Comparação entre gráficos de apuração no Brasil e nos EUA não prova fraude; sistemas são distintos

Publicações que apontam supostas diferenças na evolução da apuração de uma eleição nos Estados Unidos e na eleição brasileira de 2022 não provam que houve fraude no pleito de outubro. Segundo as postagens, compartilhadas mais de 7 mil vezes desde o último dia 31 de outubro, a evolução linear da contagem brasileira, comparada com a mais variável dos EUA, seria suspeita. Mas o gráfico norte-americano se referia aos resultados de pesquisas eleitorais ao longo de uma campanha. Além disso, a comparação não teria validade acadêmica por equiparar sistemas eleitorais distintos, segundo especialista.

“Gráfico de uma eleição nos EUA x Gráfico de duas eleições no Brasil… no mínimo, matematicamente curioso”, afirmam publicações compartilhadas no Facebook (1, 2) e Twitter (1, 2).

Captura de tela feita em 31 de outubro de 2022 de uma publicação do Facebook ( .)

As mensagens são acompanhadas por dois gráficos: um que supostamente mostraria a evolução da apuração das eleições de 2016 nos Estados Unidos, quando Donald Trump (republicano) derrotou Hillary Clinton (democrata), e um da evolução da contagem das eleições presidenciais brasileiras de 2022.

“Na 1a foto vemos o gráfico de uma eleição ‘normal’ onde as porcentagens dos candidatos oscilam dependendo dos locais apurados. Na 2a foto vemos o gráfico de uma eleição ‘fraudada’ onde foi aplicado um algoritmo aos resultados o transformando em uma reta”, resume uma das publicações.

Mas a comparação compartilhada nas redes não é válida.

Gráfico sobre pesquisas

Nas publicações, não há indicação da fonte dos dados sobre a eleição norte-americana. Mas uma busca reversa pelo gráfico mostrou que o mesmo havia sido publicado em agosto de 2016 pela plataforma estatística Statista.

No entanto, diferente do sugerido nas publicações virais, o site informa que o gráfico exibe a variação dos resultados de pesquisas de intenção de voto durante a campanha presidencial norte-americana de 2016 – e não a evolução da apuração em si.

A informação também consta no título (“Trump vs Clinton: um ano em pesquisas”) e subtítulo do gráfico (“Pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2016 de 13 de agosto de 2015 a 13 de agosto de 2016”), que foram cortados na versão viralizada nas redes.

Captura de tela feita em 3 de novembro de 2022 do gráfico publicado no site Statista ( .)

O Statista informa que os dados do gráfico foram retirados do site Real Clear Politics (RCP). Uma consulta ao portal de fato exibe o mesmo gráfico reproduzido no post viral, também associado à variação de pesquisas eleitorais ao longo de um ano. No RCP, os dados são mais completos, indo até o mês de outubro, pouco antes da eleição de Trump.

Já o gráfico referente às eleições brasileiras realmente mostra a evolução da apuração no segundo turno. A mesma imagem foi publicada pelo jornal O Globo na edição de 31 de outubro de 2022.

Sistemas diferentes

Além disso, a comparação feita nas redes não mostra nenhum indício de fraude, analisa Filipe Mendonça, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pesquisador do Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu).

“Não há nenhuma tendência matemática ali. Em suma, a comparação é esdrúxula e serve apenas para tentar tumultuar a eleição legítima de Lula. Veja, por exemplo, a evolução da contagem dos votos em 2018, quando Bolsonaro foi eleito. Ali as linhas são mais lineares, exatamente como foi agora na eleição de 2022”, afirmou.

Captura de tela feita em 4 de novembro de 2022 da evolução dos votos nas eleições de 2018 produzido pelo portal g1 ( .)

A comparação não é nem mesmo válida, acrescenta Mendonça, já que o sistema norte-americano é diferente do brasileiro:

“Lá se usa diversos sistemas diferentes, a depender do estado, com técnicas de contagem diferentes. Ademais, a eleição presidencial nos Estados Unidos funciona via colégio eleitoral, onde atribui-se pesos distintos para cada estado da federação”, resumiu.

Nesse sistema, nem sempre o candidato com mais votos é o que vence as eleições. Por exemplo, no próprio pleito de 2016, Donald Trump saiu vitorioso, mas Hillary Clinton teve quase 3 milhões de votos a mais que o então candidato republicano.

Essa disparidade acontece porque a eleição para presidente nos Estados Unidos é indireta. Cada estado elege um número determinado de membros do Colégio Eleitoral, que representa proporcionalmente a população do país. No entanto, na maior parte dos estados, o candidato que obtém a maioria dos votos populares acaba levando todos os votos correspondentes daquele Colégio Eleitoral.

Por isso, para vencer a corrida eleitoral dos EUA é melhor que o candidato ganhe em muitos estados, mesmo que com uma margem pequena, do que em poucos com uma vantagem expressiva. Foi o que aconteceu no pleito de 2016, quando Trump saiu vitorioso: embora a sua adversária tenha recebido mais votos populares, ela só venceu em 20 estados e na capital federal, o que representou 228 votos.

Já Trump obteve maior número de votos em 29 estados, totalizando 290 votos no Colégio Eleitoral. Para vencer, um candidato à Presidência deve obter a maioria absoluta dos votos do Colégio: 270.

Esse sistema interfere até na representação gráfica dos resultados, que é diferente da que circula nas redes atualmente, aponta Mendonça.

Enquanto nos Estados Unidos se usa um gráfico “atribuindo uma cor a cada estado, azul para democrata e vermelho para republicano [...], o Brasil usa sistema único de votação, concentrada no TSE [Tribunal Superior Eleitoral]. Usamos urnas eletrônicas com sistema próprio de transferência de dados, sem passar pela internet, além de funcionar na lógica do sistema majoritário clássico”.

A representação citada pode ser vista na infografia abaixo do pleito eleitoral entre Joe Biden e Donald Trump em 2020: