Comunidade muçulmana nos EUA cresceu após 11 de Setembro, mas islamofobia permanece

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DEARBORN, EUA, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na rua Hartwell, em Dearborn, as casas típicas de subúrbios americanos intercalavam no começo deste mês duas bandeiras no quintal: ora a dos Estados Unidos, ora as que celebravam a Ashura, data importante para os muçulmanos xiitas por marcar o martírio do imã Hussain, neto do profeta Maomé.

Vizinha a Detroit, Dearborn, no estado de Michigan, é uma das cidades com maior presença de árabes no país. Nos últimos 20 anos, desde o 11 de Setembro, a comunidade local experimenta dois fenômenos: segue alvo de preconceitos ao mesmo tempo que registra avanços políticos, econômicos e populacionais.

Segundo o instituto americano Pew Research Center, o número de muçulmanos nos EUA vem crescendo continuamente nos últimos anos. Em 2007, eles eram 2,35 milhões -0,8% da população do país. Dez anos depois, chegaram a 3,45 milhões, e a projeção mais recente é de que em 2020 eles fossem 3,85 milhões -1,1% dos habitantes. Como o censo americano não inclui perguntas sobre religião, os dados do Pew são uma das estimativas mais usadas para avaliar esse parâmetro.

Cerca de metade do crescimento pode ser atribuído ao fluxo contínuo de imigrantes muçulmanos, que cresceu até 2017, quando o republicano Donald Trump se tornou presidente com uma forte agenda anti-imigração e anti-islã. Outra causa demográfica é a tendência de casais dessa religião terem mais filhos do que a média, explica Besheer Mohamed, do Pew. "Eles também costumam ser mais jovens, então uma porcentagem maior dos muçulmanos está numa fase da vida em que as pessoas aumentam a família."

Segundo Mohamed, um fator que não tem muito impacto nessa estatística é a conversão religiosa. "O número de americanos que se tornam muçulmanos é praticamente o mesmo dos que deixam a religião."

Outro termômetro do crescimento muçulmano é o número de mesquitas no país, que mais do que dobrou nos últimos 20 anos: de 1.209 no ano 2000 para 2.769 em 2020, segundo a Cooperative Congregational Studies Partnership, grupo multirreligioso de pesquisa. O levantamento da entidade também revela que o número de frequentadores dos templos é maior do que antes: a média saltou de 292 para 410 nas orações das sextas-feiras. Se for somado o número de fiéis que comparecem ao Eid al-Fitr --grande oração no fim do mês sagrado do Ramadã--, o número total de muçulmanos no país chegaria a 4 milhões.

Em Dearborn, líderes e pesquisadores estimam que entre 50% e 60% dos 100 mil habitantes tenham origem árabe --do Oriente Médio ou do norte da África--, a maioria, libanesa ou iraquiana. Há entre eles muçulmanos e cristãos, que chegaram em várias ondas, muitas vezes após guerras em seus países.

A comunidade começou a se formar na região de Detroit há mais de cem anos. No começo do século 20, muitos foram trabalhar nas linhas de produção de Henry Ford, que nasceu em Dearborn e escolheu a cidade para instalar um complexo industrial, que pagava bons salários sem exigir domínio do inglês.

Detroit enriqueceu ao se tornar centro mundial da produção de carros, mas entrou em declínio a partir dos anos 1970, conforme fábricas migraram para lugares onde poderiam pagar salários menores.

"Muitos usaram o que ganharam para montar ou comprar um pequeno negócio, como um mercadinho ou um posto de gasolina", conta Ahmad Chebbani, 61, diretor da Câmara de Comércio Árabe-Americana. "Com o tempo, cresceram. Quem tinha um posto passou a ter 10, 20. E os filhos puderam estudar."

Assim, hoje há médicos, advogados e engenheiros na região que anunciam serviços em inglês e em árabe nas fachadas. Outro aspecto prosaico, a comida halal (preparada de acordo com preceitos islâmicos) chegou até aos hambúrgueres, servidos numa lanchonete de decoração típica dos anos 1950 ao som de música pop americana.

"Você sente que a cidade foi feita para você, não como se fosse alguém de fora", diz Asma Babab, 26, coordenadora de projetos. "Mas a islamofobia continua presente, muitas vezes de forma sutil. Em uma entrevista para uma bolsa, no ensino médio, me perguntaram se usar lenço na cabeça afetaria meus estudos de alguma forma. Pareciam querer me lembrar que usar um hijab seria um problema."

Em 2017, nos primeiros meses do governo Trump, cerca de metade dos adultos muçulmanos americanos (48%) disseram ter experimentado pessoalmente alguma discriminação em razão de sua religião, segundo o Pew. Dez anos antes, o índice era de 40%. O instituto também detectou que a visão sobre o islã foi se tornando mais polarizada. No mês passado, 72% dos republicanos disseram acreditar que ele encoraja mais a violência do que outras religiões; 32% dos democratas responderam o mesmo.

O 11 de Setembro foi marcante para a comunidade. Naquele dia, pais e mães correram para buscar seus filhos na escola quando veio a notícia de que muçulmanos estariam por trás dos ataques. "Recebi ameaças por email contra mim e minha família. Enviei para a polícia e disseram que tinham sido enviadas por um adolescente", conta Chebbani, da Câmara de Comércio.

Após os ataques, o governo de George W. Bush criou a lei Patriota, que expandiu poderes do FBI e permitiu que agentes passassem a investigar quaisquer pessoas consideradas como potenciais terroristas, mesmo que não tivessem feito nada de errado. Foram criadas listas de restrição e de suspeitos, que não são públicas, mas constrangem muçulmanos.

"Cidadãos são interrogados em suas casas. Agentes do FBI perguntam quantas vezes eles rezam por dia, se são sunitas ou xiitas, se frequentam a mesquita, com qual imã têm proximidade", conta o imã Dawud Walid, diretor-executivo da Cair Michigan, entidade de defesa de direitos civis para os muçulmanos.

A Cair considera que as práticas são inconstitucionais e acionou a Justiça para questioná-las. "A política de vigilância foi reforçada durante o governo [de Barack] Obama. A prática tem apoio de democratas e republicanos", diz.

Com a eleição de Trump, grupos racistas passaram a fazer mais atos públicos. "A região acabou sendo um ímã para esses grupos, que adoram gravar vídeos em frente às mesquitas", conta Sally Howell, diretora do Centro de Estudos Árabes da Universidade de Michigan. "Havia um festival anual de cultura árabe, e eles colocavam uma cabeça de porco em uma estaca, para tentar provocar a multidão. Ao final, tiveram de cancelar o evento por questões de segurança."

Por outro lado, a postura anti-islã de Trump fez com que o Partido Democrata passasse a defender essa comunidade de forma mais enfática. Nas eleições de 2018, Ilhan Omar (Minnesota) e Rashida Tlaib (Michigan) foram as primeiras mulheres muçulmanas eleitas para a Câmara dos Representantes.

Neste ano, Dearborn também pode ter um feito eleitoral inédito, com o primeiro prefeito de origem árabe. O democrata Abdullah Hammoud, 31, venceu as primárias do partido para o pleito em novembro. "A comunidade é muito atuante e próxima dos governantes. Os empresários árabes são importantes doadores de campanha", diz Ronald Stockton, pesquisador da história dos árabes na região de Detroit.

Apesar dos avanços recentes, há dúvidas se o futuro será de mais tolerância. "O mesmo argumento foi usado no passado, com as gerações dos filhos dos que protestaram nos anos 1960 e 1970", afirma Walid. "Como afro-americano e muçulmano, não tenho muitas expectativas de que a sociedade será menos islamofóbica."

Diretora da Rede Nacional para Comunidades Árabe-Americanas, Rima Meroueh vê pequenas mudanças diárias nas relações que trazem esperança. "O que a comunidade faz importa muito mais do que as ações barulhentas de pequenos grupos."

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