Como o Panamá passou de um crescimento promissor à beira de um abismo social?

AP - Arnulfo Franco

A crise social no Panamá não explodiu apenas com o aumento dos preços dos combustíveis. Ela é o resultado de anos de desigualdade econômica e de descaso do governo de uma parte da população. Esta é a análise de Harry Brown, diretor do Centro Internacional de Estudos Políticos e Sociais do Panamá.

O Panamá encerra a segunda semana de manifestações, das quais participaram todos os setores sociais. O governo de Laurentino Cortizo ofereceu algumas soluções, mas, para especialistas, essas propostas não serão suficientes para garantir a calma, e o descontentamento social tem raízes mais profundas.

Apesar de em 2021 e no primeiro trimestre de 2022 as taxas de crescimento econômico no Panamá ultrapassaram 10%, as notícias não foram positivas para todos. O cidadão comum sentiu que essa bonança de que se falava não se refletia em seu bolso.

A incerteza tornou-se mais aguda quando os preços da gasolina, da cesta básica e dos remédios subiram descontroladamente, provocando a eclosão de uma das mais fortes crises sociais naquele país desde a queda da ditadura militar em 1989.

Corrupção e uísque caro

“Quando a pandemia começou, havia vários casos de corrupção na compra de respiradores para hospitais e o sistema de saúde não funcionava adequadamente. A educação foi interrompida por dois anos. Além disso, uma parte da população sente que os bancos foram favorecidos”, disse o cientista político Harry Brown, em entrevista à RFI. Ele acredita que o surto foi uma questão de tempo.

Para aplacar o descontentamento da população, o governo do presidente Laurentino Cortizo concordou em reduzir o valor do litro de gasolina, congelar o preço da cesta básica e reduzir as despesas com funcionários. No entanto, para Brown, esse compromisso não será suficiente.

“Não está claro de que maneira as medidas anunciadas, como a redução da folha de pagamento estadual em 10%, vão se traduzir em benefícios para a população”, diz.

Os manifestantes também criticam membros da Assembleia Nacional. Ultimamente, alguns deputados se envolveram em um escândalo após a divulgação de um vídeo em que aparecem comemorando com garrafas de uísque caro.

“Eles não esperam apenas comer melhor”

O cientista político explica que os motivos da raiva dos panamenhos vêm se acumulando nos últimos 30 anos, a ponto de ser preciso “uma mudança de direção para satisfazer a população mobilizada”. "Eles não esperam apenas comer melhor e ter um emprego. Há reivindicações de longo prazo que exigem esforços mais importantes", detalha.

Até agora, as soluções para a crise social propostas pelo governo Cortizo não encontraram eco em alguns setores sociais. Eles aguardam uma contraproposta condizente com sua realidade - e disso dependerá se o Panamá vai voltar a se acalmar.

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