Congresso do Equador retoma debate sobre impeachment de Guillermo Lasso

A Assembleia Nacional do Equador retomou, neste domingo, o debate sobre um pedido de impeachment do presidente Guillermo Lasso, em meio a duas semanas de violentos protestos de grupos indígenas centrados na alta de preços no país.

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As deliberações começaram no sábado, por videoconferência, e foram suspensas após oito horas de sessão. Agora, cerca de 40 congressistas estavam inscritos — no dia anterior, foram feitas 30 intervenções.

O debate sobre o impeachment de Lasso começou após a divulgação, na sexta-feira, de uma carta de parlamentares do União pela Esperança, ligada ao ex-presidente Rafael Correa. Ali, acusaram o presidente de levar o país a uma “grave crise política e comoção interna”, referindo-se aos protestos iniciados em 13 de junho.

Durante as intervenções de sábado, a oposição atacou ainda a gestão econômica do presidente ao longo de seus 13 meses de mandato, afirmando que os distúrbios nas ruas do país são resultado direto das políticas do atual governo.

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Como forma de tentar evitar a abertura do processo, Lasso anunciou, também no sábado, o fim do estado de exceção em vigor em seis províncias do país — a derrubada da medida era uma das demandas do movimento indígena, e a sua adoção foi recebida com críticas por oposicionistas.

Pelas regras do impeachment, os parlamentares terão até 72 horas para votar após o final dos debates e, para ser aprovado, são necessários 92 votos, de um total de 137 parlamentares na Assembleia. Até o momento, a oposição não acredita ter o número de votos, mas promete continuar a pressão contra o presidente — caso ele seja destituído, o posto será ocupado pelo vice, Alfredo Borrero, e novas eleições serão convocadas.

Impactos econômicos

Diante da expectativa pelos debates, não houve protestos violentos em Quito ou outras cidades do país, mas Lasso reiterou que seguirá atuando para “recuperar a ordem” nas ruas e voltou a acusar o líder da Confederação das Nacionalidades Indígenas (Conaie), Leonidas Iza, de ser responsável pelo caos no país. A organização está à frente dos protestos desde seu início.

— Aqui não há um lutador social, apenas um anarquista que quer derrubar um governo — disse Lasso, em entrevista à CNN no sábado. Na sexta-feira, ele havia dito, em pronunciamento à nação, que Iza perdeu o controle dos atos e que “delinquentes” se infiltraram nos protestos.

Iza, por sua vez, defendeu o movimento, lembrou as demandas dos manifestantes, como as relativas aos preços do combustível, e criticou o que vê como passividade do governo.

— Estamos totalmente conscientes de que esses dias de luta causaram desabastecimento. Se o governo não tivesse sido tão tolo, seguramente não estaríamos aqui por tantos dias — afirmou Iza, em pronunciamento por vídeo.

Neste domingo, o papa Francisco pediu calma e diálogo a todos os envolvidos na crise.

— Sigo preocupado com o que está acontecendo no Equador — afirmou o pontífice, durante a oração do Angelus, no Vaticano. — Peço a todas as partes que abandonem a violência e as posições extremas. Apenas com o diálogo poderá ser encontrada, espero que rapidamente, a paz social.

De acordo com estimativas, a crise tem um custo de US$ 50 milhões por dia à economia equatoriana, que começava a se recuperar dos efeitos dos períodos mais agudos da pandemia. A indústria petroleira está operando com pouco mais da metade de sua capacidade, resultado dos bloqueios em estradas e da ocupação de unidades de produção. Em comunicado, o Ministério da Energia disse que se a situação não mudar, o país pode parar de produzir petróleo em até 48 horas — a pasta cita, além dos bloqueios de poços, as dificuldades para transportar o produto e para fazer com que insumos necessários, como diesel, sejam enviados.

"A produção petroleira se encontra em níveis críticos", diz o documento. "Hoje os números demonstram uma redução de mais de 50% [da produção]".

Segundo o ministro da Produtividade, Julio Prado, os prejuízos acumulados chegam a US$ 500 milhões, com destaque para o setor petrolífero, onde as perdas chegam a US$ 96 milhões.

Desde o início dos protestos, segundo a Conaie, 127 pessoas foram presas, sendo que a maioria em Quito, 145 pessoas ficaram feridas e cinco manifestantes morreram, dois deles nos confrontos durante uma tentativa frustrada de invasão do Congresso, na semana passada. Também foram registrados 11 incidentes de repressão violenta por parte das forças de segurança, e oito pessoas estão desaparecidas.

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