Complexo do Alemão é cenário de série LGBTQIA+

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RIO — “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...”. O clássico do funk, lançado por Cidinho e Doca em 1995, permanece atual. Por motivos diversos. Um deles é o direito de ir e vir, em segurança, sendo homossexual, transexual... Nascido e criado no Complexo do Alemão, onde mora, Kelson Succi usa as cores do arco-íris para fazer um pedido de paz na série “Amor natural”, que tem o primeiro episódio disponível gratuitamente no canal Sesc RJ, no YouTube.

Ao idealizar a obra, juntamente com Vinícius Teixeira, Succi criou a favela onde sonha viver, ou seja, um lugar livre de preconceitos.

— “Amor natural” joga luz sobre as comunidades, onde, de um modo geral, não se tem tanto acesso a informação. Os moradores de favela não são necessariamente preconceituosos, mas muitos simplesmente não conseguem se enxergar no lugar de uma pessoa LGBTQIA+, por isso não desenvolvem a empatia. A série mostra um jogador de futebol, hétero, que mora na favela e que não tem o menor preconceito em estar próximo aos meninos gays. A nossa intenção não é mostrar o homofóbico que agride. Pelo contrário. O menino que assiste à série vai ver que dá para mudar a chave; ou seja, que é possível deixar de ser grosseiro para ser acolhedor — diz o roteirista, que também dirige o projeto e atua nele.

Para Succi, se a série promover um debate sobre o tema no Complexo do Alemão, que foi um dos cenários que serviram de locação, já terá cumprido a sua missão.

— A causa LGBTQIA+ não é abordada abertamente, naturalmente, no Alemão. Eu sou gay, me sinto à vontade, seguro, na comunidade em que moro, mas ainda há muito o que ser trabalhado na cabeça das pessoas para dar um basta no preconceito. Sabemos que a discriminação está também no asfalto, na Zona Sul, mas se eu conseguir tocar os meus iguais já será um grande feito. O caminho é o papo reto, sem filtro, mas com muito amor — observa Succi.

Para começo de conversa, explica, o melhor é trocar a palavra aceitação por outra.

— Não se trata de aceitar, mas de normalizar. Duas mulheres, dois homens, podem e devem andar de mãos dadas, trocar carinhos, selinhos. Não há nada de errado em demonstrar afeto. O cotidiano da comunidade LGBTQIA+ é muito demonizado na maioria das favelas. A Maré é uma comunidade que, felizmente, já avançou neste sentido. Lá, todas as siglas do movimento são livres para ser quem são. No Alemão, esta normalização ainda não é tão forte, mas vai ser! — torce o artista, que tem Vinícius Teixeira, Erica Ribeiro, Reinaldo Junior, Thadeu Torres e Lux Negre como companheiros de elenco.

Em família, Succi teve mais sorte do que a maioria das pessoas LGBTQIA+:

— Sou um privilegiado. Dentro de casa, nunca ninguém me criticou por ser gay.

Além de pedir um basta no preconceito, “Amor natural” é um espaço de incentivo às boas ações.

— No lugar do filtro nas redes sociais, por que não elogiar a beleza real do outro? O caminho para superarmos os danos desta pandemia é afagar corações — sugere Succi.

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