Confira os crimes do bicho que chocaram a história recente do Rio

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RIO - O assassinato de Fernando Iggnácio, genro de Castor de Andrade, traz à tona a guerra latente pelo controle de pontos de jogo de bicho e máquinas de caça-níqueis do Rio de Janeiro. Ao longos de décadas, a contravenção deixou um rastro de crimes sem solução, alguns desses ligados à própria família Andrade.

Em 1998, o assassinato de Paulinho de Andrade — um ano após a morte do pai, Castor de Andrade —, deu início a uma série de execuções pelo controle de pontos do bicho. Nenhum dos crimes foi totalmente elucidado.

No caso da morte de Paulinho, apenas o pistoleiro foi condenado. A autoria intelectual da trama, que aconteceu em meio a uma guerra sangrenta dentro da família do capo, nunca foi identificada e responsabilizada. A resolução de um outro assassinato — o de Myro Garcia, em 2017— também ficou pela metade. Do total de casos analisados, sete — o mais antigo de 2009 — ainda estão em andamento e dois acabaram em absolvição.

Em outubro de 2019, sem apresentar provas, Shanna Garcia, filha do bicheiro Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, disse em entrevista que os homicídios no coração do jogo do bicho, nunca desvendados, expõem uma “polícia corrompida”. Alvo de um atentado no último dia 8, no Recreio, ela acusou a equipe da Delegacia de Homicídios (DH), que investiga a emboscada que sofreu, de ser “um monte de gente vendida”.

O assassinato de Maninho, pai de Shanna, em setembro de 2004, é um dos casos jamais solucionados pela polícia. Após 14 anos, as investigações do caso foram arquivadas a pedido do Ministério Público estadual (MP).

Na família de Shanna, além da morte do pai dela, houve três assassinatos — o de seu ex-marido, José Luiz de Barros Lopes, o Zé Personal; o de seu irmão, Myro Garcia; e o do pecuarista Rogério Mesquita, braço direito de Maninho e tratado como “tio”. A própria Shanna chegou a ser denunciada, com outras sete pessoas (entre elas quatro PMs e um policial civil), por tentativa de assassinato contra Mesquita.

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP se convenceu de que o crime estava ligado ao espólio de Maninho. Apesar disso, Shanna e os outros acusados foram inocentados. O amigo da família foi morto meses depois, em janeiro de 2009, em Ipanema. Nunca se descobriu a autoria.

Em 2018, o Gaeco solicitou a entrega de inquéritos ligados à contravenção que estavam na DH. Este mês, a documentação retornou à delegacia, para que as investigações prossigam.

Antônio Carlos Silva Biscaia, que foi procurador-geral da Justiça do Rio nos anos 1980 e 1990, relembra que a impunidade desses crimes da contravenção é histórica. Biscaia relata que, na primeira vez em que esteve à frente do MP, em 1984, determinou que fosse aberto um inquérito para investigar contraventores. Ele acabou deixando o cargo dois anos depois. Em 1991, ao assumir mais uma vez a função, ficou surpreso com a inoperância diante das denúncias.

— Quando retornei ao cargo, sete anos depois, procurei aquele inquérito e nada havia sido apurado. Determinei que nada mais fosse enviado à polícia: prosseguiríamos com as investigações no MP. O grande problema, desde aquela época, é que as investigações nunca são feitas de forma adequada e correta, e os bicheiros têm poder de corrupção e intimidação— avalia Biscaia.

Uma ação inédita aconteceu pouco depois, em 1992, quando grandes capos, entre eles o próprio Castor, foram condenados pela juíza Denise Frossard a seis anos de prisão por formação de quadrilha armada. O julgamento foi histórico, e os contraventores pararam atrás das grades. Mas, após cinco anos , eles já estavam soltos.

Mesmo quando há desfecho nas investigações, o resultado é obscuro. Rogério de Andrade era acusado de ser o mandante do assassinato do primo, Paulinho de Andrade, e de um segurança. Mas ele e seu irmão, Renato Andrade, também réu, foram inocentados por falta de provas. O único condenado foi o ex-PM Jadir Simeone, que afirmou ter matado Paulinho a mando dos irmãos. Simeone morreu no presídio.

Rogério foi indiciado também pela morte de um ex-segurança, o bombeiro Antônio Carlos Macedo. A polícia concluiu que ele planejou o crime para se vingar do assassinato do filho, Diogo, até hoje não esclarecido. Mas Rogério nem foi levado a júri, pois a Justiça não viu provas contra ele.

— Não é só a corrupção. A estratégia do bicho também passa pela intimidação. No final, sempre prevalece a impunidade — afirma Biscaia.

Em nota, a Secretaria de Polícia Civil informa que todos os casos são apurados com rigor, independentemente da natureza dos envolvidos. Além disso, destacou que trabalha em parceria com o MP e, em casos supostamente relacionados à contravenção, vem atuando com o Gaeco. Ainda segundo o órgão, a DH da Capital tem empenhado todos os esforços para a elucidação dos casos, ouvindo testemunhas e fazendo diligências, inclusive referentes à tentativa de homicídio contra Shanna Garcia.

Integrante da terceira geração de uma família ligada ao jogo do bicho, Castor Gonçalves de Andrade e Silva se tornou o chefão da contravenção no Rio nos anos 1970 e chegou a expandir seus domínios para o Nordeste. O capo morreu de infarto em abril de 1997, o que deu início a uma guerra entre herdeiros — com consequências na estrutura do jogo do bicho como um todo. Castor havia escolhido Rogério, seu sobrinho, para comandar o jogo na Zona Oeste e em outras áreas do estado.

Filho de Castor, Paulinho não concordou com a decisão e iniciou uma guerra com o primo. Em 1998, Paulinho e um segurança foram assassinados na Barra. Genro de Castor, Fernando Iggnácio Miranda começou então uma disputa com Rogério.

Com a cidade dividida em áreas de domínio de cada uma das famílias desde os anos 1970, as disputas por poder são mais frequentes entre parentes. Isso aconteceu com os Andrade e os herdeiros de Waldomiro Paes Garcia, o Maninho. A entrada das máquinas caça-níqueis nos negócios da contravenção, no início dos anos 2000, também contribuiu para o aumento dos conflitos.

Atualmente, um componente explosivo na guerra da contravenção é o arrendamento de áreas. Um relatório de inteligência do MP explica como funciona o “mecanismo”: os chefões, quando não exploram eles mesmos os territórios, “criam uma chancela para autorizar a exploração na sua área de controle, ganhando um percentual do lucro com as máquinas caça-níqueis ou um valor anteriormente fixado”. Hoje, há disputas entre arrendatários.