Compromisso? Quais constrangimentos aguardam Sergio Moro até a "loteria" do STF?

Matheus Pichonelli
O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado do ministro da Justiça, Sergio Moro, durante visita ao Centro Integrado de Inteligência e Segurança Pública da Região Sul (CIISPR-Sul), em Curitiba (PR).
O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado do ministro da Justiça, Sergio Moro, durante visita ao Centro Integrado de Inteligência e Segurança Pública da Região Sul (CIISPR-Sul), em Curitiba (PR).

Então quer dizer que Jair Bolsonaro quer honrar o compromisso firmado com Sergio Moro de indicar o seu atual ministro da Justiça para a primeira vaga que abrir no Supremo Tribunal Federal?

Mas quem poderia imaginar?

A declaração, feita pelo presidente em entrevista à Rádio Bandeirantes, pegou todo mundo de surpresa. Inclusive o futuro agraciado, que já disse considerar uma indicação ao STF um verdadeiro prêmio de loteria.

Mas quem diria…

Moro, um dos principais símbolos da Lava Jato e do combate à corrupção no país, estrela de seriado da Netflix e capa de revista no auge da crise nos governos petistas, correu para desmentir o chefe, dizendo que veja lá, não é bem assim, é preciso esperar o momento certo e pensar melhor sobre o assunto e que tais.

“Não vou receber um convite e estabelecer condições sobre circunstâncias futuras que não se pode controlar. O que eu levei para o presidente é que [no cargo] eu queria trabalhar contra a corrupção, crime organizado e crime violento. E houve uma convergência de pautas, além de o presidente ter me dado carta branca para construir [a equipe do] ministério”, declarou.

O estrago, porém, estava feito.

A exposição, como resumiu à coluna Painel, da Folha de S.Paulo, o ministro do STF Marco Aurélio, que se aposenta em 2021, “é ruim para o candidato (à vaga no Supremo), para a Presidência da República, e para a instituição Supremo”. Isso porque, segundo ele, fica parecendo “que os cargos que lá existem são destinados a uma troca-troca”.

Troca-troca, não, excelência. “Nova política”.

O leitor mais atento poderia se questionar se o compromisso foi firmado antes, durante ou depois das eleições.

Poderia se perguntar também quem teria coragem de largar 20 anos de carreira na magistratura para atuar como fiel da legitimidade de um presidente eleito após a saída da disputa de um candidato que ajudou a condenar?

Deve se questionar, inclusive, o que ministro teria oferecido em troca da promessa de indicação? O prestígio?

E o que tem na cabeça o presidente em expor um de seus principais ministros a uma sabatina permanente pelo próximo um ano e meio?

Ou tudo não passou de um grande descuido?

Até o momento, Moro passou ileso da queda brusca de aprovação do governo. Pesquisas de opinião feitas nos 100 primeiros dias da gestão mostravam que a moral do ministro seguia elevada com 59% da população, índice bem superior à do chefe.

Mas o prestígio que decidiu colocar à prova começa a ficar exposto entre ditos e desditos do presidente, que já barrou uma indicação do ministro para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. O motivo? A cientista política Ilona Szabó pensava diferente do presidente na questão do armamento, e no governo Bolsonaro não se pode pensar diferente do chefe.

Pelo ritmo, há muitos sapos ainda a serem engolidos pelo ministro até sair o bilhete da loteria.

Ao que tudo indica também, o pior ainda está para vir.

Na semana passada, Bolsonaro expôs o seu presságio a respeito de um certo “tsunami” pelo país.

Na segunda-feira, o Tribunal de Justiça do Rio autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, e do ex-policial, ex-motorista e ex-assessor do parlamentar, Fabrício Queiroz.

A pedido do Ministério Público, serão investigadas também as movimentações bancárias de Fernanda Bolsonaro, companheira do senador, e sua empresa; duas filhas e a esposa de Queiroz, além 88 ex-funcionários do gabinete e seus parentes, entre eles a irmã e a mãe de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-PM acusado de liderar o escritório do crime, milícia suspeita de envolvimento em diversos homicídios, como o da vereadora Marielle Franco.

O ex-policial, que já foi homenageado por Flávio em uma cerimônia na Assembleia Legislativa do Rio, está foragido.

Queiroz tem paradeiro incerto desde que o caso veio à tona.

No meio do quiproquó, o vereador Carlos Bolsonaro, irmão do investigado, decidiu atacar o papel da imprensa em requentar a notícia de uma quebra de sigilo que, na prática, já aconteceu. (Será?).

Ele se queixou que a mídia não deu o mesmo tratamento para “o grande fato político do dia” - provavelmente, uma referência à delação assinada entre o empresário Henrique Constantino, dono da Gol, e o Ministério Público Federal.

Na delação, Constantino relata pagamento de propina a diversos agentes políticos, entre eles o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O tuíte tem o potencial de lançar aos cães o principal fiador da reforma da Previdência no Congresso, cujo sucesso é considerado essencial para a sobrevivência do próprio governo.

É com essa turma que Sergio Moro se aliou em troca de uma promessa que, apesar da declaração do chefe, ele jura não ter feito.

Como vai se posicionar diante de tudo isso? Depende do quão disposto ele está para abraçar o seu bilhete da loteria.

Matheus Pichonelli, jornalista e cientista social, escreve às terças e sextas-feiras no Yahoo