Conecte SUS, aplicativo do Ministério da Saúde, está sem acessibilidade para pessoas cegas

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Em destaque, a mao de um homem segurando um celular com a tela do aplicativo Conecte SUS na tela
No aplicativo, existe uma versão alternativa em áudio, mas as palavras anunciadas são em inglês - ou seja, inacessível para grande parte da população (Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

Desrespeitando padrões básicos de acessibilidade digital, o aplicativo oficial do Ministério da Saúde, Conecte SUS, não pode ser utilizado por enquanto por pessoas cegas. Tanto a versão para Android como para iOs (sistema operacional do iPhone), possuem barreiras que tornam inviável a navegação pelo app com o recurso de acessibilidade presente de fábrica nos celulares (leitores de tela).

Para criar uma conta, o sistema pede para você identificar itens presentes em uma imagem, como método de segurança. Fiz o teste no iOs: existe uma versão alternativa em áudio, mas as palavras anunciadas são em inglês - ou seja, inacessível para grande parte da população.

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Fui alertado por essa falha no Twitter por uma seguidora. Ela é jornalista e queria ter acesso ao certificado de vacinação contra covid-19, oferecido pelo Ministério da Saúde, mas não teve sucesso.

Os captchas, como são chamados esses testes de segurança, são ultrapassados e já existem formas alternativas e mais acessíveis para diferenciar um computador de um humano. O Consórcio W3C diz que os captchas resultam em uma negação de serviço a usuários com deficiência. O W3C regula padrões internacionais na internet.

Quem também não conseguiu criar uma conta no aplicativo Conecte SUS foi o servidor público federal Diniz Candido, nem com o Android e nem com o iOs. Ele recorreu, então, à versão web do site.

Mas o aplicativo ainda tem várias outras falhas graves de acessibilidade. Estando ou não logado, o usuário não consegue clicar em nenhuma das opções do menu inicial, como vacinas, exames, medicamentos, atendimentos e internações, calendários e serviços.

Ou seja: o aplicativo não tem só alguns problemas de acessibilidade. A navegação, de origem, é completamente inviável para pessoas cegas.

Veja, abaixo, uma simulação feita por mim. Note duas coisas: eu tento clicar nos itens do menu, mas nada se abre. E, logo no início, depois do termo “ver todos”, o leitor fala “button”.

Na verdade, seria botão, mas os programadores escreveram o código com um problema que faz com que o leitor ache que aquilo tem que ser lido em outro idioma. Isso acontece em várias outras situações.

É impensável que um aplicativo oficial, com serviços indispensáveis para o cidadão, tenha tantas falhas de acessibilidade. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, temos quase 7 milhões de pessoas com deficiência visual no país.

O artigo 63 da Lei Brasileira de Inclusão diz que e “É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País ou por órgãos de governo, para uso da pessoa com deficiência”.

A coluna entrou em contato com o Ministério da Saúde e com a Secretaria Nacional dos Direitos Da Pessoa com Deficiência, pertencente ao Ministério da Família, Mulher e Direitos humanos, mas não obteve retorno até o fechamento deste texto.

Descrição da imagem: Em destaque, a mão de um homem segurando um celular com a tela do aplicativo Conecte SUS na tela

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