Conflito entre França e Reino Unido por direitos de pesca depois do Brexit esquenta

·3 minuto de leitura

LONDRES - A pesca foi a questão mais sensível e contenciosa na negociação do acordo comercial pós-Brexit entre Londres e a União Europeia. Agora, ela ameaça agravar a tensão diplomática entre os governos do Reino Unido e da França.

A decisão unilateral do governo da ilha de Jersey, perto da costa da Normandia, mas de domínio britânico histórico — sua política externa e de defesa é decidida por Londres — de restringir o acesso de suas águas aos pescadores franceses desencadeou nesta quinta-feira um conflito político que terminou com a decisão dos dois países de enviar navios militares à área "para controlar a situação", segundo o governo britânico.

Os tripulantes de cerca de 80 barcos estão protestando no porto de Saint Helier em Jersey. O governo francês, por meio do seu ministro dos Assuntos Marítimos, Annick Girardin, chegou a ameaçar cortar o fornecimento de energia à ilha, que recebe quase 95% de sua eletricidade por três grandes cabos submarinos do continente.

Enquanto isso, o Partido Conservador do premier britânico Boris Johnson enfrenta nesta quinta-feira uma jornada eleitoral — na Escócia, no País de Gales e em dezenas de cidades da Inglaterra — que levou o primeiro-ministro a fazer uma demonstração de força .

A indústria pesqueira britânica, principalmente a escocesa, sentiu-se traída pelo acordo comercial assinado com Bruxelas e que entrou em vigor em janeiro, quando a saída britânica da UE foi de fato implementada.

O que aconteceu em Jersey pode alimentar ainda mais o ânimo em um dia eleitoral importante para Boris. Se o primeiro-ministro ficar sob pressão, o presidente francês Emmanuel Macron também está ciente do forte simbolismo nacional que os pescadores franceses têm, e que qualquer sinal de fraqueza seria aproveitado pela Reunião Nacional de Marine Le Pen, cujo fôlego está começando a aumentar nas pesquisas sobre a eleição presidencial de 2022.

— O primeiro-ministro reiterou seu apoio inequívoco a Jersey e confirmou que as duas patrulhas da Marinha Real enviadas para a área permanecerão lá para monitorar a situação, como medida de precaução — disse um porta-voz do governo britânico, depois que Boris falou por telefone com o ministro-chefe de Jersey, John Le Fondré.

Quando as autoridades de Jersey começaram a emitir as novas licenças de pesca pós-Brexit na última sexta-feira, que permitem o acesso a suas 12 milhas náuticas de mar territorial, muitos pescadores ficaram surpresos com a rejeição do seu pedido.

O motivo alegado é que não conseguiram comprovar a sua ligação histórica com aquela zona pesqueira. Ou seja, que pescavam por pelo menos 10 dias em um período de 12 meses, nos últimos três anos.

Muitos navios não têm um registro GPS para mostrar tal presença anterior, então Jersey emitiu apenas 41 licenças. Pelo menos 17 grandes barcos pesqueiros foram excluídos. A ilha impõe ainda outras condições, como a limitação de redes e a proibição da pesca de dourados em algumas áreas, ao mesmo tempo que são realizados estudos de preservação das espécies.

Embora o acordo comercial pós-Brexit preservasse os direitos existentes dos pescadores franceses por um período de seis anos, ele eliminou a validade do histórico Acordo da Baía de Granville, que concedeu direitos especiais aos pescadores franceses a até três milhas da costa de Jersey.

A UE assumiu o lado francês do conflito e descreveu as novas regras impostas como “discriminatórias”.

—Qualquer nova condição deve ser previamente notificada à outra parte, que deve ter tempo suficiente para analisar e responder — disse um porta-voz da Comissão Europeia. — Se as autoridades do Reino Unido não

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos