Confeiteira comemora aniversário com bolo temático de coronavírus em São Paulo

Louise Queiroga

Acostumada com a casa cheia em datas comemorativas, a confeiteira Josilma Torres, chamada de Jô pelos íntimos, decidiu fazer um aniversário diferente neste ano, diante da pandemia do novo coronavírus.

Inspirada por um meme que a filha lhe mostrou na internet, Jô preparou um bolo temático da Covid-19 e enfeitou a mesa com frascos de álcool gel. O próprio bolo (de mousse de chocolate!) ganhou enfeites de açúcar imitando álcool gel 70 e máscara. Como parte da comemoração por seus 49 anos, sua irmã e as cobrinhas cantaram parabéns por meio de uma chamada de vídeo, enquanto dentro de casa estavam apenas os quatro filhos e a neta de 7 anos, com quem ela mora, além do genro.

— Como eu trabalho com essas coisas, eu faço bolo e salgado para festa, resolvi fazer o bolo do covid e colocar o alquinho, a máscara e fazer as fotos que eu achei que ia ficar bem legal. Ontem foi uma comemoração diferente. Em 49 anos da minha vida, eu nunca imaginei que fosse passar um aniversário em que minha casa não estivesse cheia de gente — destacou.

Moradora da cidade de São Paulo, Dona Jô lamentou o fato de não poder ter convidado mais pessoas para sua festa nesta quarta-feira, dia 25, mas ressaltou a importância de seguir as orientações das autoridades de Saúde e respeitar o isolamento social.

— O maior impacto da comemoração do meu aniversário foi não poder encher minha casa. Eu sou nordestina, gosto de casa cheia, gosto de muita gente, gosto de bagunça, de barulho. Para mim foi um aniversário totalmente diferente. Não tinha ninguém. Uma chamada de vídeo para minha irmã e minhas sobrinhas e meus filhos aqui dentro de casa. Mas, olha, o meu bolo eu fiz, comemorei do meu jeito, feliz.

 

Dona Jô lamentou também não poder produzir os ovos de Páscoa que costuma vender ha 16 anos. Ela contou que nessa época do ano é sempre marcada por muito trabalho e, às vezes, sequer consegue separar um tempo para comemorar o aniversário.

— O único ano em que parei foi 2008, quando meu marido faleceu. Eu fiquei viúva e aí não consegui trabalhar porque ele morreu na época do carnaval. Para mim ficou pesado trabalhar na Páscoa. Mas no resto, desde então eu faço ovos de Páscoa todos os anos — afirmou. — Vendo bastante, tenho meus clientes fixos. Nesse ano eu não sei se vou conseguir fazer. Aliás, é 99% que eu não vou fazer. Primeiro que eu sou do grupo de risco, não posso sair para comprar nada. As lojas estão todas fechadas aqui em São Paulo. Você pode pedir pela internet? Pode, mas corre o risco de as caixas chegarem aqui contaminadas, o papelão, o próprio produto. Você não sabe quem vai embalar. Aí já é um risco. E outra: os clientes vêm na minha casa. Eu sou muito comunicativa, eles entram, os que conheço bebem café, tomam água, mexem na maquinha, eles pagam. Eles vêm retirar na minha casa ou a gente vai lá entregar. Então para eu colocar um filho meu para fazer uma entrega já é um risco. Deixar entrar na minha casa para receber é um risco. Então devido a todos esses riscos, prefiro mil vezes a saúde do que a parte financeira. Esse ano eu não vou fazer meus ovos de Páscoa. Então para mim vai ser muito triste.

 

A confeteira relatou ainda os diversos cuidados que vem tomando para se prevenir contra o coronavírus. Ela contou que, por ser diabética, se encontra no grupo de risco e, portanto, se sente apreensiva em andar na rua e até mesmo ir ao mercadinho perto de onde mora, por ter observado a falta de álcool gel para os funcionários do caixa.

 

— Sou do grupo de risco, tenho diabetes, então preciso me cuidar bastante. Na garagem da minha casa tem uma areazinha onde quem chega da rua - que é inevitável, tenho duas filhas que estão trabalhando e tenho dois que estão fazendo em casa - e aí o que acontece? Eles chegam, tiram o sapato, tiram a roupa, tem um álcool gel lá. Eu sempre tive álcool gel em casa, então para mim não foi muita dificuldade — descreveu ela, acrescentando a necessidade de lavar imediatamente as mãos, não entrar com os sapatos em casa e separar a roupa usada naquele dia. — Tudo isso e mais para minha proteção por eu ser do grupo de risco e também por minha netinha, tem 7 anos.

Apesar da sensação de estar presa, "dentro de uma gaiola", Dona Jô está na expectativa de que, quando a pandemia passar, ela poderá novamente encher a casa de pessoas queridas e prosseguir normalmente com seu trabalho de produzir doces e salgados para festa.

— Espero que no ano que vem, que eu faço 50, eu tenha a oportunidade de fazer uma bela de uma festa e convidar todo mundo que eu amo para participar. E não ter que fazer chamada de vídeo com ninguém — afirmou.