Comparada a Pelé no Cosmos, Sheilla fala sobre mudança para os EUA, liga com formato inédito e meta em Tóquio

Carol Knoploch
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A bicampeã olímpica Sheilla Castro trocou a quarentena em uma casa de luxo, no litoral norte de São Paulo, por um quarto de hotel, em Dallas (EUA). Há cerca de um mês e meio, ela vive em uma “bolha”, com outras 43 jogadoras da Athletes Unlimited, única liga profissional feminina de vôlei de quadra do país e que funciona com uma fórmula inédita: não há equipes fixas, donos ou cidades sede. A cada semana, as principais estrelas escolhem suas companheiras e formam seus times.

O torneio, que conta com nomes conhecidos como Jordan Larson (prata em Londres-2012 e bronze no Rio-2016), Karsta Lowe (bronze no Rio-2016) e Bethania De La Cruz (ouro no Pan de Lima-2019), termina neste final de semana.

— Nem considero que estou nos EUA porque vivo isolada no hotel. Só saio para ir a locais ao ar livre. Com duas crianças, não posso ficar apenas no hotel — diz Sheilla, que inicialmente viajou apenas com as gêmeas Liz e Ninna, de 2 anos; o marido Brenno Blassioli chegou depois.

Nos primeiros quatro dias, elas não saíram do quarto até obter três testes negativos para Covid-19. Atletas e organizadores são testados três vezes na semana. Mas em alguns períodos o controle é diário. Todos usam máscaras nas áreas comuns, incluindo em quadra. Segundo Sheilla, ninguém da Athletes Unlimited teve diagnóstico positivo.

A participação da oposta na liga foi bastante festejada e até comparada à de Pelé no Cosmos, quando ele jogou pela embrionária liga de futebol dos EUA nos anos 1970.

— Eu era um garoto de Nova York na época e me lembro bem da contratação do Pelé. Foi bem impactante. E acho que Sheilla tem potencial para fazer o mesmo com o vôlei — diz Jon Patricof, ex-presidente do New York City FC e cofundador do Athletes Unlimited.

De acordo com as regras, a cada semana novas equipes são formadas, com as quatro melhores atletas na classificação geral atuando como capitãs e escolhendo seus times em um draft. São três dias de treino e outros três de jogos, com três sets, mas com soma dos pontos no final para determinar o campeão.

Contusão

Nesta semana, Sheilla atuou ao lado da capitã De La Cruz, da ponteira Cassidy Lichtman e da central Molly McCage. E agora vai jogar as últimas partidas, sendo a primeira amanhã, ao lado de Lichtman e da ponteira Larson (o evento tem transmissões via streaming no Facebook, YouTube, Twitter, Dailymotion e Twitch).

As atletas, que dividem os lucros da liga e estão envolvidas nas tomadas de decisões diárias, pontuam de acordo com as vitórias das equipes e também em função do desempenho individual. Pontos são somados ou diminuídos a cada jogada e a tabela de classificação é individual.

Após quatro semanas, Larson está na frente com 3.857 pontos. Sheilla, que foi MVP em uma rodada desta semana, está em 23º. A oposta teve desempenho prejudicado no início do torneio, quando se machucou.

Sheilla elogia o esquema inédito de competição e revela que se diverte ao lembrar da montagem dos times, no melhor estilo “aula de Educação Física da escola”. Para ela, este formato tende a dar certo em torneios de tiro curto. Porém, o fato de as atletas decidirem tudo e atuarem como treinadoras pode ser desgastante.

— São as capitãs que tomam as decisões sem precisar consultar os técnicos. Eles são, na verdade, ajudantes. Imagina as brigas num campeonato mais longo?

Sobre futuro, Sheilla admitiu que atualmente não tem pensado nos Jogos de Tóquio. Está focada em batalhar ao lado da americana Larson pela continuidade desta liga. Fez novas amizades e citou a levantadora Brie King, do Canadá, como promessa.

— Não sei se isso vai me ajudar ou me prejudicar na corrida por Tóquio. Mas estou focada aqui, no momento, tentando encontrar maneiras de crescer a liga. Isso é bom para o mundo inteiro. É mais um espaço.

Para ela, pela primeira vez em anos, a seleção brasileira feminina não chegará na Olimpíada como favorita ao ouro. Ela acredita que os Jogos de Tóquio acontecerão mesmo na pandemia e que está pronta para integrar o time de José Roberto Guimarães.

— O Brasil é o Brasil e todos nos respeitam demais. Temos condições de ganhar medalha, mas não chegamos como favoritas ao ouro — declarou a oposta, que resume seu desejo de voltar a defender o Brasil:

— Claro que a chance de as minhas filhas poderem me ver jogando é uma inspiração. Quero brigar por mais um ouro. Não era para terminar daquele jeito em 2016 — diz, lembrando da eliminação do Brasil para a China, nas quartas de final.