Confira a história de seis mulheres negras protagonistas da abolição da escravidão

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  • Combatentes da luta pelo fim do regime escravista, elas dedicaram à vida pela libertação de seus futuros descendentes e não são reconhecidas pela história como deveriam

  • Confira a quinta matéria da série “O mito da abolição”, que toma como ponto de partida o 13 de maio para refletir sobre as práticas racistas que perduram na nossa sociedade e demonstram a importância de olhar para o hoje desmistificando mentiras contadas no passado

A história oficial da abolição da escravidão no Brasil dá conta de que no dia 13 de maio de 1888 a Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II, assinou à Lei Áurea, decretando assim, de forma simples, o fim da escravidão no Brasil. Na realidade, fora dos livros escolares e da dramaturgia, sabe-se que o processo anti-escravismo começou desde a captura na África, dentro dos navios negreiros, quando muitos negros e negras se suicidavam para não ter que servir em terra estrangeira.

Há nomes conhecidos como o do líder quilombola Zumbi dos Palmares, do engenheiro André Rebouças e o do jornalista Luiz Gama, mas a luta contra a desumanização da população negra no período colonial teve como alicerce também mulheres negras. Elas comandaram grupos de resistência contra o escravismo, documentaram o próprio sofrimento e reivindicaram sua humanidade bravamente. Conheça seis dessas abolicionistas:

1. Aqualtune

Aqualtune. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Aqualtune. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)

Princesa africana, filha do rei do Congo, no final do século XVI, Aqualtune precisou enfrentar um grupo de mercenários que invadiram sua nação e, apesar de comandar um grupo de cerca de 10 mil homens e mulheres contra os invasores, seu povo foi derrotado. Assim, a princesa guerreira foi capturada e trazida para o Brasil em 1597 na condição de escrava reprodutora.

Chegou no Recife, em Pernambuco, já grávida e foi levada para uma fazenda em Porto Calvo, Alagoas. Foi nessa região que ouviu os primeiros relatos sobre um reduto de africanos livres e decidiu comandar uma fuga para ajudar a construir aquele que se tornou o maior símbolo da resistência negra em terras brasileiras, o Quilombo dos Palmares, instalado na Serra da Barriga.

Graças a seu histórico combativo, Aqualtune recebeu uma aldeia para liderar e ajudou a erguer o que seria “um império em meio à selva”. Além de sua visão administrativa, gerou filhos importantes para a consolidação da resistência africana em terras brasileiras como os guerreiros Gamba Zumba, Gana Zona, e Sabina, mãe de Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares. A líder quilombola desapareceu dos registros históricos em 21 de setembro de 1677, quando sua cidade foi atacada por tropas portuguesas. Na época do ataque, ela já era idosa.

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2. Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Maria Firmina dos Reis. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)

Considerada a primeira romancista brasileira, Maria Firmina Reis também é autora do primeiro romance abolicionista, “Úrsula”, que narra a condição da população negra no Brasil. A partir de elementos da tradição africana, Firmina é considerada pioneira na crítica antiescravista da literatura brasileira, antes até de “Navio negreiro” (1880), de Castro Alves, e “A Escrava Isaura” (1875), de Bernardo Guimarães.

Negra, filha de mãe branca e pai negro, nasceu na olha de São Luís, no Maranhão, em 1822, e foi registrada sob o nome de um pai ilegítimo. O romance “Úrsula” é tido como um instrumento contra a escravidão por meio da humanização de personagens que retratou. Quando se tornou professora, em 1847, Firmina já tinha uma postura antiescravista. Ao ser aprovada no concurso, recusou-se a andar em um palanque desfilando pela cidade de São Luís nas costas de escravos.

3. Esperança Garcia

Esperança Garcia. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Esperança Garcia. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)

Negra e escravizada, Esperança Garcia provavelmente é autora do primeiro ‘Habeas Corpus’ que se tem registro no Brasil. No ano de 1770, no Piauí, ela escreveu uma carta que revolucionou a história do país. No texto, Esperança se queixa de uma série de maus tratos praticados pelo administrador da fazenda em que vivia. O documento foi revelado em 1979, pelo historiador Luiz Mott, que descobriu uma cópia no arquivo público do Estado. Acredita-se que a carta original esteja em Portugal.

Atualmente, essa é considerada a primeira reivindicação, ou petição, de uma escravizada no Brasil que foi enviada a uma autoridade. Além disso, até agora esse é o primeiro documento encontrado no Piauí que levou a assinatura de uma figura feminina.

Leia a carta de Esperança Garcia na íntegra:

“Eu sou uma escrava de Vossa Senhoria da administração do Capitão Antônio Vieira do Couto, casada. Desde que o capitão lá foi administrar que me tirou da fazenda algodões, onde vivia com o meu marido, para ser cozinheira da sua casa, ainda nela passo muito mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho meu sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca, em mim não posso explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que cai uma vez do sobrado abaixo peiada; por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar há três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Peço a Vossa Senhoria pelo amor de Deus ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar ao procurador que mande para a fazenda aonde me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha”

4. Adelina, a charuteira

Adelina, a charuteira. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Adelina, a charuteira. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)

Filha de uma escrava e de um senhor de engenho, Adelina nasceu e cresceu em São Luís, no Maranhão. A promessa feita pelo pai foi de que aos 17 anos ela seria libertada, mas isso não aconteceu. Depois de perder boa parte de sua fortuna, o pai viu a venda de charutos como uma alternativa para gerar renda e Adelina era a responsável pelas negociações e entregas feitas na cidade. O negócio lhe rendeu boas conexões na região e permitiu que ela tivesse acesso e participasse de manifestações em prol da abolição da escravatura.

Do contato estreito com ativistas e vasto conhecimento da cidade, onde transitava com liberdade, Adelina informava aos abolicionistas sobre as ações da polícia e auxiliava na fuga de escravos.

5. Tereza de Benguela/Rainha Tereza do Quariterê

Tereza de Benguela. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Tereza de Benguela. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)

Tereza de Benguela era responsável pela organização política, econômica e administrativa do Quilombo, que se manteve até 1770, onde hoje está localizada a cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade. Tereza é homenageada no dia 25 de julho, data instituída pela lei federal de 12.987/2014. Na data também é comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha.

Não há registros de como a líder quilombola morreu, mas existem versões de que teria se suicidado após ser pega por bandeirantes ou de que foi assassinada e degolada a mando da capitania dentro do Quilombo do Quariterê.

6. Maria Felipa de Oliveira

Maria Felipa de Oliveira. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Maria Felipa de Oliveira. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)

Não há registros do ano exato em que Maria Felipa de Oliveira nasceu, mas sabe-se que desde que foi libertada, tornou-se uma das heroínas da Ilha de Itaparica. Maria Felipa, que aprendeu a lutar capoeira para se defender, atuou no combate contra a colônia portuguesa no Brasil, no Comando do Movimento de Libertação. Ao lado de outras 40 mulheres, incendiou embarcações de soldados e comandantes portugueses responsáveis pela escravização do povo preto no Brasil, em 1822.

Depois da independência, se manteve ativa e liderou um grupo armado, que reunia indígenas, negros, marisqueiros, pescadores e mulheres, reforçando que a população da cidade continuaria na luta pela liberdade de sua terra. A história de Maria Felipa foi preservada pela tradição oral e relembrada em obras da literatura como o romance “O Sargento Pedro”, de Xavier Marques.

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