Concessão da Cedae vai incluir investimentos em comunidades; Moradores sofrem com falta de água e de esgoto

Luiz Ernesto Magalhães, Selma Schmidt e Marcelo Antonio Ferreira*
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O fim das valas de esgoto a céu aberto e das bicas secas está mais perto para moradores de 35 municípios fluminenses. O governo do estado lançou ontem o edital de concessão da Cedae, que prevê investimentos de R$ 31 bilhões em saneamento ao longo de 35 anos. Além disso, serão aplicados R$ 57 bilhões na manutenção e na operação do sistema. A previsão é que empresas assumam a distribuição da água e a coleta e o tratamento de esgoto até o início do segundo semestre. A produção da água potável continuará com a estatal.

Serão atendidos pela concessão 12,8 milhões de cariocas e fluminenses. Desses, 5,7 milhões não têm sequer coleta de esgoto. Hoje, apenas 35% dos dejetos das áreas operadas pela Cedae são tratados. A meta é chegar a 90%. Já o fornecimento de água tratada será garantido para 99% da população.

O processo também vai incluir as favelas, que vão receber R$ 1,8 bilhão em obras de saneamento. O plano prevê que esse projeto seja concluído em 12 anos, mas, se houver limitações técnicas, esse prazo pode ser estendido até 2040. Nos primeiros anos, as concessionárias também terão que investir R$ 2,6 bilhões para implantar nas galerias de águas pluviais um sistema de captação de esgotos para reduzir os despejos na Baía de Guanabara e no Rio Guandu, onde a Cedae capta água para tratar.

O edital também prevê investimentos prioritários, como a substituição da rede de esgoto da Zona Sul em dois anos e a recuperação do emissário submarino de Ipanema, caso haja necessidade. Na Barra, está prevista a drenagem de dez quilômetros de rios e lagoas. Na Maré, a concessionária vencedora deve priorizar a implantação de uma rede coletora de esgoto em tempo seco, para reduzir os despejos na Baía.

O estado prevê que, até o fim do primeiro semestre de 2021, sejam assinados os quatro contratos com as concessionárias que vão assumir os serviços em 34 municípios e em grande parte da capital (parte da Zona Oeste do Rio já tem o serviço privatizado). Toda essa área será dividida em quatro blocos.

No Twitter, no dia 24, o prefeito eleito do Rio, Eduardo Paes, criticou o fato de o estado ficar com 80% do valor e os municípios, com 15%.

Moradores sofrem com falta de água e saneamento básico

Apesar de o motor da Elevatória do Lameirão, em Senador Vasconcelos, Zona Oeste do Rio, já ter sido reparado, diferentes pontos do estado ainda sofrem com a falta de água. A promessa da Cedae era de normalização do serviço até o dia 23, o que não ocorreu.

O cenário não é novidade para algumas famílias que veem na privatização da estatal uma esperança. No bairro de Vila Central, em Queimados, na Baixada Fluminense, a falta de saneamento e a irregularidade de água são problemas frequentes. Há 11 anos, Pablo Eduardo dos Santos, de 27 anos, e a família composta por quatro filhos sofrem com a precarização dos serviços.

— Não tem saneamento. Qualquer chuva que dure cinco minutos gera esse constrangimento, tudo tomado de água misturada de esgoto. A gente acaba expondo as crianças. Meu caçula teve uma alergia gravíssima na pele.

Também moradora de Vila Central, Celene Santos afirma que a população usa poços.

— O solo é muito contaminado por ferro, então, todo mundo que furava o poço, tinha problema de saúde.

Na comunidade Santa Marta, na Zona Sul do Rio, o mesmo drama da falta de água. Um revezamento tem sido feito entre a parte alta e baixa do morro. A assistente administrativa Zete Lima, de 45 anos, vive com o marido, o filho e o pai, de 95 anos e, para não ficar totalmente desabastecida, tem que gastar um valor maior no orçamento mensal.

— Hoje, por exemplo, estou sem água. Eu pago conta todo mês— diz Zete.

A Cedae informou que uma equipe irá ao local.

O Ministério Público solicitou a redução de 25% nas contas, reembolso por carros-pipa e indenização coletiva de R$ 51 milhões a consumidores, que, ao longo desse período foram prejudicados – no total, são mais de 30 bairros da capital e quatro cidades da Baixada Fluminense.

*Estagiário sob supervisão de Leila Youssef