Conflito civil e mudança climática deflagram crise de deslocados em Moçambique

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GUARULHOS, SP, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Virou rotina no trabalho da advogada moçambicana Júlia Wachave ouvir relatos de mulheres que caminharam por semanas de sua terra natal até centros de acolhimento fugindo do conflito deflagrado há mais de quatro anos na província de Cabo Delgado.

"Uma senhora levou um mês para chegar. Outra levou dois, porque a cada parada tinha que manter relações sexuais com alguém em troca de dinheiro para transporte ou comida", relata à reportagem.

Wachave é diretora-executiva da Promura (Associação de Proteção à Mulher e Rapariga), organização local que presta assistência jurídica e apoio psicossocial a moçambicanas, em especial às que tiveram a vida diretamente afetada pelo caos humanitário em Cabo Delgado. Por seu trabalho, já foi ameaçada de morte três vezes.

O conflito na região, iniciado em 2017 por uma milícia islâmica local, já se espalhou para as províncias vizinhas de Niassa e Nampula e disparou uma crise migratória: ao menos 735 mil pessoas tiveram de deixar suas casas para fugir da violência --os chamados deslocados internos. Do total, 52% são mulheres, segundo dados atualizados em novembro pela OIM (Organização Internacional para as Migrações).

As moçambicanas, em muitos casos, ainda são responsáveis por acompanhar idosos e crianças em viagens a pé que podem somar 700 km. Mais de 147 mil deslocados têm até cinco anos, e cerca de 3.000 menores de idade estão desacompanhados. "Moçambique já é um país com cultura de violência de gênero, onde a mulher é muito submissa, e boa parte da sociedade é muçulmana [19%, grupo menos numeroso apenas que o de católicos, que são 27%], então as leis do Alcorão prevalecem", diz a ativista. "O conflito em Cabo Delgado piorou tudo, as sobrecarregou."

Ao chegar aos centros de acolhimento, mais camadas de dificuldade se acumulam. Doadas pela OIM, as cabanas de palha e com poucas tendas muitas vezes não dão conta das fortes chuvas --cada vez mais intensificadas pela crise climática. "Todos dormem no chão, há poucas peças de roupa, não há absorventes. As mulheres trocam sexo por uma barrinha de sabão", relata Wachave. "Vi muito sofrimento."

Moçambique é considerado um dos países mais vulneráveis do mundo às mudanças climáticas. Em cinco décadas, de 1970 a 2019, 79 eventos extremos ocorreram no país lusófono, o que o coloca em segundo lugar entre os mais atingidos no continente africano, atrás da África do Sul (90), segundo dados da OMM (Organização Meteorológica Mundial).

"Sabemos que os deslocados estão extremamente vulneráveis a eventos extremos", diz o diretor de Programas e Operações da OIM em Moçambique, Sascha Nlabu. "Com a emergência climática, torna-se bem claro que esse grupo vai sofrer, porque isso vai aumentar a deterioração das condições locais e exacerbar as necessidades humanitárias."

Outro impacto das mudanças climáticas, acrescenta Alyona Synenko, porta-voz da Cruz Vermelha para a África, está na disponibilidade de recursos como água potável. Segundo dados da organização, a província de Cabo Delgado contou 3.400 casos de cólera em agosto de 2021, enquanto no mesmo período do ano anterior a cifra era de 2.200. Casos de diarreia, segunda causa de mortes de crianças com menos de cinco anos, superaram 28,6 mil no primeiro semestre de 2021.

A disponibilidade de recursos básicos se agrava uma vez que os centros de acolhimento só dão conta de receber parte dos deslocados. Segundo Nlabu, 200 mil estão atualmente nesses locais; os outros cerca de 535 mil encontraram abrigo em comunidades locais que os acolhem.

"Antes de o conflito se intensificar, já era difícil garantir serviços essenciais e infraestrutura básica, como água encanada, para aquele número de pessoas", explica Synenko, da Cruz Vermelha. "Agora, a pressão nos estabelecimentos de saúde cresceu tanto que a situação humanitária é muito preocupante."

Ela ressalta que esses locais foram impactados tanto pelos eventos climáticos como pelo conflito. Enquanto ciclones e enchentes comprometem a estrutura física, nos nove distritos de Cabo Delgado onde a guerra é mais intensa 80% dos postos não conseguem abrir as portas, segundo estimativa da organização.

Outro tipo de estabelecimento saturado é o de ensino, relata Carlos Almeida, coordenador nacional da ONG portuguesa Helpo, que atua em Moçambique desde 2010. Em muitas das aldeias na franja sul de Cabo Delgado nas quais a organização possuía projetos houve um aumento grande no número de famílias que chegaram fugindo do norte, com escolas recebendo até 20% mais alunos.

Ele conta que a ONG também se deparou com inúmeros casos de desnutrição infantil. "As populações estão com dificuldades de refazer a vida, apesar de serem bem recebidas. Não têm crédito para recomeçar um negócio, e a maior parte, que vivia da agricultura, tem dificuldade de acessar novas terras."

Toda essa sobrecarga gerou atritos em algumas comunidades, segundo o diretor da OIM. "A coesão social em um grande número de locais ainda é positiva, mas também já vimos sinais alarmantes em algumas delas, com tensões relacionadas aos recursos."

Sobre as perspectivas para o futuro da região, ainda que o agravamento da crise esteja no horizonte, um resquício de esperança surgiu no segundo semestre de 2021, quando ao menos cinco países africanos, liderados pela África do Sul, enviaram tropas para ajudar a combater a facção terrorista islâmica em Cabo Delgado. Nlabu descreve a ajuda internacional como uma janela de oportunidade para intervir e restaurar a segurança pública.

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