'Comunista' em 2018, França justifica foto com Bolsonaro por voto da direita

JOELMIR TAVARES
·7 minuto de leitura
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP - 28.07.2020 - Retrato do ex-governador Márcio França, pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PSB. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP - 28.07.2020 - Retrato do ex-governador Márcio França, pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PSB. (Foto: Karime Xavier/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Menos de dois anos separam o Márcio França que tentava se desvencilhar da pecha de comunista na campanha de 2018 do Márcio França de agora, que vive uma relação ambígua com Jair Bolsonaro e sonha também com o voto de direita na eleição municipal.

O pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro) passou a ter que se justificar sobre a relação com o presidente (sem partido e, até aqui, sem favorito declarado na disputa paulistana) depois de ir ao encontro de Bolsonaro no início de agosto.

Leia também:

A foto dos dois juntos frustrou apoiadores à esquerda e acendeu o alerta tanto no partido de França quanto no PDT (Partido Democrático Trabalhista), principal legenda da coligação. Seu postulante a vice, Antonio Neto, vem da sigla do ex-presidenciável Ciro Gomes, incansável opositor de Bolsonaro.

Derrotado por João Doria (PSDB) no segundo turno da corrida para governador, França recebeu do oponente a alcunha de "Márcio Cuba" (em referência à ilha socialista) como parte da estratégia do tucano para associar o adversário à esquerda e ao PT.

Elogios do rival ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foram resgatados por Doria. Em 2009, quando era deputado federal, França também deu assinatura em apoio à proposta de emenda à Constituição que abria a possibilidade de Lula tentar um terceiro mandato na Presidência.

Doria surfou na popularidade de Bolsonaro para pregar o voto "BolsoDoria" no estado e, com isso, derrotar o antigo aliado por diferença de 4%.

França foi um dos artífices da campanha que elegeu Doria prefeito da capital em 2016. Tido como político moderado e de discurso conciliador, ele foi vice de Geraldo Alckmin (PSDB) e assumiu o governo paulista por nove meses em 2018, após Alckmin renunciar para disputar o Planalto.

O aceno a Bolsonaro ganhou materialidade com a foto que correu as redes sociais, mas França já sinalizava postura pouco combativa em relação ao governo federal, apesar de fazer críticas esparsas e falar em divergências ideológicas com o presidente.

O tom é uma tática para atrair a simpatia dos que votaram em Bolsonaro e veem em Doria um inimigo dele. Daí também o esforço para colar a imagem do governador na de Bruno Covas (PSDB), que herdou a prefeitura de Doria em 2018 e disputa a reeleição.

França esteve com Bolsonaro quando o presidente visitou obra de uma ponte em São Vicente (SP), cidade que é reduto político do ex-governador.

O potencial negativo da foto entre eleitores avessos ao presidente fez líderes do PSB e do PDT agirem nos bastidores para tentar neutralizar a crise. Setores do PDT chegaram a pressionar por uma reavaliação da parceria, tratada como ensaio de uma coalizão nacional para 2022.

França, então, correu para explicar que aproveitou a presença do presidente para discutir a ajuda do Brasil a Beirute após uma explosão na capital do Líbano. Disse que os antepassados de sua esposa, Lúcia, vieram do país, e que algumas questões "transcendem as ideologias políticas".

Apesar do esforço, ganhou corpo a versão de que França flertava com Bolsonaro, tese logo amplificada por adversários à esquerda na corrida municipal, como Orlando Silva (PC do B) e Guilherme Boulos (PSOL).

"Tem muito camaleão na política, mas tem gente exagerando", tuitou Orlando sobre o episódio. "Pra quem ainda queria acreditar que Márcio França é 'progressista', aí vai esse encontro amigável com o genocida", provocou Boulos ao postar a foto.

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, veio a público afirmar que o partido não toleraria postulante "vinculado ao bolsonarismo" e suspenderia pré-candidaturas nessa condição. A mensagem foi tida como uma indireta ao aliado, o que a sigla desmentiu.

Com a pressão crescente, dentro e fora da campanha, entrou em cena uma operação para apartar as figuras de França e Bolsonaro e dissipar o mal-estar.

O próprio pré-candidato divulgou um vídeo em tom de resposta. "Faz 40 anos [32, na verdade] que eu sou do mesmo partido e tenho as mesmas convicções. Já convivi com muitos prefeitos, governadores, presidentes, de vários partidos. E eu não sou agressivo com nenhum deles."

Postulante a vereador pelo PDT e um dos principais interlocutores da direção nacional do partido no estado, Gabriel Cassiano foi às redes dizer que o encontro se limitou a um compromisso entre "um chefe de Estado em visita oficial" e um "político que é referência da região".

Lupi e Ciro também se pronunciaram para endossar a aliança e transmitir uma mensagem de unidade.

No PSB, uma das manifestações em defesa do filiado veio do ex-deputado federal Beto Albuquerque. Em live com Lupi e Cassiano, ele responsabilizou Doria --que não fez comentários sobre o assunto-- pelas mensagens que associam França a Bolsonaro.

"Conheço bem o Márcio. E não adianta o Doria ficar criando essas fake news", disse Albuquerque, que é um dos vice-presidentes do PSB e acusou o tucano de "tentar estressar" as relações da sigla com o PDT.

Questionada, a assessoria de Doria disse que ele está focado no enfrentamento da pandemia e "lamenta que líderes de partidos derrotados na disputa estadual de 2018 tentem envolver o nome dele em factoides eleitoreiros".

Na quarta-feira (26), ao discursar no ato em que o Avante anunciou apoio à sua campanha, França fez duras críticas ao trabalho dos governantes locais do PSDB na pandemia e poupou Bolsonaro.

O ex-governador já havia antecipado a narrativa para fisgar o voto anti-Doria em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo em julho, quando evitou ataques à postura de Bolsonaro diante do coronavírus e priorizou opiniões negativas sobre a dupla "BrunoDoria", como gosta de dizer.

Em 2018, França disse se recusar a "pegar carona na popularidade" de Bolsonaro, como fazia Doria, para vencer o pleito. Ele, no entanto, recebeu no segundo turno o apoio de uma ala do PSL (à época, partido do presidente) ligada ao senador Major Olímpio (SP) e de outros líderes declaradamente bolsonaristas.

Bolsonaro tem evitado até agora manifestar preferência por candidaturas, mas não descarta subir em palanques no segundo turno. De acordo com correligionários, em um eventual embate entre Covas e França, ele poderia defender voto útil no nome do PSB para prejudicar o grupo de Doria.

"Não sei se ele apoiará o França. Sei que ele não apoiará o Covas aqui em São Paulo", afirma o deputado estadual Gil Diniz (PSL), um dos porta-vozes do bolsonarismo no estado. "Entre França e Covas, não voto no Covas de maneira nenhuma", completa ele, dizendo que não aperta 45 "nem no microondas".

Procurado pela reportagem, França minimizou a controvérsia, repetiu ser fiel às suas convicções e atacou Doria.

"É preciso respeitar adversários competentes em comunicação. Doria é um deles. Na eleição passada, falavam que eu era o Márcio Cuba e Lula; agora querem dizer que sou Márcio Bolsonaro. Não sou nem um nem outro", disse, via assessoria.

"Os outros concorrentes, como Boulos e Orlando, fazem eco à estratégia do Doria. São inocentes úteis."

O ex-governador afirmou também que nunca havia falado com Bolsonaro até o encontro em São Vicente "para pedir ajuda no envio de mantimentos para Beirute".

"O presidente foi gentil e prestativo nesse assunto. Não sou do estilo 'cospe aqui que eu cuspo ali'. Respeito a democracia e não concordo em colocar minhas convicções ideológicas acima dos interesses públicos. Falo com Bolsonaro, com Doria, com Lula e com o [Donald] Trump se São Paulo precisar."

Questionado se aceitaria o apoio de Bolsonaro, França respondeu que, caso Doria e Covas continuem cometendo erros, "não será necessário o apoio de ninguém" porque não haverá segundo turno. "Vamos derrotá-los no primeiro turno", afirmou.