Computador de ucraniana esfaqueada no Aterro passou por cinco receptadores em uma semana

Levado por um adolescente de 16 anos no dia 12 de maio, durante uma abordagem na qual o menor chegou a esfaquear uma ucraniana no Aterro do Flamengo, o computador da turista, avaliado em quase R$ 10 mil, foi recuperado na última quinta-feira pela Polícia Civil. Foi a partir dele que os agentes conseguiram localizar o suspeito, apreendido nesta segunda-feira pela Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat). No curso da investigação, a especializada descobriu que, após ser tomado da vítima, o equipamento passou por cinco diferentes receptadores em apenas uma semana.

Pelo número de série do aparelho, a polícia localizou um perfil no Facebook no qual ele estava sendo anunciado. Em seguida, foi possível identificar o comprador, que adquiriu o notebook por menos da metade do valor de mercado. Devido a uma marca na lateral do computador, Yulya Golovko, de 26 anos, confirmou, por foto, que se tratava da máquina dela.

Já em posse do equipamento, a Deat trilhou o caminho de volta que ele havia percorrido, localizando, uma a uma, as mãos pela qual o notebook havia passado nos dias anteriores. Ao todo, quatro pessoas foram identificadas por receptação dolosa, quando há intenção de cometer o delito, e uma pela modalidade culposa do mesmo crime. O computador ainda passará por perícia e, na sequência, será devolvido à ucraniana.

De acordo com a Polícia Civil, o adolescente apreendido nesta segunda-feira já figurava em oito registros de ocorrência como autor de crimes análogos a roubo, furto e lesão corporal. A última passagem do menor pelo Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) encerrou-se em 10 de maio, apenas dois dias antes da abordagem à turista ucraniana.

O suspeito foi localizado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Embora as passagens anteriores por delegacias correspondessem a fatos ocorridos em outras regiões, como a própria Baixada, a Zona Norte da capital e até no interior do estado, o adolescente afirmou informalmente aos agentes que vinha "roubando muitos celulares" na Zona Sul, em especial nas redondezas do Aterro. Por protocolo, ele será encaminhado à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

— A vítima reconheceu o suspeito presencialmente, de modo inequívoco e com total segurança. Ela inclusive ficou muito emocionada e chegou a chorar ao vê-lo — relata a delegada Patricia Alemany, titular da Deat.

No momento em que foi abordada, Yulya Golovko, de 26 anos, passeava de bicicleta com o namorado, Kostiantyn Miska, de 33 anos, também ucraniano. Os dois alugaram o equipamento no Aeroporto Santos Dumont e seguiam em direção à Zona Sul. O ataque aconteceu na altura do Instituto Fernandes Figueira, próximo ao Momumento a Estácio de Sá. Kostiantyn, que pedalava um pouco à frente da companheira, sequer pôde reagir ou acompanhar a cena, que durou poucos segundos. Quando ele se virou, o ladrão já havia partido em disparada, e Yulya estava caída ao chão, ferida.

O ucraniano buscou socorro, que foi prestado por policiais militares do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTur). Yulya foi levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Copacabana e, em seguida, transferida para o Hospital municipal Miguel Couto, no Leblon, de onde teve alta no dia seguinte. Apesar de esfaqueada várias vezes, especialmente no braço, as perfurações não atingiram órgãos vitais nem geraram lesões mais graves. Ela permanece no Rio e vai tirar os pontos na próxima semana.

O casal chegou ao Rio cerca de duas semanas antes do crime, após passarem um mês na Colômbia. Os dois deixaram Kiev, a capital ucraniana, semanas antes da invasão do país pela Rússia, que deu início a um conflito sangrento. Nos planos, após a estadia no Rio, estava também uma viagem para Buenos Aires, na Argentina, que agora depende, entre outros fatores, da recuperação plena de Yulya.

Os ucranianos são designers — ela de produtos, ele de interiores. Kostiantyn é dono de uma empresa especializada em reforma de cozinhas sediada em Nova York, nos Estados Unidos. Além disso, os dois também trabalham com programação de dados, atividade que ambos vêm exercendo durante o passeio pela América do Sul. Ao mesmo tempo, o casal, cujos pais ainda estão em Kiev, também convocou, pelas redes sociais, ajuda para os compatriotas em guerra.

Yulya organizou até mesmo uma campanha que arrecadou fundos para a compra de equipamentos para os combatentes que estão enfrentando os soldados russos. Entre os utensílios adquiridos e remetidos à Ucrânia com o dinheiro da "vaquinha", centralizada em uma conta da própria jovem, que publicou os dados bancários no Instagram, estão luvas, capas, binóculos, facas e termovisores, entre diversos outros materiais.

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