Conflituosa região etíope de Tigré sofre escalada militar

Robbie BOULET
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Premiê etíope, Abiy Ahmed, em 3 de fevereiro de 2020, em Adis Abeba
Premiê etíope, Abiy Ahmed, em 3 de fevereiro de 2020, em Adis Abeba

O primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2019, anunciou nesta quarta-feira (4) uma operação militar contra a conturbada região do Tigré, por ter atacado, segundo ele, uma base militar.

A tensão aumentou nos últimos dias entre Adis Abeba e Tigré, que não reconhece a autoridade do estado federal desde que as eleições nacionais que deveriam ter sido realizadas em agosto foram adiadas.

A Frente de Libertação do Povo de Tigré (TPLF), partido que lidera esta região do norte da Etiópia, "atacou um acampamento militar federal" naquele território, disse Abiy Ahmed, em uma declaração postada no Facebook e no Twitter.

"Nossas forças de defesa receberam ordens (...) de assumir seu dever de salvar a Nação. O último nível da linha vermelha foi ultrapassado", acrescentou. 

O conselho de ministros do governo federal decretou estado de emergência por seis meses na região do Tigré, após estimar que "a situação atingiu um nível que não pode mais ser evitado, ou controlado, por meio dos mecanismos usuais de manutenção da ordem".

Em um discurso transmitido pela televisão nesta quarta-feira (4), Abiy disse que "forças desleais" enfrentaram o Exército em Mekele, capital de Tigré, e em Dansha, uma cidade no oeste da região.

O ataque em Dansha foi "contido" pelas forças de segurança de uma região vizinha, acrescentou, mas causou "inúmeras mortes, feridos e danos materiais". 

O governo de Tigré afirmou, por sua vez, que os oficiais e militares do Comando Note do Exército Etíope, com base em Mekele, "decidiram se colocar ao lado do povo de Tigré e do governo regional", conforme nota divulgada nos meios de comunicação regionais. 

No momento, não foi possível corroborar as versões de nenhum dos lados.

- 'Conflito destrutivo' -

A minoria do Tigré (em torno de 6% da população) dominou a política nacional durante quase três décadas até a chegada ao poder, em 2018, de Abiy Ahmed, o primeiro líder pertencente à etnia Oromo, a mais importante do país.

Os dirigentes do Tigré, que rejeitam a prorrogação do mandato dos deputados pelo Parlamento federal - que terminava em outubro -, decidiram realizar eleições unilateralmente em sua região em setembro. Desde então, cada campo considera o outro ilegítimo. 

No início de outubro, os senadores etíopes votaram a favor do rompimento dos contatos e do financiamento das autoridades federais com os líderes desta região.

Na sexta-feira, a TPLF impediu um general nomeado por Addis Abeba para a região de assumir seu posto.

A região do Tigré abriga um contingente significativo das Forças Armadas do país, um legado da guerra entre a Etiópia e a Eritreia em 1998-2000, na fronteira do Tigré, segundo o International Crisis Group (ICG).

Essa consultoria alerta para a possibilidade de um "conflito destrutivo suscetível de implodir o Estado etíope".

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