Confinada em El Salvador por coronavírus, brasileira tenta voltar para cuidar da mãe com Alzheimer

Pedro Zuazo
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Claudia e José Luis em El Salvador

Confinada em um hotel em El Salvador, a aposentada Claudia Pires, de 60 anos, tem o pensamento distante. São mais de seis mil quilômetros que a separam da mãe, uma idosa de 85 anos que mora no Rio de Janeiro e sofre de Alzheimer. Claudia chegou ao país da América Central no dia 11 de março, com o objetivo de passar 12 dias na paradisíaca praia de El Tunco, na companhia do namorado, o desenhista industrial José Luis Pereira, de 59. O que era para ser a realização de um sonho transformou-se em pesadelo no último dia 17, quando o espaço aéreo do país foi fechado para evitar a disseminação do novo coronavírus.

Assim como o casal, pelo menos outros 20 brasileiros tentam uma solução diplomática para voltar de El Salvador. Com uma população estimada em 6.378 milhões de habitantes, El Salvador registrou, até esta terça-feira, 78 casos confirmados da doença e quatro mortes. A maior parte dos resultados positivos foi de testes realizados em passageiros de voos internacionais que desembarcaram no país entre os dias 10 e 12 de março, mas foram imediatamente confinados e submetidos ao exame.

As primeiras confirmações levaram o governo a determinar medidas restritivas que pegaram a população e os turistas de surpresa.Impedidos de voltar na data prevista, Claudia e José Luis se viram obrigados a estender a estadia no hotel onde estavam e agora contam com a ajuda de parentes para quitar a fatura da hospedagem, que será cobrada em dólar. O que mais preocupa o casal, porém, são as mães idosas de ambos, que moram no Rio.

- A situação é muito preocupante, porque a minha mãe sofre de Alzheimer e tem um princípio de demência. Ela tem 85 anos, a mesma idade da mãe do José Luis. Nós somos responsáveis por nossas mães idosas, mas neste momento temos que contar com a ajuda de outras pessoas que estão cuidando delas. Entendo a preocupação do governo, mas já não temos condições financeiras e nem psicológicas de permanecer aqui - conta a aposentada.

De acordo com Claudia, a embaixada do Brasil em El Salvador busca um acordo para repatriar os brasileiros.

- O que nós pedimos é um voo humanitário para repatriar os mais de cem brasileiros que estão em toda a América Central. A embaixada já está com nossos nomes e documentos. Eles estão sendo muito atenciosos e parece que as tratativas estão avançando, mas a cada dia que passar nossa situação se agrava mais - diz ela.

 

O surfista paulista João Neves, de 44 anos, também está retido em El Salvador. Ele chegou ao país no dia 4 de março e está hospedado em uma pousada na Praia de Las Flores, na região de La Libertad, a mesma onde está o casal de cariocas. A passagem de volta, que inicialmente estava marcada para o dia 1º, foi reagendada pela empresa aérea para o dia 5 de maio, mas agora ele ter que estender ainda mais a estadia.

- O governo anunciou hoje que estenderá a quarentena até o dia 15 de maio, então não sei ao certo quando vou conseguir voltar. Desde a semana passada estou sem poder sair para comprar comida ou qualquer coisa necessária. Tenho recebido ajuda dos locais para fazer o mínimo das necessidades. A responsável pela pousada deixa eu usar a cozinha e a internet, vai uma pessoa ao Centro e faz a compra da semana, mas sou o único hóspede desde o dia 17 - conta João.

Procurado, o Itamaraty não se pronunciou até a publicação desta reportagem.