Competição de capoeira Volta do Mundo — Bambas terá categoria feminina pela primeira vez

O encontro de Priscila dos Santos com a capoeira aconteceu aos 3 anos de idade. Então moradora de uma comunidade do bairro Lins de Vasconcelos, ela costumava vender doces e pedir esmolas ao lado de duas tias nas ruas do Méier. Muitas vezes, juntavam-se a pessoas em situação de rua e passavam dias sem voltar para casa. Certa vez, uma equipe do Conselho Tutelar a levou para um abrigo no Engenho de Dentro.

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— Eu fiquei dentro de uma sala esperando minha mãe me buscar. De repente, ouvi o som de um berimbau e fui saber o que era. Quando percebi, eu já estava no meio de uma roda de capoeira. Desde essa época, a capoeira nunca mais saiu da minha vida — conta Priscila, hoje com 31 anos e conhecida como MC, por gostar de rimar.

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Após deixar o abrigo, começou a fazer aulas da modalidade em um centro cultural em seu bairro, mas continuou trabalhando e vivendo nas ruas.

— Nunca fui apegada à minha mãe e, à medida que ia crescendo, os dois maridos que ela teve tentaram abusar de mim. Mas ela não acreditava. Então, dormir fora era uma segurança de que isso não iria acontecer — conta.

Aos 15 anos, foi trabalhar e morar na casa de uma família em Duque de Caxias, que a incentivou a terminar os estudos, sem deixar o esporte de lado. Em 2018, viajou pela primeira vez, a Paris, a convite de dois mestres. Hoje, mora na Pavuna, é porteira num condomínio no Leblon e dá aulas de capoeira, além de cursar Educação Física.

— Capoeira para mim significa vida; não me deixou desistir, me lapidou. Com ela e a ajuda de Deus, consegui renascer. Hoje, eu incentivo pessoas através desta técnica — diz Priscila.

A capoeirista será uma das participantes da 2ª edição da competição de capoeira Volta do Mundo — Bambas, no próximo sábado, às 18h, no Teatro Antônio Fagundes, na Avenida Ayrton Senna 2.541. Pela primeira vez, o evento terá uma categoria só para mulheres. Oito atletas se enfrentarão em quatro modalidades. Os ingressos estão disponíveis no Sympla.

Saverio Scarpati, idealizador do evento, acha que a capoeira reflete os desequilíbrios da sociedade.

— Muitas meninas começam a praticar ainda crianças, mas não conseguem dar continuidade na adolescência porque são recrutadas para afazeres domésticos, enquanto os meninos continuam treinando. E a categoria feminina é um estímulo à equidade — afirma.

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