Comunidade ianomâmi no AM respira aliviada e faz planos após vacinação chegar à maioria dos adultos

FABIANO MAISONNAVE
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MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - Após a ampla maioria dos adultos ter sido vacinada com a segunda dose, o número de infectados pela Covid-19 caiu significativamente e já há planos para a retomada de atividades como o turismo. Distante do Brasil, esse cenário já é realidade em Maturacá, uma das maiores comunidades indígenas do país, onde vivem cerca de 2.000 ianomâmis. "Com a chegada da vacina, diminuíram os casos na comunidade e as internações no polo base de saúde", diz a liderança ianomâmi de Maturacá Valdemar Pereira Lins, 29, via WhatsApp. "As pessoas estão felizes." Localizada no município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a comunidade Maturacá está no lado ocidental da Terra Indígena Yanomami, próximo ao Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil e um lugar sagrado dos ianomâmis. Nos últimos anos, os ianomâmis de Maturacá vêm construindo um projeto para levar turistas até o cume do Yaripo, como eles chamam a sua montanha. As primeiras expedições começariam em 2020, mas a pandemia adiou os planos. Agora, afirma Lins, o projeto está sendo retomado, embora ainda não haja uma data para começar. O turismo é visto como uma alternativa de renda para Maturacá. Há décadas, os ianomâmis sofrem com o garimpo ilegal de ouro. O fluxo de garimpeiros não indígenas é um dos responsáveis pela disseminação do vírus, assim como as periódicas visitas dos ianomâmis a São Gabriel para a retirada de benefícios, principalmente o Bolsa Família. Vacinado pela segunda vez em 26 de fevereiro, Lins diz que a Covid-19 golpeou duro os moradores de Maturacá, com vários adultos e crianças doentes, incluindo ele, que não precisou ser hospitalizado. O pico da doença ocorreu em meados do ano passado. Houve quatro mortes confirmadas. A vacinação foi realizada pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Yanomami, vinculada ao Ministério da Saúde. Em termos logísticos, não se tratou de uma ação inédita, já que os profissionais realizam anualmente uma campanha mais ampla contra a gripe, em que todos acima de seis meses de idade são vacinados. No caso da Covid, a imunização inclui apenas os maiores de 18 anos, cerca de 720 adultos. Mas a vacinação em um local tão remoto não ocorre sem percalços. A campanha está ocorrendo ao longo de vários dias, já que vários ianomâmis estavam fora de Maturacá, em expedições de caça ou aliciados pelo garimpo. Outro problema é a checagem de documentos. Embora ilegal, comerciantes de São Gabriel da Cachoeira costumam reter a documentação e o cartão do Bolsa Família para a retirada do dinheiro na ausência dos beneficiários. Ao contrário de outras terras indígenas, não houve resistência para se vacinar. "A associação, a equipe de saúde e as lideranças já tinham conscientizado que vacina é a única forma de combater, prevenir e proteger", afirmou Lins. Também pesou a experiência dos mais velhos com outras doenças trazidas por não indígenas que assolaram os ianomâmis no passado. "Eles contam que já passaram por isso com o sarampo e malária e que, se não tiver vacina e remédio, todo mundo morre", diz a liderança. Mas não faltaram informações falsas sobre a Covid, que chegaram por WhatsApp. "Ficaram falando: se tomar vacina vão virar morcego, veado." O desafio na saúde agora, diz a liderança ianomâmi, é tratar os casos de desnutrição e diarreia entre as crianças, ambas ocorrências bastante comuns ali. Administrado pelo Exército, o hospital mais próximo, em São Gabriel, não conta com UTI e tem sido alvo constante de reclamações pela falta de atenção específica aos indígenas, incluindo falta de profissionais que falam as línguas da região do Alto Rio Negro, que abriga 23 povos. No Brasil, 37% dos 410 mil indígenas aldeados acima de 18 anos foram vacinados com as duas doses até a última quarta-feira (10), segundo dados do Ministério da Saúde compilados pela Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil). Segundo a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), todas as doses necessárias para a imunização do público-alvo já se encontram nos 34 DSEIs. A meta é vacinar 90% do público-alvo, mas não há uma data única para finalizar o processo devido às dificuldades logísticas. Cuidados Para a médica sanitarista indigenista Sofia Mendonça, o fato de que toda a região do Alto Rio Negro ainda não ter atingido o mínimo de 70% de vacinados faz com os ianomâmis de Maturacá precisem manter o uso da máscara e o distanciamento social, mesmo após a segunda dose. "Eles estão protegidos dos casos graves, mas têm chance de pegar a doença", diz Mendonça, coordenadora do Projeto Xingu, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). "Em muitos bolsões perto de Maturacá e em outros lugares, está havendo muita recusa à vacina. Eles podem visitar parentes não protegidos." Mendonça afirma que a decisão do governo federal de não vacinar indígenas que moram em cidades (não aldeados) é outro agravante. "É crucial ampliar o processo de vacinação. Muitos indígenas vão à cidade e voltam para a aldeia." Além disso, Maturacá está próxima da fronteira com a Venezuela, onde vive parte da população ianomâmi. O fluxo de pessoas pela floresta é constante devido aos garimpos ilegais no país vizinho. Ao contrário do Brasil, o regime do ditador Nicolás Maduro não colocou indígenas -nem idosos- na primeira fase. Só foram imunizados até agora profissionais de saúde, a classe política e comandos policiais. Feitas as ressalvas, Mendonça diz que a imunização coletiva em Maturacá é motivo de comemoração. "É sensacional que eles estão protegidos individual e coletivamente. Agora, eles têm de ajudar na divulgação e dizer: 'Tomei as duas doses e estou protegido', para que outras pessoas em outras aldeias também sejam protegidas".