Como Trump ainda pode vencer a eleição presidencial nos EUA

BRUNO BENEVIDES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apesar de estar atrás nas pesquisas e chegar à véspera da eleição como azarão, Donald Trump ainda tem uma chance em dez de ser reeleito presidente dos EUA --probabilidade semelhante à que Neymar tem de marcar um gol ao finalizar. Nesta temporada, o atacante brasileiro já finalizou 22 vezes por seu clube, o Paris Saint-Germain, e marcou 2 gols --o que significa que 9,09% dos chutes dele viraram gols. Já o republicano aparece 8,5 pontos percentuais atrás de Joe Biden na média dos levantamentos calculada pelo site especializado FiveThirtyEight, que aponta 10% de chances de ele sair como vencedor. O número serve para ilustrar que, apesar de Biden ser claro favorito --sua chance de vitória é de 90%--, a possibilidade de Trump vencer a disputa não é desprezível. E o caminho para ele conseguir uma virada é semelhante ao de 2016, quando o republicano também chegou atrás de Hillary Clinton nas pesquisas e acabou eleito, impulsionado principalmente por seu bom desempenho nos estados-chave. A diferença desta vez é que a vantagem de Biden é ainda maior do que a de Hillary --há quatro anos, Trump chegou ao dia do pleito 3,8 pontos percentuais atrás da rival, com 30% de chance de vitória. Por isso, para sair vencedor nesta terça-feira (3) o republicano precisa melhorar seu desempenho na maioria dos estados do Sul e do Meio-Oeste em que a disputa ainda está indefinida para ter chance no Colégio Eleitoral, o sistema indireto que define o presidente dos EUA. Ele permite a um candidato ser eleito mesmo que perca no voto popular. Foi o que aconteceu em 2016 --Hillary venceu Trump por 48,2% contra 46,1% dos votos, mas ele teve maioria no Colégio Eleitoral. Existe a chance de acontecer a mesma coisa neste ano, principalmente se a vantagem de Biden no voto popular cair. Segundo o FiveThirtyEight, se o democrata vencer por menos de 3 pontos percentuais, o republicano será o favorito na disputa no Colégio Eleitoral. No sistema, a votação que define o presidente é, na verdade, um conjunto de 51 pleitos que ocorrem de maneira simultânea, um para cada estado mais o do Distrito de Columbia, onde fica a capital, Washington. O candidato que vence a eleição em um estado leva todos os votos dele --as exceções são Nebraska e Maine, que dividem os votos de maneira mais proporcional. No fim do processo, é eleito quem conquistar mais da metade dos votos no Colégio Eleitoral, ou seja, ao menos 270 dos 538 votos possíveis. Assim, a senha para vencer a eleição é conquistar os estados onde a disputa é mais apertada. Neste ano, 13 estados apresentam esse cenário --sete do quais com leve inclinação pró-Biden nas pesquisas (Arizona, Michigan, Minnesota, Nevada, New Hampshire, Pensilvânia e Wisconsin), e seis indefinidos (Flórida, Geórgia, Carolina do Norte, Iowa, Texas e Ohio). No resto do país, a disputa está mais definida, e a chance de surpresa é ínfima. Assim, Biden começa a disputa com 212 votos no Colégio Eleitoral que podem ser considerados seguros ou muito prováveis, enquanto o republicano tem 125 na mesma situação. Caso o quadro se confirme, Biden só precisa vencer seis dos sete estados em que tem pequena vantagem para chegar aos 270 votos do Colégio Eleitoral. Já Trump tem um caminho muito mais complicado, no qual precisa vencer nos seis estados indefinidos e ainda virar ao menos dois estados com inclinação para o rival. Para tal, a primeira tarefa será vencer Texas e Geórgia. Ambos tradicionalmente votam em candidatos republicanos, mas o presidente não conseguiu abrir uma margem folgada sobre Biden em nenhum deles. A situação é um pouco mais fácil no Texas, onde o FiveThirtyEight aponta que Trump tem 1 ponto percentual de vantagem sobre Biden nas pesquisas e 61% de chances de vencer. Na Geórgia, a situação é oposta, com vantagem de 1,1 ponto percentual de Biden e chance de vitória de 57% do democrata. Na sequência, o próximo estado importante para o republicano é a Flórida, onde Biden lidera por 2,4 pontos. A última vez que um membro do Partido Republicano conseguiu chegar à Casa Branca sem vencer no estado foi em 1924, e a tendência é que essa tradição continue. Trump basicamente jogará sua sobrevivência nesses três estados, e uma derrota em qualquer um deles derruba suas chances de reeleição para menos de 1%. Mesmo se vencer em todos, suas chances de vitória sobem apenas para 36% --ou seja, Biden seguirá como favorito. Depois disso, o republicano também precisará garantir a vitória nos dois estados do Meio-Oeste que lhe são mais favoráveis, Ohio e Iowa, onde ele lidera por 0,4 ponto e 1,4 ponto percentual, respectivamente, e na Carolina do Norte, que mostra Biden na frente por 1,9 ponto. Em todos esses seis estados, na maioria das pesquisas a vantagem do líder para seu adversário está dentro da margem de erro, o que significa que uma vitória tanto de Biden quanto de Trump em qualquer um deles não seria uma surpresa. Na Pensilvânia, considerada o estado mais crucial do ciclo atual, a situação é diferente. O democrata lidera ali com vantagem de 5,1 pontos na média das pesquisas e tem 87% de chances de vitória. Uma vitória de Trump, porém, o transformaria em favorito na disputa geral --64% de chance de ser reeleito. Isso acontece porque o resultado em um estado serve como indicativo do que deve acontecer em outros semelhantes, ou seja, vizinhos com demografias parecidas. Assim, uma vitória de Trump na Pensilvânia indicaria não apenas que ele deve conquistar Ohio e Iowa com facilidade, mas que também deve ter um desempenho melhor nas pesquisas em outros estados do Meio-Oeste no qual Biden atualmente lidera, como Michigan (vantagem de 8,1 pontos percentuais do democrata) e Wisconsin (vantagem de 8,2) e até mesmo em Minnesota (vantagem de 9,3). Foi exatamente o que aconteceu em 2016: Trump venceu os estados no Sul nos quais a disputa estava apertada, como a Flórida, e surpreendeu ao vencer em mais três locais do Cinturão da Ferrugem em que Hillary tinha uma liderança mais consolidada (Wisconsin, Pensilvânia e Michigan). Assim, para evitar uma repetição de quatro anos atrás e conseguir ser eleito, Biden precisa confirmar sua liderança na Pensilvânia e no Meio-Oeste ou precisa vencer no Arizona (onde lidera por 2,9 pontos) e nos estados indefinidos do sul (Texas, Flórida, Geórgia e Carolina do Norte). Se, em vez disso, Trump levar a maioria desses dois blocos, será o republicano que vai terminar a terça-feira comemorando.