Como será o amanhã? Profissionais de diferentes setores fazem previsões para o pós-pandemia

Regiane Jesus
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O coordenador pedagógico Bruno Pereira vê pontos positivos no ensino on-line

RIO — Como será o amanhã? Quem responde a esta pergunta que não quer calar são representantes de quatro setores da sociedade que, a convite do caderno Tijuca + Zona Norte, tentam ler o que o destino nos reserva no pós-pandemia. Sem recorrer a bola de cristal, jogo de búzios ou cartomante, especialistas nas áreas de cultura, educação, comércio e comportamento desvendam o que podemos esperar do futuro. O cinema drive-in, que no passado embalou romances enquanto filmes muitas vezes ficavam em segundo plano, pode voltar com força para que o público prestigie a sétima arte sem sair do carro e, portanto, mantendo o distanciamento social. Esse serviço, também usado há tempos por redes de fast-food, é a mais nova aposta dos shoppings para que os clientes busquem seus produtos, previamente comprados pela internet, de forma mais segura. A perspectiva é que, assim como o delivery, essa modalidade de atendimento tenha vindo para ficar.

O ensino também nunca mais será o mesmo depois que alunos e professores tiveram que se adaptar às aulas on-line. E o que dizer do ser humano? Ah, quantas transformações se deram de março para cá... Sentimentos como ansiedade e angústia se misturam com uma sede urgente de felicidade. O resultado dessa fusão? Reflexões infinitas e novas atitudes perante o mundo. Se você mudou (e quem foi capaz de escapar deste fenômeno causado pela chegada do coronavírus, não é mesmo?), descubra a seguir o que pode vir por aí.

Moradora da Tijuca e proprietária de uma escola de teatro no mesmo bairro, a atriz Rosane Gofman teme o que vai acontecer com o seu ofício ao mesmo tempo em que tem fé nos dias que estão por vir.

— A minha expectativa não é das melhores porque, do ponto de vista presencial, a arte foi a primeira atividade a sair de cena e será a última a voltar. É difícil prever o futuro, mas acredito que o drive-in pode ser um caminho interessante tanto para o cinema quanto para apresentações de teatro ao ar livre. Quando as peças puderem voltar para os palcos, acredito que serão, prioritariamente, monólogos. Tanto para baratear custos de produção quanto para evitar que atores contracenem e, consequentemente, tenham contato próximo. Mas a gente vai dar um jeito de estar de novo frente a frente com o público — diz.

Apresentações transmitidas ao vivo pela internet, de acordo com Rosane, também são uma possibilidade de manter o teatro vivo antes que as salas de espetáculo reabram suas portas:

— As lives se encaixam mais facilmente com a música, mas não é impossível uma adaptação do teatro para essa plataforma. Há peças que podem ser feitas on-line. Além disso, hoje já é possível encontrar vídeos de espetáculos na internet.

Nem o Porta dos Fundos, produto originalmente criado para a web, escapou da necessidade de se reinventar em meio à crise. Integrante do canal há quatro anos, a atriz Evelyn Castro está aprendendo a produzir vídeos de humor dentro de casa, na Tijuca.

— O meu trabalho no Porta dos Fundos não parou durante a pandemia, mas tive que aprender a montar luz e figurino e a criar cenários dentro do meu apartamento. Não temos mais como gravar em estúdio ou em locações externas, então o jeito foi aderir ao home office. Não é fácil, mas este momento está sendo rico em termos de aprendizado — observa.

Educação on-line é caminho sem volta, mas pode elevar desigualdade

O novo tempo que se impôs com a pandemia não poupou a sociedade como um todo, tampouco os rumos da educação. O ensino através das telas do computador ou do smartphone, até então usado de uma forma tímida, sobretudo nos ensinos fundamental e médio, virou realidade de uma hora para outra. O susto inicial começa a dar lugar à consolidação desse novo formato de aprendizagem.

Entusiasta do uso da tecnologia na busca por conhecimento, Bruno Pereira, coordenador pedagógico do Centro Educacional Lucena, em Irajá, tinha começado a implementar conteúdo on-line em fevereiro deste ano. Mas a chegada do novo coronavírus intensificou o processo.

— Na escola, já estava usando o ambiente virtual para disponibilizar atividades extras, como trabalhos, exercícios, vídeos... Era algo para somar ao que o aluno já tinha aprendido em sala de aula. Mas nada se compara ao que se tornou, ou seja, uma educação 100% remota. O presencial não vai perder força no pós-pandemia porque a troca diária com colegas e professores é fundamental, mas este período com aulas virtuais está fazendo com que tanto alunos quanto pais e professores entendam que é possível aprender com aulas on-line, que o ensino através dessa ferramenta é viável. Depois que tudo isso passar, o que ficará é a união do ensino presencial com o virtual — aposta.

Coordenadora pedagógica do ensino fundamental I no colégio Oga Mitá, na Tijuca, Raphaela Bomtempo tem suas ressalvas em relação à hipótese de o futuro da educação caminhar a passos largos para o ambiente on-line:

— Eu acredito na pedagogia da presença, baseada no viver naquele espaço de tempo em que todos estão no colégio. É com muito respeito a outras instituições que investem no ensino pela internet que digo não ver muito sentido em aulas on-line com carga horária parecida com a que tínhamos de forma presencial. Optamos por inserir o ensino à distância de uma forma mais lúdica, enviando aos alunos atividades relacionadas à arte, ao corpo, mas estimulando também o conhecimento de ciências, raciocínio lógico e matemática.

De acordo com Raphaela, a educação virtual pode ser prejudicial para os menos favorecidos:

— Não vejo o ensino à distância como um caminho positivo, principalmente em se falando de Brasil, com a desigualdade que a gente tem. Isso só alarga o abismo social que já existe.

Comércio inova para reconquistar consumidor

Desenhar um futuro colorido com as tintas sombrias do presente é o objetivo do comércio, fortemente impactado pela pandemia do coronavírus. Mas se o sumiço físico dos clientes foi e é um fato inevitável, investir no delivery, no consumo on-line e no que mais for preciso para trocar o prejuízo por lucro é assunto de máxima urgência.

Proprietário da Pink Casa da Manicura, no Mercadão de Madureira, Marcelo Durval contabiliza perdas já enxergando oportunidades para expandir seu negócio:

— Estamos navegando num mar de incertezas, mas não tenho resistência a buscar caminhos alternativos. Intensifiquei a divulgação nas redes sociais, aderi ao delivery e à venda on-line. Ou a gente entra, se lança no mercado virtual, ou não vai sobreviver.

Superintendente do Shopping Tijuca, Juliana Blanco aposta em novas maneiras de receber clientes:

— Vemos o futuro do varejo com mais rigor na higienização dos ambientes, com clientes retomando aos poucos ao varejo físico e com aceleração das plataformas digitais já existentes, como a entrega via delivery ou drive-thru. Nesses casos, as vendas são realizadas em diversos canais digitais, e o consumidor escolhe entre receber o produto ou buscá-lo no estacionamento, com toda a segurança necessária.

O NorteShopping também aposta no drive-thru para aquecer as vendas enquanto a vida não volta ao normal.

— Quando o cliente permanece no carro, não há aglomeração. Além disso, criamos uma infraestrutura com higienização máxima. A retomada será gradual. Acredito que em alguns meses voltaremos à normalidade — diz Luiz Muniz, superintendente do centro comercial.

Ser humano passa por processo de transformação

Eis que um vírus chegou para tirar tudo do lugar. Desde então, nada permanece igual. Nem nós, ou melhor, muito menos nós. Zona de conforto é coisa do passado para os seres humanos. Fomos convocados a mudar nossas ações e pensamentos. A dúvida é em relação a como seremos pós- pandemia.

Psicóloga, Rosangela Teixeira de Melo, moradora da Abolição, defende a tese de que o balanço de toda esta mistura de sentimentos, como ansiedade, medo e insatisfação pessoal, pode ser positiva:

— Acredito que vamos sair melhores depois deste pesadelo. O porteiro vai ser visto com mais atenção, assim como o entregador.... Perceber o outro sem discriminação social, racial, é algo que já acontece e que deve ser inserido no nosso dia a dia daqui para a frente. O aprendizado é individual, mas, no geral, a Covid-19 mexeu com a vida de todos nós. Não por acaso já se percebe um aumento no número de separações.

De acordo com a especialista em comportamento humano, a pandemia jogou luz nos relacionamentos que já estavam falidos.

— A Covid-19 veio dar um choque de realidade e mostrar que é preciso ter urgência em ser feliz — observa.

Moradora da Tijuca, a psicoterapeuta Alessandra Melo é outra que aposta que “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”, como canta Lulu Santos em “Como uma onda”:

— Com certeza não sairemos da pandemia da mesma forma que entramos. Muitos casais que fingiam que estava tudo bem não conseguem ficar juntos 24 horas por dia. Vivíamos numa sociedade de autoengano. Isso explica a cultura consumista em que estávamos inseridos. Comprar era uma fuga do grande vazio que não se conseguia enxergar. Com esta parada, veio a ansiedade, mas também um convite para reorganizarmos a vida, os amores, a profissão.

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