Concordamos em discordar: a esquerda deve participar de protestos convocados pelo MBL?

·6 minuto de leitura

RIO - Convocadas pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e pelo Vem Pra Rua, grupos que se notabilizaram pela campanha a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, as manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro no último domingo não tiveram apoio de parte dos partidos de esquerda, entre eles o PT e PSOL. Os atos foram os primeiros com críticas ao governo após os atos golpistas no 7 de setembro e contaram com adesão menor que os protestos anteriores nas maiores cidades do país. Em entrevista, o senador Humberto Costa (PT-PE), que não participou do ato, e a deputada estadual de São Paulo Isa Penna (PSOL-SP), que foi às ruas, falam sobre as dificuldades e desafios na unidade da oposição ao presidente.

Humberto Costa, 64 anos

Paulista radicado em Pernambuco

O que faz e o que fez: Médico, é senador pelo PT de Pernambuco. Foi ministro da Saúde no primeiro mandato do ex-presidente Lula (2003-2006). É integrante da CPI da Pandemia no Senado. Foi também vereador, deputado estadual e deputado federal, além de secretário de Saúde do Recife

Isa Penna, 30 anos

Paulista

Advogada, foi eleita deputada estadual pelo PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em 2018. Entrou na política por meio do movimento estudantil. Seu mandato é marcado por pautas voltadas para a população LGBTQIA+ e relacionadas ao combate à cultura do estupro e à violência contra as mulheres.

A esquerda deveria ter ido às ruas no ato contra Bolsonaro convocado pelo MBL?

HUMBERTO COSTA - Entendo que foi correta a decisão do PT de não participar desse ato. Primeiro, porque não tivemos nenhuma participação na discussão do formato, no seu processo de organização, inclusive questões mínimas que são essenciais para a realização de eventos com forças políticas diferentes, entre elas sobre como acertar determinados comportamentos, o que pode ou não ser levado, que tipos de faixas e cartazes. Segundo porque o ato não era simplesmente pelo impeachment de Bolsonaro, mas era um ato que a chamada era nem Lula nem Bolsonaro. Obviamente, não era um ato meramente pelo impeachment e não faria sentido o PT participar de um ato que era contra ele próprio e sua principal liderança.

ISA PENNA - Acredito que sim! Por isso que fiz questão de marcar presença no dia 12. Estamos vivendo um momento inédito na política e precisamos tomar medidas novas, sair da mesmice. Na história recente, temos outros exemplos de alianças entre esquerda e direita. E nenhum dos setores da esquerda tem exclusividade para dialogar com o diferente. A hashtag #BolsonaroGenocida não é só discurso, o negacionismo do governo federal foi responsável por milhares de mortes e é urgente o impeachment do Bolsonaro. Não dá para esperar até 2022 para nos livrarmos dessa praga. O principal que quero levantar também é que há uma juventude, de 16 e 22 anos, que não viveu o antipetismo, o petismo, que só está vivendo o massacre de Bolsonaro, e é essa galera que eu tô junto e quero comigo, é a galera que vive o feminismo, as causas LGBTQIA, antirracismo que a minha geração pavimentou.

O que impede hoje uma possível atuação conjunta de toda a oposição em protestos de rua?

HUMBERTO COSTA - O que impediu nesse último domingo foi o fato de que foi um único segmento político que organizou o evento. Não houve participação de todos os que com toda certeza se disporiam a participar, além do fato de que o evento acabou se transformando numa antecipação de discussão eleitoral, na medida em que estabeleceu crítica contundente contra um dos partidos que participam do processo, que é o PT, e inclusive focando na figura do ex-presidente Lula. Foi isso que não permitiu que tivesse acontecido, mas há mais de dez partidos discutindo a continuidade dessa luta. Nada impede que a próxima manifestação que seja marcada seja construída por todas as forças, da direita à esquerda.

ISA PENNA - Acho que são de fato as eleições do ano que vem. Há os poderes de ambos os lados que impedem a vontade do povo acontecer e que inclusive instiga essa hegemonia das esquerdas e das direitas.

Na sua avaliação, a falta de unidade da esquerda e da direita não bolsonarista dificulta a oposição ao governo e é determinante para um possível impeachment de Bolsonaro?

HUMBERTO COSTA - Quem determina a velocidade e a força com que caminha um processo de impeachment é a mobilização social, é a população, é a pressão que se exerce sobre o Congresso Nacional. Isso se faz com as forças mais díspares possíveis. Se nós fossemos pensar apenas na participação dos iguais, talvez não tivéssemos tido vitórias históricas importantes, como o próprio impeachment de Collor, que teve a participação de setores da esquerda, mas também do centro e até alguns da direita. Nós podemos ter nossas diferenças, mas é perfeitamente possível cada um com seus objetivos marchar juntos pela concepção desse objetivo maior.

ISA PENNA - A oposição acontece independentemente da unidade. A esquerda faz oposição desde o primeiro dia, outros setores demoraram mais pra rachar com o governo. Lógico que a oposição fica mais forte com a unidade e também fortalece o processo de impeachment. Concordo muito com a avaliação de que a esquerda não consegue tirar o Bolsonaro sozinha, ou ele não teria sido eleito. Mas a verdade é que o governo Bolsonaro é tão despreparado que cada vez mais está perdendo os apoiadores e essas pessoas são fundamentais nesse processo de impeachment.

Quais devem ser as principais bandeiras dos protestos anti-Bolsonaro?

HUMBERTO COSTA - Em primeiro lugar, a defesa da liberdade, da democracia, contra qualquer tentativa autoritária de eliminar as liberdades democráticas no nosso país. Em segundo lugar, a questão da garantia da vacina para todos os brasileiros no número necessário e no espaço de tempo mais curto possível, além da garantia de que a população possa sobreviver nesse período da pandemia, bem como a adoção de medidas econômicas que possa fazer o país enfrentar esse momento de dificuldade.

ISA PENNA - A principal bandeira é o "Fora Bolsonaro". É a única bandeira que agrega todos os lados da oposição. É necessário fazer a leitura da conjuntura e entender que existem pautas que não tem possibilidade de unidade. Então, para fazer a unidade é preciso respeitar as diferenças e nos espaços conjuntos defender a pauta que unifica, o que não significa que não vamos continuar a defender nossas bandeiras em outros espaços.

Há chance de essas forças políticas caminharem juntas nas eleições de 2022?

HUMBERTO COSTA - É outra discussão. Imaginar que vamos compor uma frente eleitoral que envolva o MBL e outras forças de direita isso realmente é algo em que não acredito, mas a unidade política nesse momento para fazer avançar o impeachment de Bolsonaro, há que é um governo nefasto para o Brasil na visão de todas essas forças políticas, isso é perfeitamente possível. É necessário que se dissocie a disputa eleitoral do ano que vem do processo de luta pelo impedimento de Bolsonaro.

ISA PENNA - Zero chances! São projetos diferentes para a sociedade que não cabem na mesma chapa. A unidade existe para derrubar Bolsonaro. Nas eleições cada um defende o seu projeto para a sociedade.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos