Como Pelé influenciou Neymar, que pode bater recorde de gols do Rei pela seleção diante da Croácia

O ano é 2009. Entre as idas e vindas de uma relação fadada à eternidade, Pelé era na época figura recorrente no centro de treinamento que leva seu nome, no Santos. Edinho, seu filho, ex-goleiro, havia se tornado auxiliar técnico do time profissional. Era um costume do pai observar o trabalho da prole de perto. Em uma dessas visitas ao gramado, cumprimentou a comissão técnica, beijou o filho e foi visto por Neymar. O adolescente de 17 anos correu na direção do Rei e o abraçou. Pelé então o ergueu nos braços, tirou as pernas magras da promessa do chão.

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A cena foi descrita por Vagner Mancini, treinador do Santos na época. Treze anos depois, Neymar virou príncipe e pode hoje, às 12h (de Brasília), contra a Croácia, pelas quartas de final da Copa do Mundo, igualar e até superar Pelé em número de gols marcados em jogos oficiais pela seleção brasileira — atualmente são 76 contra 77. A marca pode ser atingida em um momento em que o mundo se comove pelo estado de saúde de Pelé, internado, em tratamento contra o câncer. Algo que mexe com a seleção e que transporta o camisa 10 atual de volta ao começo da carreira.

As comparações fizeram parte da vida de Neymar desde que despontou na base do Santos. Prodígio, vestindo a mesma camisa que Pelé consagrou, teve de lidar com o peso de ser o sucessor do melhor jogador de todos os tempos. O convívio com o Rei amenizou o peso, trouxe um pouco de humanidade à lenda. O ex-jogador batia bola com os mais novos, conversava sobre futebol. Comemorava os feitos, brincava dizendo que um dia seria ultrapassado por eles. Não poderia adivinhar que ao menos um iria, de fato, superá-lo.

— É difícil ultrapassar o que Pelé fez — afirma Jamelli, gerente de futebol do Santos em 2010, quando Neymar explodiu para o futebol. — Mas houve muita influência do Pelé sobre o Neymar. O relacionamento foi sempre muito bom.

“Estou na torcida para que ele (Neymar) chegue lá, com a mesma alegria que tenho desde que vi ele jogando pela primeira vez”, escreveu Pelé no ano passado após jogo em que Neymar balançou a rede.

A opinião pública tratou de colocar Neymar na condição de sucessor de Pelé. As circunstâncias também. Em 2010, depois do fracasso da seleção na África do Sul, o garoto de apenas 18 anos se tornou o principal jogador da seleção brasileira, sem que houvesse uma passagem de bastão adequada de astros mais experientes, como Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Há 12 anos Neymar ocupa esse posto.

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Rito de passagem

Isso ajudou o atacante a atingir os números que tem hoje, ainda aos 30. Logo ele se tornou o primeiro batedor de pênaltis do Brasil. O cobrador de faltas e escanteios. Um camisa 10 vestindo a 11 porque Neymar demorou a assumir esse número. Deixou o Santos em 2013 sem vestir o mesmo número que o Rei pelo time da Vila Belmiro.

A primeira competição que disputou pela seleção brasileira principal com a camisa 10 foi a Copa das Confederações de 2013, um rito de passagem que Neymar nunca deixou que subisse à cabeça.

— Neymar convivia muito bem com a expectativa criada — lembra Dorival Júnior, técnico de Neymar em 2011. — Até porque ele sempre respeitou muito a história do nosso Rei.

Com o tempo, a distância entre Neymar e Pelé aumentou. Primeiro, o Rei deixou de frequentar tanto a rotina do Peixe depois que Edinho deixou o clube. Depois, foi Neymar quem ganhou asas e foi acumular títulos e dinheiro por Barcelona e Paris Saint-Germain. Em 2011, estiveram juntos no prêmio de melhor do mundo da Fifa. Neymar foi considerado o autor do gol mais bonito daquele ano — marcado em um jogo contra o Flamengo, na Vila Belmiro.

Reverências

Ainda assim, quando teve a chance, o camisa 10 da seleção de Tite procurou o maior 10 de todos os tempos. Em abril de 2019, Pelé estava em Paris para compromissos profissionais quando passou mal e teve de ser internado. Neymar foi ao hospital visitá-lo. Posaram para uma fotografia juntos, como fizeram tantas vezes entre 2009 e 2010.

Sempre que pode, Neymar faz reverências. Davi Lucca, filho do atacante, apareceu nas redes sociais com o nome de Pelé escrito na testa antes de uma partida da seleção no Catar. Depois da vitória sobre a Coreia do Sul, foi o camisa 10 quem carregou a faixa de apoio ao Rei, ao lado de Danilo, outro jogador que conviveu com Pelé no Santos.

— Neymar evidenciava para todos no Santos que ele se destacaria e bateria recordes, mas não sabíamos quais — afirma Vagner Mancini, responsável por promover a estreia do jogador no profissional. — Igualar-se a Pelé em qualquer número já deve ser motivo de orgulho.