Sobe para 37 o número de mortos em protestos no sul do Iraque

Por Sarah BENHAIDA
Manifestantes iraquianos diante do consulado iraniano em chamas na cidade de Najaf

Ao menos 37 manifestantes morreram nesta quinta-feira na repressão militar aos protestos contra o governo no Iraque, principalmente em Nassiriya, sul do país, um dia após o incêndio do consulado do Irã na cidade sagrada xiita de Najaf, o que representa uma escalada nos protestos contra o governo.

A sangrenta repressão das forças de ordem contra os manifestantes levou o primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi a destituir o comandante militar nomeado poucas horas antes para restabelecer a ordem na cidade, anunciou a televisão estatal.

Centenas de manifestantes que gritavam "Fora Irã" e "Vitória para o Iraque" na área do consulado em chamas, na simbólica cidade sagrada que recebe milhões de peregrinos a cada ano, sobretudo do Irã, iniciaram uma nova etapa do primeiro movimento social espontâneo no Iraque em décadas.

Esta quinta-feira foi um dos dias mais violentos desde o início, em 1 de outubro, do primeiro movimento espontâneo no Iraque para exigir a refundação do sistema político. Os confrontos também deixaram 180 feridos.

As autoridades de Nassiriya decretaram toque de recolher na província, mesma medida que já havia sido adotada em Najaf.

Mostrando que não têm medo da repressão, milhares de pessoas desafiaram o toque de recolher e desfilaram em cortejo fúnebre para enterrar os mortos.

As forças de segurança foram mobilizadas nos arredores da cidade e revistavam as pessoas e veículos na zona central.

Combatentes tribais cortaram a estrada que liga a cidade a Bagdá para impedir a chegada de reforços policiais ou militares.

Os confrontos em Nassiriya, cidade natal de Abdel Mahdi, mataram 25 manifestantes e deixaram mais de 250 feridos, segundo fontes médicas.

O governador da região decidiu se demitir na noite desta quinta-feira.

As autoridades nacionais estão recorrendo aos militares para enfrentar um movimento que, desde outubro, deixou mais de 390 mortos e 15.000 feridos, de acordo com um balanço compilado pela da AFP. O governo iraquiano não divulga números oficiais.

Bagdá acusou pessoas "alheias às manifestações legítimas de tentar prejudicar as relações históricas entre os dos países" com o incêndio do consulado iraniano de Najaf.

Em Teerã, que considera o movimento de protesto no Iraque um "complô", o ministério das Relações Exteriores do Irã pediu "ação decisiva, eficaz e responsável contra os agentes da destruição e os agressores".

Em dois meses de manifestações, os iraquianos não escondem a irritação com o país vizinho.

Os manifestantes consideram que o sistema político instaurado pelos americanos, que derrubaram o regime de Saddam Hussein na invasão de 2003, está esgotado.

Eles criticam sobretudo a influência crescente do Irã e de seu poderoso emissário para assuntos iraquianos, o general Qassem Soleimani, encarregado das operações no exterior do exército ideológico da República Islâmica.

Os iraquianos querem uma reforma profunda do sistema político e a renovação total da classe política, considerada corrupta e inepta. Oficialmente, 410 bilhões de euros foram desviados em 16 anos, o que representa duas vezes o PIB do país.

Os dois países com maior influência no Iraque, Estados Unidos e Irã, mantêm uma batalha de influência no Oriente Médio, mas Teerã assumiu a dianteira, enquanto Washington está de saída.

O general Soleimani conseguiu reunir o apoio dos partidos em torno do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi, enquanto o governo americano se limita a fazer declarações oficiais. O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, que viajou ao Iraque na semana passada, ignorou as autoridades de Bagdá e se limitou a visitar as tropas de seu país e a sede do governo autônomo do Curdistão.

A vida no país está quase paralisada. No sul, as escolas permanecem fechadas há semanas e os prédios públicos exibem cartazes com a frase "fechado por ordem do povo".

Nas ruas e estradas, os manifestantes queimam pneus para bloquear o transporte de petróleo, em uma tentativa de afetar a fonte de receitas do governo.

Mas até o momento não conseguiram prejudicar a produção e distribuição de petróleo, que representa 95% do faturamento de um governo muito endividado.