Condutores da Tocha Olímpica da Rio-2016 vendem objeto para driblar crise financeira

Carol Knoploch e Giulia Costa
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Item cobiçado e um dos símbolos olímpicos, a tocha dos Jogos do Rio, em 2016, está sendo vendida em grupos nas redes sociais. Nos "anúncios", os condutores das tochas explicam que estão se desfazendo do objeto porque precisam de dinheiro, estão desempregados ou passando alguma necessidade. Em site de venda de produtos na internet também há anúncios da tocha da Rio-2016 por até R$ 120 mil mas, nesses casos, não há a indicação do motivo para a venda.

Em um post no Facebook, Luiz Paulo Freitas Ribeiro explica que suas contas estão sempre no vermelho. Viu os rendimentos diminuirem e as contas, aumentarem. Professor de Educação Física e de judô em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, ele afirma que precisa vender a tocha para pagar a terapia da filha caçula, que é autista. Paulo pede R$ 7 mil, o equivalente a um ano do serviço. Metade do valor é paga pelo plano médico.

— Em casa, os custos aumentaram com a pandemia. É água, luz e comida. E não dá para ficar sem comer, não é? — diz Luiz Paulo, pai de duas meninas e o provedor da família (a esposa é do lar).

Para ele, a tocha tem valor sentimental inestimável. Ele lembra de detalhes do dia em que levou a chama olímpica, em Campo Grande (Mato Grosso do Sul). Mas diz que o bem estar da filha caçula é mais importante.

— Foi surreal, um presente para mim que há15 anos trabalho com esporte na minha cidade. Mas não tem comparação. Só estou fazendo isso porque não tenho dinheiro para a terapia. Não faria isso se tivesse outra forma de arrecadar este valor.

Bianka Lins, primeira transgênero a participar do revezamento da tocha no Brasil e que conduziu a chama em Curvelo, sua cidade natal em Minas Gerais, vive o mesmo drama. A professora e funcionária pública conta que a situação financeira, que já era difícil, se complicou ainda mais durante a pandemia:

— O que me levou a colocar a tocha à venda são questões financeiras mesmo. Preciso fazer algumas reformas na minha casa, a situação não está legal. O que eu ganho, infelizmente não dá para manter as contas, que viraram uma bola de neve.

Ela lamenta a necessidade de se desfazer do objeto que guarda como um troféu de representatividade para a comunidade LGBTQIA+ nos Jogos Olímpicos do Rio.

— É muito triste. Porque é a única recordação deste momento que eu vivi. Foi algo ímpar na minha vida. Isso pra mim é e sempre será uma vitória muito grande em saber que tive esta oportunidade. Vai estar sempre na minha memória. Acho que foi um dos momentos mais importantes da minha vida. Me orgulho muito deste acontecimento — afirma Bianka, que colocou a tocha à venda por cinco mil reais.

Nas mensagens, destacadas no Twitter por René Silva, fundador da Voz das Comunidades, tem ainda o anúncio de Ygor Cruz que afirma estar desempregado e pede para não ser discriminado por se desfazer do objeto. É que a tocha carregou o fogo olímpico pelo Brasil, marcando o início das festividades olímpicas.

Cerca de 12 mil pessoas, entre anônimos e estrelas do Esporte e políticos, participaram do revezamento que começou em 21 de abril de 2016 e se encerrou em 5 de agosto, no dia da cerimônia de abertura da competição. Ao fim do percurso, a tocha passou por 326 cidades do país, a quarta maior rota doméstica da história do revezamento da tocha olímpica.

Cada participante utilizava uma tocha diferente e ficava com o objeto como lembrança. Alguns ganharam de patrocinadores e outros tiveram de comprar (por cerca de R$ 2 mil). Mas, apenas os condutores podiam adquiri-la. À época, teve gente que anunciou a venda da tocha por até R$ 120 mil.

As tochas, que carregam símbolos de cada país sede, são confeccionadas após eleição para a escolha de um projeto vencedor. São objetos de colecionadores, peça de museu. O Comitê Olímpico Internacional tem os exemplares de todas as edições dos Jogos.