Comprar um time para melhorar a imagem? Conheça o sportswashing, algo que pode virar moda no Brasil dos clubes-empresas

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Roman Abramovich, dono do Chelsea, segura a taça da Champions League 2020/2021 ao lado do capitão Azpilicueta. Foto: Marc Atkins/Getty Images
Roman Abramovich, dono do Chelsea, segura a taça da Champions League 2020/2021 ao lado do capitão Azpilicueta. Foto: Marc Atkins/Getty Images

Sportswashing é um termo que surgiu para descrever a tentativa de um grupo, família, estado-nação ou indivíduo de se beneficiar do prestígio de um clube, associação ou atleta na tentativa de mudar a sua imagem. No entanto, como alerta Emanuel Leite Jr., doutorando em Políticas Públicas pela Universidade de Aveiro, “é preciso ter em conta que este termo não encontra respaldo em estudos científicos – seja na sociologia do futebol, seja na economia política, na geopolítica” e que essa falta de aprofundamento pode acarretar em generalizações e simplificações do fenômeno.

O assunto voltou à tona este ano quando o tradicional clube inglês Newcastle foi comprado pelo príncipe Mohammed bin Salman através do Fundo de Investimentos Públicos da Arábia Saudita (PIF). Foi noticiado, inclusive, que o grupo tem interesse em adquirir mais clubes no mundo e que isso poderia incluir um clube no Brasil que aprovou a lei dos clubes-empresa, que incentiva a mudança de status dos clubes brasileiros de associações para sociedades, permitindo assim que elas sejam adquiridas através de investimentos.

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Renato Coutinho, professor de História do Brasil República do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, comenta a possibilidade. “Essa preocupação com a origem do dinheiro e com os grupos políticos e de investidores é uma preocupação legítima e relevante. Fundamentalmente, trazendo uma questão histórica existe também uma preocupação da imprensa, dos governos, das ligas de futebol, mas também dos torcedores”. Renato traça um paralelo entre o futebol inglês e o brasileiro já que ambos possuem clubes com longas histórias e que nasceram no formato de associações. “Claro que o discurso é da melhoria do time, da compra de novos jogadores, do investimento na estrutura da equipe, e isso pode seduzir alguns torcedores, mas de um modo geral como o caso do Manchester United, o que se percebe é uma grande insatisfação a estes grupos, a estas famílias que compram clubes e que muitas vezes nem conseguem construir uma relação de identificação com os torcedores”.

Na cobertura do sportswashing até o momento, alguns dos casos mais marcantes, além do Newcastle, envolvem o magnata russo Roman Abramovich, dono do Chelsea que enfrentou acusações de lavagem de dinheiro. O City Football Group, dono de diversos clubes incluindo o Manchester City e que atualmente é comandado pelo membro da família real e Ministro de Assuntos Presidenciais dos Emirados Árabes Unidos, Mansour bin Zayed Al Nahyan. O patrocínio do governo de Ruanda, um dos países mais pobres do mundo e que atualmente vive sob um regime ditatorial, ao Arsenal. O país pagou 34,5 milhões de euros para estampar “visite Ruanda” por três anos na camisa do clube inglês, o negócio não foi bem recebido pelos fãs e por entidades internacionais.

Em comum, os exemplos citados acontecem no campeonato inglês mas possuem seus recursos oriundos de países fora do eixo eurocêntrico. Emanuel Leite Jr. ilustra que esses esforços não são exclusivos de países fora do eixo e compara as campanhas de países sede da Copa do Mundo entre o Catar 2022 e a Alemanha de 2006. “Veja como a questão da hegemonia e da reprodução das ideias e dos ideais das classes dominantes se reproduzem. Enquanto os investimentos sauditas ou cataris no futebol são taxados de sportwashing pelo Ocidente, a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha não foi assim considerada. E a Copa da Alemanha foi claramente usada para criar uma nova imagem do país para o mundo. A Alemanha usou o Mundial da FIFA como forma de tentar se livrar definitivamente da imagem negativa dos tenebrosos tempos Nazistas e se mostrar aberta ao mundo, amigável, acolhedora. Você já viu alguém se referir à Copa de 2006 como sportwashing? Pois é”.

Banner da Copa de 2006 diz não ao racismo. Foto: Tony Marshall - PA Images via Getty Images
Banner da Copa de 2006 diz não ao racismo. Foto: Tony Marshall - PA Images via Getty Images

Emanuel continua, “também não ouviu a imprensa inglesa, que foi onde surgiu o termo sportwashing, usar a expressão para falar da intenção de Boris Johnson de que o Reino Unido apresente uma candidatura com a Irlanda para sediarem a Copa do Mundo de futebol masculino”. A campanha surgiu na mesma época em que a Inglaterra passava pelo Brexit, a saída da união europeia, que foi criticada mundialmente.

Os exemplos, no entanto, estão mais próximos do que acreditamos. Renato Coutinho explica que esta prática não é novidade. A busca de reestabelecer ou melhorar a sua imagem ou de formalizar atividades ilícitas através do esporte é algo que ocorre há muito tempo. “A gente observa nesses espaços de festas e desporto no Rio de Janeiro, figuras que praticaram atividades ilícitas mas que estão lá apertando a mão de lideranças políticas, artistas. Eu estou dando o exemplo do Rio de Janeiro e do Jogo do Bicho pois acho que é a mais explícita”. Renato dá exemplos de figuras envolvidas em atividades ilícitas no Rio de Janeiro e que fizeram uso desses espaços: “Castor de Andrade, de maneira mais emblemática no Bangu, mas também a participação do Emil Pinheiro no Botafogo e de todas essas lideranças que participaram do universo cultural do Rio de Janeiro na medida que elas estão nas escolas de samba há décadas. E essas escolas de samba também são espaços de artistas populares, também são espaços de participação de jornalistas, de atletas e de lideranças políticas”.

Em suma, para o professor de história, a questão do sportswashing é mais complexa do que parece: “Eu acho que é importante que a gente não reproduza pensamentos preconceituosos baseados de onde é oriundo o dinheiro. É claro que a gente reconhece que existem famílias e grupos que em casos fizeram uso do futebol para legitimar suas atividades, mas olhar para estes países como a matriz do problema é errado”. Ele cita ainda exemplos como o futebol italiano nos anos 80 em que o crime organizado estava diretamente envolvido e possuía um esquema de apostas, ou na Argentina onde Organizações criminosas que compõe os grupos de Barra Brava que possuem laços estreitos com os clubes e as torcidas organizadas.

“Futebol é um espaço de identificação social, ele não segue apenas a lógica das vitórias e derrotas, mas a ligação de um povo com a sua cidade, a sua história e é por isso que há o interesse em usá-lo para esta legitimação”, comenta Renato Coutinho que lista os fatores em jogo “essas sociedades encontram nesses espaços desportivos e culturais, formas de tentar legitimar suas atividades, os dirigentes buscam recursos e os torcedores ficam entre o sucesso desportivo e o medo de que a associação se tornar algo sem vínculo e identificação com as suas origens culturais”, mas que isso pode e acontece em qualquer lugar do mundo.

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