Conheça a ativista que desviou holofotes de Greta nesta COP26

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GLASGOW, ESCÓCIA (FOLHAPRESS) - Vanessa Nakate não é Greta, mas está neste caminho. A ativista ugandense de 24 anos chegou a Glasgow --cidade britância em que acontece a COP26--, com a agenda controlada por um assessor e sem espaços livres.

Menos de dois anos depois de ser cortada de uma foto em que aparecia num grupo com Greta Thunberg no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Nakate teve nesta conferência climática mais exposição que a famosa ativista sueca que a inspirou em 2018.

A ugandense discursou nas duas principais marchas realizadas em Glasgow na semana passada, enquanto Greta só participou da primeira, na sexta (5), organizada pela Fridays for Future, rede de jovens fundada pela sueca.

No sábado (6), Nakate foi aplaudida por mais de 100 mil ativistas de vários grupos: sindicatos, partidos políticos, movimentos religiosos, defensores de direitos humanos, feministas e ativistas pró-refugiados e contra o racismo.

Dois dias depois, dentro da COP26, foi o destaque em uma reunião com lideranças jovens do mundo, da qual participou também o ex-presidente dos EUA Barack Obama.

Se não bastasse, ela acaba de lançar um livro, "A Bigger Picture" (uma visão mais ampla), elogiado pela paquistanesa Malala Yousafzai, Nobel da Paz em 2014.

É uma exposição impressionante para uma garota que era tão tímida que não se atrevia a falar na sala de aula e tremia só de pensar em se envolver em protestos políticos --que em seu país eram reprimidos com brutalidade quando ela era criança.

Nakate completa 25 anos três dias após o final da COP26, uma diferença de sete anos em relação a Greta. A maturidade transparece na articulação de seus discursos, mais elaborados e menos agressivos que os da colega sueca. "É uma poderosa voz global", afirmou a atriz e ativista americana Angelina Jolie, que a entrevistou para a revista Time.

Nas mensagens públicas, essa voz assume um tom religioso, quase evangelista. "Um novo mundo é possível", disse a ativista de Uganda na sexta, após descrever uma utopia em que as terras inundadas drenam-se e florescem, as crianças estudam e progridem e todos são felizes e vivem em paz.

"Há triunfo na cidade, porque o poder do povo finalmente venceu. O mundo está verde novamente. A natureza foi restaurada. O planeta e a criação são respeitados", pregou, num dos momentos mais aplaudidos de sua fala na sexta.

Nakate é de fato cristã praticante, a ponto de consultar versículos da Bíblia em seu telefone durante entrevistas e citá-los em seus argumentos.

Em sua fala de sexta, a inspiração religiosa era clara: "Três coisas devem permanecer enquanto continuamos a nos mobilizar, protestar e fazer greves: fé, esperança e amor. E das três a principal é o amor, porque se continuarmos a amar as pessoas e o planeta, essa será nossa força."

Mesmo quando protesta, mantém a voz controlada e o rosto sério. Foi assim que ela cobrou o ex-presidente americano pelo fracasso de líderes ocidentais em cumprir a promessa de destinar US$ 100 bilhões para financiar a transição climática.

Em frente a uma plateia pequena, mas cheia de microfones e câmeras, ela advertiu: "Então eu digo para os líderes reunidos aqui na COP26: nos mostrem o dinheiro! E ao presidente Obama: você quer encontrar a juventude aqui na COP. Nós estamos te esperando".

Poucas horas depois, em uma plenária de acesso restrito, Obama pediu aos jovens que sigam indignados, mas que transformem a raiva em ações e, principalmente, votos.

Filha de um empresário e líder político de Kampala, Nakate cresceu em um bairro de classe média na capital ugandense. O que a levou ao ativismo, em 2018, foram o impacto do clima nas plantações que alimentam a população pobre do país e de outras nações africanas e a necessidade de proteger a floresta do Congo, que faz fronteira com sua terra natal.

Com 47 milhões de habitantes, seu país está na região dos grandes lagos da África. É cortado por rios e coberto por savanas e florestas onde vivem gorilas. Nos últimos anos, porém, extremos climáticos causaram longas secas e tempestades devastadoras, seguidas de enchentes e deslizamentos de terra.

Há quase três anos, Nakate e seus quatro irmãos levaram para as ruas da capital cartazes dizendo "Natureza é vida" e "Ao plantar uma árvore, você planta uma floresta". Ela estava tão nervosa que não conseguia sentir as pernas, contou ao editor para a África do jornal britânico Financial Times, que no começo deste mês a destacou como "celebridade global online" na prestigiada seção "Almoço com o FT".

Em janeiro de 2019, recém-graduada em administração e marketing, Nakate iniciou um protesto solitário em frente ao Parlamento de Uganda e lançou na internet um pedido de mobilização pelas florestas tropicais.

Suas ações repercutiram entre jovens no seu país e no exterior, e o apoio crescente a levou a fundar uma rede de ativismo jovem, a Juventude para a África Futura, o One Million Activist Stories, que documenta experiências de jovens ativistas no mundo, e o Movimento Rise Up (erguer-se), que patrocina painéis solares para escolas nas regiões mais desfavorecidas de Uganda.

Já naquele ano ela chegou a sua primeira COP, em Madri, como uma das escolhidas para falar na conferência. Em janeiro do ano seguinte, foi ao WEF (Fórum Econômico Mundial) em Davos, onde um contratempo a projetou definitivamente no cenário internacional.

Nakate foi fotografada ao lado de quatro ativistas brancas --Greta, a alemã Luisa Neubauer, a sueca Isabelle Axelsson e suíça a Loukina Tille-- após uma entrevista coletiva, mas a agência Associated Press cortou Nakate da imagem ao distribuí-la para seus clientes.

Ela protestou, e o episódio detonou acusações de racismo amplificadas por ativistas e várias organizações não governamentais nas redes sociais.

A pressão fez a Associated Press distribuir a versão integral da imagem, e a repercussão transformou Nakate em nova estrela da juventude verde. Um ano depois, ela já era escolhida como uma das 100 mulheres do ano pela BBC, uma das 100 jovens africanas mais influentes e uma das Jovens Líderes dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Passou a ser convidada para palestras por grandes fundos de pensão, como o Norfund, do governo da Noruega, país que é um dos maiores produtores mundiais de petróleo --por sua vez, alvo constante da ativista.

"Não podemos comer carvão. Não podemos beber petróleo. E não podemos respirar o gás chamado de natural. A crise climática não se trata de estatísticas, mas de pessoas reais, como vocês e eu. E está acontecendo neste momento", disse ela no discurso de sábado.

Desde que se tornou ativista, Nakate também deixou de comer carne e beber leite. Tornou-se vegetariana para reduzir o impacto negativo que a pecuária tem sobre o clima, segundo ativistas ambientais, principalmente os ligados ao bem-estar animal.

A repórter Jéssica Maes viajou a Glasgow como parte da 2021 Climate Change Media Partnership, uma bolsa de jornalismo organizada pela Internews 'Earth Journalism Network e pelo Stanley Center for Peace and Security.

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