Como o fim da Amazônia prejudica a sua vida

Entre janeiro e o dia 19 de agosto de 2019, houve um aumento de 83% de queimadas na região em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 72.843 focos de incêndios - Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino

Por Nathan Fernandes

“A Amazônia é o pulmão do mundo. E o governo brasileiro é um maço de Marlboro vermelho”, dizia um tweet que viralizou em meio às notícias sobre as queimadas na floresta amazônica. A informação pode não ser tão correta, já que, na verdade, são as algas marinhas que fazem todo o trabalho pulmonar, jogando na atmosfera cerca de 55% de todo oxigênio produzido no planeta.

Mas a toxicidade do governo se confirma — não só porque em cem dias autorizou o uso do número recorde de 152 novos agrotóxicos no Brasil. Mesmo antes de assumir o posto de presidente, Jair Bolsonaro já ameaçava acabar com o Ministério do Meio Ambiente e submetê-lo ao Ministério da Agricultura. Por pressão, acabou voltando atrás, mas nomeou para a pasta o advogado Ricardo Salles, condenado por fraude na elaboração de plano de manejo em uma Área de Proteção Ambiental em favor de empresas mineradoras.

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Além dos ataques aos povos indígenas, prometendo abrir áreas demarcadas para exploração agropecuária e mineração, o presidente declarou falsos os dados do Inpe que mostravam um aumento de 278% no desmatamento no mês de julho, em relação ao mesmo período do ano passado, e demitiu o diretor do instituto, Ricardo Galvão. Enquanto isso, no primeiro bimestre de 2019, as multas aplicadas pelo Ibama alcançaram seu número mais baixo desde 1995.

Não surpreende, portanto, que as queimadas passassem a dominar a paisagem da floresta amazônica: entre janeiro e o dia 19 de agosto de 2019, houve um aumento de 83% de queimadas na região em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 72.843 focos de incêndios.

Com o descaso ambiental, uma questão passa a ser cada vez mais presente entre a população: o que aconteceria se a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, sumisse do mapa?

Apesar de, de fato, não ser responsável pela maior produção de oxigênio do planeta, o sumiço dos 5,5 milhões de quilômetros quadrados dessa região que abriga 20% de toda água doce do mundo traria consequências desastrosas para a Terra.

As reservas de carbono do lugar, por exemplo, influenciam a forma como o calor se espalha pelo planeta. Se julho de 2019 foi considerado o mês possivelmente mais quente da história, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada à ONU, sem as árvores da floresta tropical, as ondas de calor poderiam ser ainda piores.

Em 2015, através de simulações de computadores, pesquisadores da Universidade da Virginia, nos EUA, concluíram que sem os vapores de água que a floresta amazônica joga na atmosfera o regime de chuvas do planeta inteiro também estaria comprometido.

A biodiversidade da Amazônia forma um laboratório tão rico que sua perda poderia causar graves consequências à saúde da população mundial. Isso porque as plantas da Amazônia já demonstraram evidências de funcionar como remédio para problemas que vão de dor de dente à leucemia. Segundo o Instituto Nacional de Câncer dos EUA, 70% das plantas com propriedades que combatem o câncer vêm da floresta tropical. Além disso, 25% de todos os remédios usados hoje na medicina ocidental são derivados das plantas que vêm de lá. Ainda assim, segundo a ONG WWF, menos de 1% da vegetação do lugar foi estudada em detalhe.

Apesar da imensidão de possibilidades deixadas pela floresta, há quem veja vantagem em seu fim. No livro “ A Queda do Céu”, o líder Yanomami Davi Kopenawa afirma: “Os brancos dormem muito, mas só conseguem sonhar com eles mesmos”. Os recentes incêndios mostram que Kopenawa está certo. Talvez, quando acordarem de seu sono, muitos brancos vão poder ver, enfim, tudo o que perderam.