Como o saquê ajudou na recuperação de Fukushima após desastre nuclear

Fernando Duarte - Do Serviço Mundial da BBC
·8 minuto de leitura
O japonês Hiroyuki Karahashi em sua destilaria de saquê
Produtores de saquê como Hiroyuki Karahashi conseguiram manter os negócios apesar da desconfiança do público

Hiroyuki Karahashi escapou por pouco em 11 de março de 2011. Ele não foi ferido pelo terremoto violento e tsunami que tirou a vida de 16 mil pessoas e devastou partes da região de Fukushima, no Japão.

Ele também teve a sorte de sua destilaria de saquê não ter sofrido danos graves, ao contrário de outras produtoras na região. Mas os seus negócios acabaram sendo fortemente afetados mesmo assim.

Quando a onda gigante causada pelo terremoto atingiu a usina nuclear de Daiichi, a destruição causou o acidente nuclear mais grave desde o desastre de Chernovyl, em 1986. Houve vazamento de radiação e evacuações em massa. Os habitantes do país foram tomado pelo medo da contaminação de longo prazo.

O episódio afetou profundamente Fukushima, que fica numa das regiões mais agrícolas do Japão. Afetou também a produção de arroz — o principal ingrediente do saquê.

"Quatro anos depois do acidente, um cliente ligou querendo devolver uma garrafa de saquê que ganhou de presente", conta Karahashi. "Ele não queria nem jogar o saquê fora em sua própria casa por medo de radiação. Minhas vendas despencaram."

Bottles of Fukushima sake on display
Breweries in the Fukushima region have collectively won more prizes in sake tasting competitions than any other in Japan since 2012.

O quão segura é a produção agrícola de Fukushima?

Apesar das garantias dadas pelas autoridades locais e pelo governo japonês de que os produtos produzidos em Fukushima são seguros, ainda há uma considerável preocupação do público com a segurança dos itens fabricados na região.

Desde agosto de 2011, os produtos da região têm passado por testes de radiação rigorosos e constantes. O Centro de Tecnologia Agrícola da região analisa mais de 200 amostras de alimentos por dia, incluindo peixes, carnes, frutas, verduras e legumes.

O governo japonês até estabeleceu limites mais rígidos para contaminação. Por exemplo, na medição do elemento radioativo césio, os Estados Unidos e países da União Europeia aceitam no máximo entre 1.250 e 1.200 becquerels de radiação por quilograma de alimento. Para Fukushima, o limite máximo é bem mais exigente, de no máximo 100 becquerels por quilo.

A testagem passa por auditoira todos os anos por órgãos independentes como a Agência Internacional de Energia Atômica. E, em março de 2020, as autoridades de Fukushima anunciaram que nenhuma das nove milhões de amostras de arroz testadas na região entre abril de 2018 e março de 2019 excederam o limite de segurança estabelecido.

Daisuke Suzuki no local onde ficava sua destilaria de saquê
Daisuke Suzuki teve sua destilaria destruída pelo terremoto

"Com base nas informações disponíveis, as medidas para monitorar e reagir aos problemas em relação à contaminação de alimento são apropriadas", disse um relatório da Agência Internacional de Energia Atômica e da FAO, a a agência da ONU para alimentação. "A cadeia de suprimentos de alimento é eficientemente controladas pelas autoridades", disseram as agência.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mais recente feita pelo governo japonês, em 2018, sobre a opinião do público em relação aos produtos agrícolas de Fukushima mostrou que 12,7% das pessoas no país ainda hesitam em comprar comida da região. No entanto, é o menor número já registrado na pesquisa, feita pela primeira vez em 2013.

Em Taiwan, um dos países que ainda têm restrições aos produtos de Fukushima, houve protestos quando o governo anunciou que pretendia retirar parcialmente as proibições em 2016 e em 2018.

De acordo com o Ministério de Relações Internacionais do Japão, 15 países e regiões, incluindo a União Europeia e parceiros comerciais próximos como a China e a Coreia do Sul, têm restrições de importação em produtos de Fukushima por causa de preocupações sanitárias. Mas a lista já chegou a ter mais de 50 países.

Caixa de pêssegos de Fukushima
É possível comprar caixas de produtos de Fukushima para ajudar os produtores da região

Sede de saquê

Apesar das preocupações, o saquê de Fukushima se tornou um símbolo da resiliência da região, com as vendas atingindo números ainda maiores que os registrados antes do desastre de 2011.

O motivo é um aumento nas exportações, que cresceu de 11 mil litros em 2012 para 188 mil litros em 2018, de acordo com número do Conselho de Promoção de Comércio de Fukushima.

Os saquês da região também têm ganhado prêmios em competições de degustação nacionais e internacionais. Um das marcas de Hiroyuki Karahashi, inclusive, foi premiada no Desafio Internacional do Vinho em 2014.

"É importante para que as pessoas de Fukushima consigam recuperar o orgulho e a esperança no futuro", diz ele. "Precisamos mandar uma mensagem não só sobre como os produtos são seguros, mas sobre sua ótima qualidade."

Felizmente para os produtores, mercados como os EUA adoram o saquê — o país é o maior importador da bebida de Fukushima, de acordo com o Ministério do Comércio do Japão.

O sul-africano Beau Timken, que é dono de uma loja de bebidas especializada em saquê em San Francisco, nos EUA, tem em estoque várias marcas de Fukushima. Ele diz que a resiliência da região é um ponto positivo para ele e para os consumidores.

"Fukushima não só faz um saquê excelente que ganha prêmios em todo o mundo, como os produtores de lá tiveram que trabalhar dez vezes mais para colocar seu produto no mercado", diz ele.

Trabalhadores cozinham arroz em fábrica de saquê
O saquê é produzido pela fermentação do arroz

Quando o terremoto aconteceu, em 2011, Timken estava no Japão visitando destilarias de saquê a 200 km de Fukushima. Ele diz que se sentiu empatia pela a situação difícil da região e desde então organiza eventos de arrecadação nos Estados Unidos para ajudar os agricultores de Fukushima.

"Quando você bebe saquê de Fukushima, você realmente sente que está ajudando uma região de pessoas que tiveram azar e tiveram que lidar com uma situação adversa", diz ele.

Um estudo publicado em junho na revista científica Journal of Agricultural Economics estimou que os agricultores de Fukushima perderam até 19% das vendas desde o desastre e atribuiu isso em parte a danos à reputação dos produtos causados pelo acidente. Esforços têm sido feitos por autoridades locais e nacionais para promover produtos da região e combater esse problema.

Paul Blustein, jornalista americano que mora no Japão, compra regularmente cestas de produtos conhecidos como "Gambaru Pakku", que significa "aguente firme" em japonês. Elas trazem várias frutas e vegetais de Fukushima.

"Fizemos isso porque, antes de mais nada, tínhamos certeza de que a comida era segura", diz ele. "E em segundo lugar, porque sentimos que os fazendeiros estavam sofrendo injustamente com todos os medos injustificados."

Mas as pessoas ainda estão desconfiadas, diz Karahashi. "A maioria dos ingredientes do saquê japonês é fornecida localmente e Fukushima não é uma exceção", explica ele.

"Ainda existe a preocupação de algumas pessoas no Japão e no exterior. A Coreia do Sul (que é um dos maiores importadores de saquê) exige que inspecionemos nossos produtos lote a lote e isso simplesmente não é possível. Eventualmente, nossas vendas para eles chegaram a zero."

Agricultor de Fukushima olha para sua plantação de arroz sob um céu azul, ao lado de uma casa de fazenda japonesa
Agricultores de Fukushima sofreram com os efeitos do terremoto

'Use a ciência, e não o preconceito'

Somente em Fukushima, mais de 60 mil pessoas foram evacuadas após o desastre há 10 anos. A maioria não voltou e a região tem uma das maiores taxas de declínio populacional entre os 47 distritos do Japão, de acordo com o órgão oficial de estatísticas do país.

Mas Daisuke Suzuki quer entrar na lista de exceções. O tsunami varreu do mapa sua destilaria de saquê em Namie, que fica a cerca de 5 km da usina nuclear e ficava no que se tornou zona de exclusão nuclear.

Ele lembra que, logo após o acidente, a população local, em abrigos de emergência, implorou para que ele continuasse a produzir a bebida.

"As pessoas me disseram que continuar fazendo saquê era uma forma de manter Namie viva", disse o produtor ao jornal The Mainichi, quando comprou uma destilaria em Nagai em 2011, para onde se mudou.

Mas desde então ele mudou parte do negócio de volta para Fukushima e usa exclusivamente arroz da região para apoiar os produtores locais.

Daisuke Suzuki (à dir.) com o especialista em saquê Beau Timken
Daisuke Suzuki, à direita, perdeu sua destilaria em 2011

Saki Kimura, o escritor e sommelier, diz que esse tipo de colaboração teve um efeito positivo no setor de fabricação de saquê da região, com proprietários de negócios trocando informações e tecnologia regularmente para melhorar os produtos uns dos outros, já que o desastre quase os destruiu.

Talvez o maior indicador desse trabalho em equipe venha do fato de que a região de Fukushima ganhou coletivamente mais prêmios em competições de degustação de saquê do que qualquer outra no Japão desde 2012.

"Fukushima tem destilarias de saquê relativamente pequenas, então temos que cooperar uns com os outros para sobreviver", disse Karahashi.

"Compartilhamos ideias e técnicas. Também provamos os produtos uns dos outros para avaliá-los. E isso se tornou muito mais importante desde o desastre."

O produtor tem uma mensagem que não se destina apenas aos amantes do saquê.

"Ainda vai demorar muito para a região se recuperar, então, por favor, use a ciência, não o preconceito, ao olhar para Fukushima."

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