix You".

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