Congresso certifica vitória de Biden e Trump promete 'transição ordenada' após caos nos EUA

Camille CAMDESSUS y Jerome CARTILLIER
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O Congresso dos Estados Unidos validou oficialmente, nesta quinta-feira (7), a vitória de Joe Biden na eleição de 3 de novembro, e o presidente Donald Trump prometeu que haverá uma "transição ordenada" em 20 de janeiro, depois que seus partidários provocaram horas de caos no Capitólio, produzindo imagens inéditas que chocaram o país e provocaram a condenação internacional.

Nas primeiras horas da manhã e depois que as objeções dos republicanos foram rejeitadas, o vice-presidente Mike Pence confirmou a vitória do democrata, com 306 grandes eleitores, contra 232 para o presidente em fim de mandato, diante das duas câmaras, reunidas em sessão extraordinária.

O que deveria ter sido uma mera formalidade se transformou na quarta-feira em uma "insurreição" que "beirou a sedição", nas palavras de Biden, quando uma multidão de partidários de Trump invadiu o Capitólio, considerado o templo da democracia americana.

As imagens que correram o mundo nas últimas horas são inacreditáveis: políticos entrincheirados e com máscaras de gás, manifestantes instalados nos gabinetes das autoridades americanas com os pés sobre a mesa, e os nobres corredores do Capitólio invadidos por agentes armados, como em um filme de ação americano.

Embora a calma tenha sido restabelecida depois de algumas horas, essas imagens ficarão para sempre associadas ao fim do mandato de Trump, que há dois meses não reconhece sua derrota, atitude que fez com que uma parte de seu próprio partido o abandonasse.

Após a votação do Congresso, nesta quinta-feira e após este dia desastroso para seu futuro político, Trump admitiu que seu mandato está terminando e que haverá, em 20 de janeiro, uma "transição ordenada".

"Embora eu discorde totalmente do resultado dessas eleições, e os fatos me apoiem, haverá uma transição ordenada em 20 de janeiro", disse ele em um comunicado.

"Isso representa o fim de um dos melhores primeiros mandatos presidenciais e é apenas o começo de nossa luta para devolver aos Estados Unidos sua grandeza", acrescentou, dando a entender que poderia brigar por um novo mandato em 2024.

- "Sem precedentes" -

Trump, que fala de complô e denuncia fraudes desde sua derrota, é apontado como o principal responsável por essa invasão do Capitólio e pelo caos que reinou por horas. Esses distúrbios levaram as autoridades locais a decretarem um toque de recolher em Washington, D.C.

A polícia informou que uma mulher, uma defensora apaixonada de Trump, foi baleada por policiais e morreu no Capitólio, enquanto outras três pessoas também foram mortas na área em circunstâncias ainda desconhecidas.

Em um discurso pronunciado em meio à violência, Biden exigiu que o presidente interviesse imediatamente na televisão nacional para acabar com o caos e acalmar seus partidários.

"Nossa democracia está sob um ataque sem precedentes", afirmou o presidente eleito, em tom sério e triste.

Pouco depois, Trump divulgou um vídeo, pedindo a seus apoiadores que se retirassem, mas no qual novamente falou de fraude eleitoral.

"Eu amo vocês (...) entendo sua dor (...) tivemos uma eleição que foi roubada de nós. Mas vocês têm que ir para casa agora", disse ele.

Em uma decisão inédita, redes sociais retiraram o vídeo do presidente, considerando que poderia estimular a violência. Além disso, o Twitter bloqueou temporariamente a conta da Trump em suas plataformas (assim como o Facebook) e avisou que poderia suspendê-la permanentemente, se não respeitasse as regras.

Internacionalmente, a surpresa, indignação e condenação foram unânimes. Alemanha, Espanha, Reino Unido ou França pediram o fim dos atos que "atropelam a democracia", e o chefe da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, insistiu em que o resultado das eleições deve ser "respeitado".

Os detratores e inimigos declarados de Trump também reagiram. O presidente iraniano, Hassan Rohani, considerou que o que aconteceu mostra como a democracia ocidental é "frágil e vulnerável".

O governo venezuelano estimou que os Estados Unidos "sofrem o mesmo que geraram em outros países com suas políticas de agressão".

O ex-presidente George W. Bush também não hesitou em criticar seu próprio Partido Republicano. "É assim que resultados eleitorais são disputados em uma república de bananas, não em nossa república democrática", disse ele.

Os ex-presidentes democratas Bill Clinton e Barack Obama também lamentaram o ocorrido, mas não se mostraram surpresos.

A agitação no Congresso foi "incitada" por Trump, "que continua a mentir sem fundamentos sobre o resultado de uma eleição legítima", criticou Obama.

- "Não cederemos" -

Historiadores disseram que esta foi a primeira vez que o Capitólio foi invadido desde 1814, quando os britânicos o incendiaram durante a Guerra de 1812.

Após o fracasso de sua batalha nos tribunais, Trump queria desafiar o Congresso e reunir dezenas de milhares de apoiadores em Washington, coincidindo com a sessão em que a vitória de seu rival seria oficialmente validada.

"Não desistiremos nunca, não cederemos", declarou ele, pressionando seu vice-presidente Mike Pence a "fazer o que tem de fazer".

Pence, obediente e silenciosamente leal a Trump por quatro anos, disse não ter autoridade para intervir e foi rápido em pedir o fim da violência.

Por ocasião desta sessão, alguns parlamentares republicanos levantaram objeções aos resultados em vários estados. Depois dos tumultos no Capitólio, alguns mudaram de opinião.

"Os eventos que ocorreram hoje me forçaram a reconsiderar. E não posso objetar de boa-fé à certificação", disse a senadora Kelly Loeffler, que perdeu uma das duas cadeiras republicanas da Geórgia em disputa, na terça-feira (5), em eleições parciais para o Senado.

O líder da maioria no Senado, o republicano Mitch McConnell, alinhado com Trump durante toda sua presidência, havia tentado evitar objeções.

"Os eleitores, os tribunais e os estados falaram. Se os invalidarmos, nossa república será prejudicada para sempre", disse McConnell, pouco antes dos distúrbios.

O líder da minoria nesta Casa, o democrata Chuck Schumer, descreveu a violência como uma tentativa de "golpe".

"Triste e perigosamente, alguns membros do Partido Republicano pensam que sua sobrevivência política depende de sua participação em uma tentativa de golpe", lamentou.

De acordo com alguns meios de comunicação americanos, vários secretários de Trump falaram de sua destituição ao abrigo da 25ª emenda à Constituição dos EUA. Invocar essa emenda exigiria que o vice-presidente Mike Pence liderasse o gabinete em uma votação para destituí-lo.

- Senado democrata -

Os incidentes ocorreram um dia depois de uma histórica dupla eleição para o Senado na Geórgia, após a qual o Partido Democrata assumiu o controle total do Congresso, chave para a agenda de Biden.

O candidato democrata Raphael Warnock derrotou Kelly Loeffler e se tornou o primeiro senador negro deste estado tradicionalmente conservador do sul.

E Jon Ossoff, de 33 anos, será o mais jovem senador democrata da história do país, depois de... Biden, que assumiu uma cadeira em 1973.

Assim, os democratas têm 50 assentos no Senado, assim como os republicanos. Como prevê a Constituição americana, a futura vice-presidente, Kamala Harris, terá o poder de desempatar e inclinar a balança a favor dos democratas.

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