Conheça a Bharat Biotech, empresa indiana que está no plano de vacinação do governo federal

ANA BOTTALLO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na chamada lista de "adesão do Brasil às vacinas", anunciada nesta quarta-feira (16) pelo Ministério da Saúde, estão a Coronavac (da Sinovac com o Butantan), a vacina AstraZeneca/Universidade de Oxford, a da Pfizer/BioNTech, os imunizantes da Moderna, Janssen (braço farmacêutico da Johnson & Johnson), do consórcio da Covax Facility, da OMS, e a vacina da Bharat Biotech. O último nome talvez seja o menos conhecido por aqui. A empresa de biotecnologia indiana Bharat Biotech avançou rapidamente na corrida por uma vacina contra a Covid-19. Os ensaios clínicos de fase 1 e 2 começaram no final de julho, e, já no início de outubro, a empresa começou o recrutamento de voluntários para a terceira e última fase. Com isso, a farmacêutica se posicionou com uma opção estratégica para fornecer vacinas para países em desenvolvimento e vacinar pelo menos um sexto da população mundial em 2021. O estudo de fase 3 ocorrerá simultaneamente em 25 centros médicos no país, com mais de 26 mil voluntários. Ainda não há uma previsão exata da conclusão dos estudos, mas a expectativa é de apresentar os resultados preliminares no primeiro trimestre de 2021. De acordo com a empresa, os resultados das fases 1 e 2, com aproximadamente 900 voluntários, devem ser publicados em breve. O artigo já foi enviado para uma revista científica e aguarda o período de revisão. A vacina se mostrou segura e bem tolerada, afirma a companhia. Antes do anúncio desta quarta-feira, o Ministério da Saúde já havia anunciado, no dia 29 de novembro, que havia entrado em contato com diversas farmacêuticas, dentre elas a Bharat Biotech, para colher informações sobre as vacinas em desenvolvimento, e enviou a elas cartas de intenção para compra de doses. Até agora, as principais candidatas no país são a da Oxford/AstraZeneca, cujo acordo com o Ministério da Saúde prevê o fornecimento de 100 milhões de doses até o primeiro semestre de 2021, e a Covax Facility, consórcio da OMS para disponibilizar vacinas aos países signatários, com 42,9 milhões de doses. O governo deve fechar ainda contrato com a Pfizer para compra de mais 70 milhões de doses. No dia 7 de dezembro, o embaixador da Índia no Brasil, Suresh Reddy, visitou a sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Segundo a agência de notícias da fundação, a visita foi para uma reunião cujo tema era a cooperação na área de fármacos, incluindo vacinas. Não foi revelado se houve discussão específica em relação à vacina. Batizada de Covaxin, o imunizante da Bharat é composto de vírus inativado e produzido em parceria com o Instituto Nacional de Virologia da Índia. A ideia é modificar o coronavírus Sars-CoV-2, tornando-o não infectante. Os cientistas inserem o coronavírus em culturas de células Vero --linhagem de células comumente utilizadas em culturas microbiológicas, sintetizadas a partir de células isoladas dos rins de uma espécie de macaco na década de 1960 e usadas até hoje-- para multiplicá-lo em laboratório. A partir daí, o vírus é inativado e incorporado à vacina. As vacinas de vírus inativado são das mais tradicionais, com uma tecnologia já dominada há décadas. Entre as vacinas de vírus inativado mais conhecidas estão as da raiva, pólio e a vacina contra influenza. Outras vacinas na corrida contra a Covid-19, como a da fabricante chinesa Sinovac, também utilizam tecnologia de vírus inativado. No caso da Covaxin, a produção da vacina conta com laboratórios de biossegurança nível 3, na sede do instituto de virologia, em Hyderabad, no sul do país. A vacina é administrada em duas doses, via intramuscular, com intervalo de 28 dias entre elas. Uma delegação de mais de 70 embaixadores e altos comissários visitou recentemente as instalações da Bharat Biotech para discutir e conhecer detalhes sobre o estudo da Covaxin. Segundo a empresa, os acordos de fornecimento de doses de diversas vacinas da marca somaram 4 bilhões de doses em todo o mundo. Na Índia, os dados preliminares do estudo já foram enviados à agência regulatória de medicamentos. O diretor executivo da companhia, Sai Prasad, disse à agência de notícias Reuters que "os dados [de fase 3] parecem promissores em termos de redução e também prevenção da doença". A Bharat Biotech se disse aberta a um acordo de transferência de tecnologia com o Brasil e já tem parcerias de longa data para uma vacina de hepatite B e duas vacinas em desenvolvimento, contra o vírus da zika e outra contra o chikungunya. "Estamos definitivamente abertos a novas parcerias para transferências de tecnologia", disse Prasad. A companhia possui atualmente capacidade para produção de 200 milhões de doses por ano, mas pretende ampliar a capacidade para cerca de meio bilhão de doses anualmente, com novos centros de produção. Segundo a Bharat Biotech, há intenção de acordos tanto para governos quanto para mercado privado em pelo menos 30 países. A empresa estuda ainda uma segunda vacina contra a Covid-19, com administração via nasal. Por não precisar de agulhas, esse tipo de imunizante facilitaria o processo de imunização. A vacina está ainda em fase pré-clínica de desenvolvimento.