Confeiteiro que viveu dois anos nas ruas faz sucesso com doces que vende nas praias do Rio

Lucas Altino
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Nas paredes, um berimbau, peças de artesanato indígena e um altar com as imagens de Jesus Cristo e Nossa Senhora de Aparecida. A decoração da casa é simples, mas conta uma história e tanto de superação: até seis meses atrás, o morador não tinha um teto para chamar de seu. Seu endereço era uma calçada no Centro do Rio. Hoje, o confeiteiro Jorge Roberto da Costa Machado, de 35 anos, conseguiu se reerguer e já é capaz de pagar, sozinho, o aluguel de R$ 550 da quitinete na Rocinha.

A reviravolta tem como coadjuvantes amigos dos tempos de vacas mais gordas e integrantes do grupo Dois pães e um pingado, irmandade religiosa da Lapa, e da roda de capoeira do Mestre Ferradura, que ajudaram Jorge Roberto a pagar os primeiros meses da moradia. Mas parte do roteiro foi escrita por ele mesmo que, assim que se viu instalado, correu atrás de utensílios e ingredientes para retomar o ofício. Hoje, ele vende brigadeiros, tortinhas e quindins na praia para se sustentar. E já se esforça para dar conta das encomendas, que não param de chegar.

Nascido em Pelotas, Gaúcho, como Jorge Roberto é conhecido, sempre chama a atenção por onde passa, com seus dreads caprichados e fala articulada. Na antiga moradia a céu aberto, que dividia com dezenas de pessoas em frente aos prédios do Ministério Público e da Defensoria Pública, no Centro, virou uma espécie de líder informal dos desassistidos. Costumava organizar as doações recebidas e conversar com voluntários de ações sociais — o que abriu caminho para que o ajudassem a voltar à vida de antes. Hoje, longe do local, ele se espanta com o crescimento do número de pessoas ao relento, que acredita ter aumentado durante a pandemia.

— Hoje, a população ali já é o dobro da quantidade que tinha na minha época — lamenta.

No ano passado, Gaúcho fez questão de conversar com repórteres do GLOBO que faziam uma reportagem sobre pessoas em situação de rua no Centro. Falar de seus revezes era uma forma de tirar a capa de invisibilidade e esquecimento que ele acredita cobrir todos que não têm casa e vivem nas calçadas.

— No Dia de Finados, por exemplo, o parente acende uma vela, vai à missa, se lembra do familiar. Morador de rua é pior porque não é lembrado em momento algum. Fica invisível para a sociedade — diz ele, que não vê o filho há três anos, mas consegue falar todos os dias com uma irmã.

Nas duas reportagens da qual participou, Gaúcho contou como perdeu o lar. Como tantos outros casos, sua trajetória mistura a migração em busca de uma vida melhor no Rio, o desemprego — ele perdeu o cargo de confeiteiro em um hostel de Santa Teresa, que fechou — e um drama familiar, depois que se divorciou da mulher. Sem casa, amigos na cidade ou dinheiro, foi para a rua, levando só uma mochila, cujo conteúdo mostrou ao GLOBO. Nela, carregava um pedacinho do passado, o livro “Cenas da Vida Gaúcha”, e garantia um espaço para o futuro, com um caderninho em que escrevia seus sonhos e as letras de rap que gosta de compor. Na época, das entrevistas, ele se posicionou contra as internações compulsórias, que eram projeto do prefeito Marcelo Crivella e voltaram à pauta na semana passada.

— A prefeitura deveria dar tratamento mais digno e individualizado aos moradores de rua, como direcionar quem tem talento para uma área de emprego, e oferecer tratamento químico a quem precisa — opina Gaúcho, que foi beneficiado pelo conceito “moradia primeiro”, principal linha de assistência a moradores em situação de rua defendida por especialistas da área.

Para ele, a estratégia está certa:

— Na rua, eu não conseguia emprego, principalmente por não ter comprovante de residência. Agora, não quero somente ter carteira assinada, meu sonho, como legado, é assinar a carteira dos outros. Quero dar emprego e tirar meus irmãos da rua.

O sonho começou a se concretizar em dezembro, quando ele conheceu a professora de inglês Suzana Castro de Souza, do projeto Dois pães e um pingado, que distribui café da manhã na Cinelândia. Ela ofereceu a Gaúcho pagar um mês de aluguel com o dinheiro de doações que havia sobrado de um trabalho que ela fizera na Amazônia:

— No início foi muito difícil. Ele queria voltar para as ruas porque, com pandemia, não estava conseguindo produzir. Até que uma jovem colocou na redes que ele fazia doces, e as vendas começaram.

Gaúcho conta que sua paixão pela confeitaria nasceu quando ele era crianças, ainda aos 10 anos:

— Nunca vou esquecer os cheiros e as sensações do dia em que minha mãe me apresentou à confeitaria.

Hoje, Gaúcho está à frente do Bondicomê. A marca e o logo do seu negócio são inspirados no bondinho de Santa Teresa. Gaúcho sonha alto e planeja ter uma carrocinha com o formato do transporte típico do “Montmartre carioca” para vender seus doces não apenas na praia, mas também no Largo da Carioca.

— A arquitetura de Santa Teresa é meio europeia, me lembrou Pelotas. Fui estudar a história do bondinho e descobri que os motorneiros eram todos negros, mas na hora da foto oficial, do governo, eles tinham que sair. Me identifiquei logo, desde pequeno sei o que é racismo. Ninguém se sentava do meu lado no ônibus, e meus colegas da escola eram todos loiros e de ascendência europeia — diz Gaúcho, que colocou um motorneiro negro saindo do bondinho, no desenho de sua logo. — Por que não um motorneiro com cor de brigadeiro? — brinca.

O racismo, diz, foi um dos motivos para que ele deixasse o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, estado em que trabalhava antes de chegar ao Rio. Em terras cariocas, ele afirma ter encontrado mais diversidade, apesar da opressão ainda existir.

Alvo de constantes “duras” da polícia, aonde quer que vá, ele expressa sua revolta com a situação nas letras dos raps que compõe. A vida nas calçadas também virou tema de uma das músicas: “Eu fui no fundo do poço para ver que a vida é um retorno (...) Nas calçadas me sinto com superpoderes. E mesmo que se pergunte, eu sim sou um deles. Mas insistem em dizer que eu sou diferente. Que eu boto a cara no problema pra salvar a minha gente”, diz um dos trechos.

Curiosamente, o confeiteiro evita chamar sua ex-moradia de rua. Prefere o termo “calçada”. Para ele, é uma forma de reafirmar que aquela condição não era permanente.

— Acho que faz diferença. Calçada não é lugar de dormir, é de passagem. Acho que é para refletir, que não devemos morar lá — diz ele, que percebe um caráter mais permanente quando se usa a palavra “rua” para definir uma condição de vida que não deveria acontecer ou, no máximo, ser passageira.

Os dois anos nas calçadas deixaram marcas em Gaúcho, que faz questão de visitar a antiga turma. Outro dia, participou da entrega de café da manhã para moradores de calçadas que já frequentou. Levou 400 fatias de um bolo feito por ele.

Emocionado, conta que, na última noite ao relento, rezou:

— Foi numa noite em que vi um colega apanhando com barra de ferro, porque achavam que ele havia roubado um celular. O resto do resto fica na rua, quem é expulso do morro ou sai da prisão. Não quero dizer que todos são ruins, longe disso, mas há muita gente ruim na rua.