Saiba como publicar um livro sem editora

In the library, an Asian woman took a book off the shelf with her hand
O mercado editorial tem possibilitado a publicação de obras independentes de diferentes maneiras (Getty Image)
  • É possível escrever e publicar um livro sem uma editora

  • Obras podem ser criadas nas versões físicas e digitais

  • O recurso possibilita a ampliação de vozes e narrativas

Quantas histórias deixaram de ser contadas porque não passaram pelo crivo de uma editora? Aventuras inéditas e criações originais ficam amontoadas nas mesas das organizações especializadas em publicar livros. Apenas algumas produções têm a sorte de chegar até as mãos dos leitores.

Essa escolha não é aleatória. Mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras entre 1965 e 2014 foram escritos por homens. Um levantamento realizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea mostra que 90% das obras foram feitas por pessoas brancas e metade dos autores estão no eixo do Rio de janeiro e São Paulo.

Os dados ainda sugerem que 60% das histórias são protagonizadas por homens, sendo 80% brancos e 90% heterossexuais.

Em 1948, uma escritora decidiu publicar um livro que falava sobre o amor entre mulheres. Após ter sido rejeitada por todas as editoras de São Paulo, Odete Rios publicou o livro "A Volúpia do Pecado" por conta própria, com o dinheiro que pegou emprestado com a mãe, uma imigrante espanhola burguesa e católica. Ela assinou a obra como o pseudônimo de Cassandra Rios.

Apesar da perseguição que sofreu durante a ditadura militar, ela foi a primeira a vender 1 milhão de exemplares, superando escritores populares de sua época, como Jorge Amado, Clarice Lispector e Érico Veríssimo.

Anos mais tarde, outras autoras seguiriam os passos de Cassandra, publicando livros sobre temáticas que não eram atraentes para as editoras tradicionais.

Os desafios e as possibilidades da autopublicação

Qualquer pessoa pode escrever um livro. Para colocar a produção no mundo, existem duas possibilidades: a publicação física e o exemplar digital. Enquanto a versão impressa exige maior investimento financeiro e cuidado com logística, as obras virtuais demandam outros cuidados com diagramação e distribuição.

"O livro digital pode chegar em muita gente, mas o livro físico gera uma conexão meio que incomparável com o leitor", explica a escritora Maria Freitas. Em relações a custos, ela diz que depende de alguns fatores. "Mas se a pessoa quiser investir, ela precisa pensar que o exemplar físico, contando todos os serviços, como capa, diagramação, revisão, impressão e envio custa (bem) mais de 20 reais independente do tamanho".

Lethycia Dias, jornalista e escritora, aponta que apesar de não haver custos para a publicação na internet, quem escreve para essa modalidade precisa se preparar para possíveis outros gastos.

"O processo de publicação na Amazon é gratuito, mas ter o livro pronto, bem editado e atrativo para o leitor nem sempre é de graça. Todo livro precisa pelo menos de uma revisão cuidadosa e uma capa e uma diagramação bem feitas. Outros serviços também podem ser importantes, como copidesque, revisão crítica e leitura de sensibilidade", diz Lethycia.

Durante a pandemia, o mercado dos livros virtuais cresceu exponencialmente. Em 2020 foram comercializados 8,7 milhões de e-books e audiolivros, contra 4,7 milhões em 2019. Uma pesquisa da Câmara Brasileira do Livro aponta que Ficção liderou a preferência, com 41%, e foi seguida pela não ficção, com 39% e Científico, Técnico e Profissional (CTP), com 20%.

Também aumentou o número de mulheres que publicam obras literárias de maneira independente. A plataforma de autopublicação Clube de Autores, que possui 75 mil livros publicados, observou que as escritoras passaram de 34% do total de autores, em 2019, para 44%, em abril de 2022.

Como publicar um livro digital?

Esse é o caminho mais indicado para quem tem menos recursos e quer atingir mais pessoas. Existem diferentes formas de comercializar um e-book, sendo que a plataforma da Amazon é a mais conhecida entre os leitores.

Integrado ao dispositivo de leitura Kindle, o sistema permite que o autor publique gratuitamente uma obra. É possível escolher a precificação e se pretende participar do Kindle Unlimited, um sistema de assinatura que disponibiliza as obras participantes sem custos adicionais para o leitor. Apesar de render menos dinheiro do que a comercialização tradicional, essa é uma forma de alcançar um publico maior.

O próprio sistema tem um dispositivo de montagem de layout. "Não paguei pela diagramação porque sei fazer o serviço em programas como o InDesign e também porque a própria Amazon disponibiliza um software mais simples para diagramação dos e-books, o Kindle Create, que é bem simples e que pode ser usado na diagramação de livros que não contenham muitas imagens ou elementos gráficos", explica Lethycia.

"Mesmo que eu vá embora", um dos livros publicados pela autora, já coleciona mais de 600 avaliações e comentários na plataforma. Ela diz que quem pretende entrar no mercado precisa "estudar sobre o processo, conhecer os serviços que um livro digital necessita e entender algumas das demandas mais novas do mercado (como a leitura de sensibilidade)".

Depois da publicação, o autor pode pensar em estratégias de marketing e de divulgação para difundir a obra. As redes sociais podem ser importantes aliadas para fazer com que a história ecoe na comunidade leitora.

Como publicar um livro físico?

Mesmo com a popularidade das obras virtuais, os leitores ainda gostam de sentir a textura do papel e guardar na estante aquelas narrativas que encantam. É por isso que alguns autores ainda fazem questão de juntar um dinheirinho para dar forma aos pensamentos.

As possibilidades de publicação sem o investimento de uma editora são diversas. Existem empresas especializadas em diagramar e imprimir produções literárias. No entanto, além de serem relativamente mais caras, muitas vezes dificultam a autonomia das escolhas criativas do escritor.

Para quem quer ter total controle sobre o processo de confecção, pode ser interessante realizar um cronograma de contratação de serviços e de publicação, cuidando pessoalmente de cada etapa.

Assim que um livro fica pronto, é imprescindível que ele passe por leituras. Além de pedir para pessoas próximas uma primeira opinião, é possível contratar serviços como os de leitura crítica e de apreciação sensível, que podem apontar questões a serem melhoradas.

A revisão ortográfica não é obrigatória, mas é recomendada. Isso porque erros de escrita e pontuação podem passar batido nas primeiras leituras e não será possível corrigir quando estiverem impressas no papel.

Diagramação e identidade visual são outras questões que merecem atenção. Produções com capas atraentes e layout bem construído chamam a atenção do público e aumenta o interesse na leitura.

Para comercializar, é recomendado que seja feito o registro do ISBN (International Standard Book Number/ Padrão Internacional de Numeração de Livro) na Câmara Brasileira do Livro. O número é um registro padrão que, além de proteger os direitos autorais, também gera um código de barras para a venda regulamentada de obras literárias.

Depois dessas etapas, basta realizar orçamentos com gráficas e escolher o mais adequado para o dinheiro disponível e tiragem planejada. Os valores podem variar de acordo com o número de exemplares impressos, materiais escolhidos e local que confecção.

Apesar de trabalhoso, o processo permite que a pessoa acompanhe cada etapa da produção, permitindo uma total liberdade editorial para contar narrativas, difundir ideias e amplificar vozes.

"Foca em construir o seu público. Sermos autores independentes e brasileiros proporciona uma conexão que autores lá de fora não têm. Aproveita isso pra, de fato, se conectar com as pessoas", incentiva Maria Freitas.

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