Conduta de Bolsonaro após eleição lembra a de Trump nos EUA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O comportamento do presidente Jair Bolsonaro (PL) de demorar quase dois dias para reconhecer o resultado das eleições que afirmaram o fim de seu mandato em 2022 possui paralelos com a conduta do ex-presidente dos EUA, o republicano Donald Trump, ao perder o pleito de 2020 para Joe Biden.

Trump, que ocupou a Casa Branca entre 2017 e 2021, demorou oito dias para reconhecer a vitória do democrata na corrida presidencial de 2020 em seu Twitter. "Ele ganhou porque a eleição foi fraudada", postou o republicano, sem se referir a Biden nominalmente.

O ex-presidente americano ainda retrocedeu uma hora depois, dizendo que "não reconhece nada" e que Biden só foi o vencedor para a "imprensa de fake news", atrasando em mais oito dias o início da transição de governo.

Já Bolsonaro, que perdeu para o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por 50,90% a 49,10%, quebrou o silêncio após 45 horas e falou em indignação com o que chamou de "injustiças" na eleição. Ele ainda deixou para Ciro Nogueira (PP), ministro da Casa Civil, anunciar o início do processo de transição.

A atual derrota do presidente para o petista foi a primeira de sua carreira política, iniciada em 1989. Desde então, haviam sido nove eleições em sequência: uma para vereador do Rio de Janeiro, sete para a Câmara e a presidencial em 2018. Ele nunca precisou reconhecer um fracasso antes.

Antes de Bolsonaro, a primeira-dama Michelle e o senador Flávio Bolsonaro (PL) repercutiram o resultado eleitoral --ela fez um post com um salmo da Bíblia em seu Instagram, sem mencionar as eleições, e ele falou em erguer a cabeça e "não desistir do Brasil" em suas redes.

Durante parte de seu mandato e em todo o período eleitoral, Bolsonaro fez ataques infundados às urnas eletrônicas e evitou afirmar que aceitaria o resultado da eleição. Nesta terça, voltou a criticar o sistema eletrônico de votação, mas indicou que aceitará o resultado do pleito.

Trump também seguiu a linha de ataque ao sistema eleitoral do país, afirmando que o pleito havia sido roubado e provocando tumulto no dia da ratificação de Biden no congresso americano, com a invasão no Capitólio, ocorrida em 6 de janeiro de 2021.

No Brasil, o gabinete de Bolsonaro não adotou preparativos para um cenário de mudança de governo, segundo interlocutores ouvidos pela reportagem. O assunto, regulamentado por lei de 2002 e um decreto editado em 2010, tem início com a proclamação do resultado da eleição e se encerra com a posse do novo presidente.

Após a fala do presidente em Brasília, o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, disse que aguarda documento oficial do PT para iniciar a transição sob coordenação de Geraldo Alckmin, vice-presidente eleito.

A transição é crucial para que o futuro chefe do Executivo possa traçar um plano de ação e tomar decisões sobre os primeiros passos ao assumir o cargo.

Já nos EUA, o governo Trump bloqueou à época o acesso da equipe de Biden a informações e recursos para iniciar a transição de poder nos EUA por 16 dias, recusando-se a assinar uma carta oficial, como é de praxe, que permitiria ao democrata iniciar a mudança de governo após vencer da disputa presidencial.

O comportamento de ambos é visto como uma forma de promover divisão, e atrapalha o andamento do rito democrático no oficialato quanto na sociedade, algo que foi visto com a invasão do Capitólio e tem sido visto no Brasil com os bloqueios de estradas por caminhoneiros que apoiam Bolsonaro.

Até a noite da última segunda-feira (31), foram mais de 300 bloqueios em estradas de 25 estados e no DF. Os manifestantes protestam contra a vitória de Lula para o Planalto, e as consequências já podem ser vistas na economia.

No Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, na região metropolitana, 25 voos já foram cancelados nestes dois dias por causa de protestos na rodovia Hélio Smidt. O setor de carnes, leite e abastecimento de supermercados também foram afetados.

Representante do setor de frigorífico do Mato Grosso afirma que a indústria está parcialmente parada, devido à dificuldade de transporte de animais vivos para abate.

A Viva Lácteos (Associação Brasileira de Laticínios) afirma haver dificuldade tanto de suprimento de insumos, como de escoamento da produção.