Congresso do MBL vira ode à 3ª via, com presidenciáveis em coro anti-Bolsonaro e Lula

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SÃO PAULO, SP, 19.11.2021 - EVENTO-SP:  - Acontece no Museu da Imigração, em São Paulo, nesta sexta-feira (19), o 6º Congresso Nacional do MBL (Movimento Brasil Livre). (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 19.11.2021 - EVENTO-SP: - Acontece no Museu da Imigração, em São Paulo, nesta sexta-feira (19), o 6º Congresso Nacional do MBL (Movimento Brasil Livre). (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com a presença de quatro presidenciáveis, o congresso anual do MBL (Movimento Brasil Livre) começou nesta sexta-feira (19) com uma espécie de ode à terceira via nas eleições de 2022 e críticas uníssonas aos líderes das pesquisas, o ex-presidente Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Os governadores João Doria (SP) e Eduardo Leite (RS), que disputam as prévias do PSDB neste domingo (21), o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM) e o cientista político Luiz Felipe d'Ávila (Novo) também fizeram discursos em defesa da união em torno de uma candidatura alternativa.

Ausente, o ex-juiz Sergio Moro (Podemos) tem a presença anunciada para o segundo dia do evento, neste sábado (20), mas foi lembrado no palco e nos bastidores como um dos potenciais nomes do campo de centro-direita. O nome de Moro foi ouvido tambem gritos da plateia durante a fala de Doria.

O governador paulista, que participou de um painel sobre as relações entre os três Poderes ao lado de convidados como os deputados federais Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos líderes do MBL, e Marcelo Ramos (PL-AM), fez um discurso inflamado e carregado no tom eleitoral.

Doria foi aplaudido quando, imitando Moro no evento de filiação ao Podemos no último dia 10, rechaçou tanto mensalão quanto rachadinha, cutucando de uma só vez petistas e bolsonaristas. O tucano chegou a descer do palco com o microfone na mão e discursar do auditório.

"Não pode ter projeto individual para as eleições de 2022. O projeto tem que ser coletivo, pelo Brasil e pelos brasileiros. Não é o RG individual, é o RG coletivo. Nós temos que ter o candidato que seja viável para mudar o Brasil e que seja capaz de unir o Brasil, aglutinar o Brasil contra os extremos de Lula e Bolsonaro", disse o governador.

"Eu estarei ao lado do Brasil e dos brasileiros. Havendo uma candidatura fortalecida, é nela que nós todos temos que estar agregados", completou.

Ao pregar a aglutinação de forças do chamado centro para vencer Bolsonaro e Lula em 2022, um grupo emendou um coro de "Moro, Moro", dando a entender que o ex-magistrado da Operação Lava Jato deveria ser o nome em torno do qual todos deveriam se juntar.

Doria ouviu aplausos, mas também críticas. Quando foram abertas as perguntas do público, um participante reclamou de o tucano ter usado o tempo de fala para fazer campanha eleitoral deixado de responder a questões.

Outro disse que ele "foi muito autoritário" nos últimos meses, em alusão a medidas de restrição adotadas pelo governo estadual durante a pandemia da Covid-19.

Apesar de ter sinalizado que não descarta abrir mão da candidatura para apoiar outro nome que se mostre mais viável --isso no caso de vencer as prévias--, Doria adotou tom cauteloso ao falar com jornalistas no local. Disse que ainda não é hora para discutir quem ficará nas posições de vice e de cabeça de chapa.

Na saída, Doria trocou cumprimentos com Leite e Mandetta, que entrariam no painel seguinte, cujo tema era exatamente a busca de uma terceira via. A senadora Simone Tebet (MDB-MS), também presidenciável, tinha confirmado presença, mas faltou. Os motivos não foram explicados.

O debate entre Leite, Mandetta e d'Ávila foi preenchido sobretudo por debates econômicos, sob mediação do humorista e apresentador André Marinho. A retórica do altruísmo também apareceu na boca de todos, que indicaram poder desistir das pré-candidaturas para apoiar outro concorrente.

O governador gaúcho, por exemplo, disse que se pode contar com ele para essa missão, se preciso. "Nenhum de nós pode faltar ao Brasil neste momento, como cidadãos brasileiros", afirmou.

Questionado sobre Moro, Leite fez elogios à atuação do ex-juiz na Lava Jato, mas falou que ele deve agora apresentar o que pensa para além da pauta da corrupção, sobre temas como economia, meio ambiente e educação. E citou como fundamental a capacidade de fazer articulação com o Congresso.

"Eu, particularmente, tenho uma preocupação. O Brasil é um país praticamente ingovernável [...]. É difícil [a relação com o Congresso]. Depende muito da capacidade de articulação. É essa capacidade de articulação que eu espero que o ex-ministro [da Justiça] possa demonstrar", afirmou.

"Se tiver essa capacidade, eu não tenho nenhum problema de sentar para discutir convergência também."

Mandetta --que, assim como Moro, foi ministro do governo Bolsonaro-- reiterou palavras positivas sobre a Lava Jato. O ex-titular da pasta da Saúde afirmou que "o melhor para o Brasil neste momento é retomar" o lado de quem estava certo no trabalho de combate à corrupção.

"E quem estava certo naquela história era o Moro, não era nem Lula nem Bolsonaro", discursou.

Mandetta foi aplaudido ao pregar a necessidade de "exigir a volta da prisão após condenação em segunda instância e o fim do foro privilegiado".

Reforçando a tônica do dia, d'Ávila endossou críticas sobre os governos de Bolsonaro e Lula, em meio à descrição de um receituário que, na visão dele, é urgente para recuperar os rumos do país. O pré-candidato do Novo falou em resgatar a confiança dos investidores no Brasil e melhorar os serviços públicos.

"A terceira via é a única via para nos salvar do populismo de Bolsonaro e de Lula", disse.

Neste ano, o congresso anual do MBL ocorre em um extenso espaço na Mooca (zona leste da capital paulista) que costuma receber festas e outros eventos. Espalhados em áreas ventiladas, os participantes, na maioria homens, se dividiam entre os debates com convidados e outras atividades.

Com clima informal, o lugar tinha food trucks de comida e cerveja. Lojinhas espalhadas pelo local vendiam livros sobre o movimento e produtos como um boné azul que emula a campanha de Donald Trump nos Estados Unidos, com a inscrição "Faça o Brasil livre, p0#@!".

Também foram colocadas à venda camisetas com a expressão "Nem Lula nem Bolsonaro", que esteve no centro da controvérsia que antecedeu a manifestação contra Bolsonaro convocada pelo MBL para 12 de setembro.

Na época, o mote associado à defesa da chamada terceira via na eleição presidencial de 2022 foi uma das razões apontadas por setores da esquerda, sobretudo do PT, para evitar aderirem à marcha.

Estrelas do movimento, como o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), eram cercados com pedidos de fotos.

Segundo a organização, foram cerca de 1.200 inscritos para esta sexta e 1.500 para o sábado, quando o destaque da programação é uma conversa entre o presidenciável Moro e o apresentador e humorista Danilo Gentili, que é próximo do MBL.

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RAIO-X

MBL (Movimento Brasil Livre)

Ano de fundação: 2014

Histórico: Surgido como um movimento em defesa do liberalismo, convocou protestos contra o PT e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Desde 2016 tem braços na política institucional, com membros eleitos com o apoio do grupo

Principais líderes: Kim Kataguiri, Renan Santos, Arthur do Val

Membros com mandato: quatro vereadores, entre eles Rubinho Nunes (PSL-SP); um deputado estadual, Arthur do Val, o Mamãe Falei (Patriota-SP); um deputado federal, Kim Kataguiri (DEM-SP)

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