Conheça Carla Madeira, a escritora brasileira que mais vendeu livros em 2021

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Giuseppe Zani ficou encasquetado quando abriu, em agosto, a loja física do sebo Jacaré, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio. Quem era aquela escritora que “não aparecia nos cadernos de cultura” e de quem todos falavam? De onde havia surgido o desejo coletivo de ler Carla Madeira? “Foi uma enxurrada de pedidos, primeiro de ‘Tudo é rio’, depois de ‘A natureza da mordida’ e ‘Véspera’. Não conhecia a escritora, mas ela estava na lista de todo mundo, na pauta do momento”, conta o gaúcho radicado no Rio. “Não é sempre que um fenômeno assim acontece e foi difícil encontrar exemplares. Logo percebi que os leitores trabalhavam as obras em Clubes do Livro e não queriam se desfazer dos exemplares. A leitura ia além do entretenimento, há apego e identidade. Os livros da Carla que vendo não voltam tão cedo pro sebo.”

A mineira de 57 anos foi a mulher brasileira que mais vendeu ficção no país em 2021. Até a penúltima semana de dezembro foram 53.500 exemplares e a tal “lista de todo mundo” inclui leitores que vão de Mia Couto (“Sua literatura é de rara beleza, estou encantado e com imunidade por este generoso rio”) a Martha Medeiros (“Carla dá até raiva na gente: como assim um livro de estreia tão potente, perfeito, pronto?”), passando pelos atores Mouhamed Harfouch, Alice Wegmann, Cissa Guimarães, Juliana Paes, Patricia Pillar e Murilo Benício, o médico Thales Bretas, viúvo de Paulo Gustavo, e a livreira Ana Averbuck, da Argumento, onde as obras de Carla saíram mais do que o dobro do segundo autor campeão de vendas nas compras de Natal na livraria do Leblon.

Um caminho para entender que segredos tem Carla é ler um trecho de “Tudo é rio”. Aquele em que Venâncio, cego de ciúmes da mulher com o próprio filho, que está sendo amamentado, a espanca sem dó: “Ele arrancou o menino dos braços dela e jogou longe, bateu em Dalva, bateu, bateu. Espancou”. “Quando escrevi isso, estava pensando em engravidar. A porrada foi tão grande que fiquei 14 anos longe do livro”, conta a escritora. “Tive episódios de medo e pânico quando minha filha nasceu. Havia tocado num lugar que não consegui elaborar de imediato. Parecia que não havia saída para aquela situação.”

Havia. Carla largou o livro, mas “Tudo é rio” jamais a deixou. Anos depois, conversando sobre o tema com a mãe, descobriu identificação inesperada: casada com um intelectual religioso, ela já havia tido quatro filhos antes da futura escritora. Não se falava em contracepção. A mãe estava exausta no nascimento de Carla. “João Cabral diz que escrevemos por duas razões: pra transbordar ou preencher. ‘Tudo é rio’ foi um transbordamento. Depois de um intervalo de 14 anos, o escrevi em oito meses, sem parar, alucinadamente. Ele tem uma métrica, um jeito de falar, a frase curta, que se eu ficasse um dia sem reler um trecho, perdia o ouvido”, diz, em sua casa nas Mangabeiras, em BH.

O livro foi lançado em 2014 pela local Quixote e migrou para endereços além Minas com vagarosa elegância. Seu combustível foi o boca a boca. Quando recebeu um exemplar, em setembro de 2019, presente de uma jornalista mineira, Martha Medeiros o leu de um fôlego só em Porto Alegre. E a ele dedicou uma coluna aqui na Revista ELA. “Quem é leitor voraz sabe quando tem uma joia nas mãos e o erotismo nada vulgar de ‘Tudo é rio’ me envolveu. Não é que eu tenha gostado do livro, fiquei apaixonada. Quis muito que Carla fosse lida por muitas pessoas”, observa.

A coluna, conta Carla, “mudou tudo”. Vieram as primeiras resenhas. Depois o convite para uma adaptação cinematográfica (rejeitada, entre outros motivos, porque a autora deseja uma mulher na direção). O contrato com a Record (que relançou “Tudo é rio” e lançou “Véspera” em 2021; e relança este ano o esgotado “A natureza da mordida”, disputado por até R$ 200 em sites). E uma solitária crítica negativa, do catedrático da UFRGS Luís Augusto Fischer, na Folha de S.Paulo. Nela, ele a compara a Isabel Allende e torce o nariz para o uso de “estratégias de folhetim”. “Estava escrevendo ‘Véspera’, que é sobre rejeição, na pandemia, e me deu uma insegurança terrível. Mas nunca li Isabel Allende e o que mais me incomodou foi o que percebi ser uma tentativa de desqualificar o leitor. Depois pensei que ele havia tirado o livro de alguma unanimidade burra. E, por fim, tive a certeza de que o que me interessa é fazer um fio, pegar assim em você e te laçar. Quando vou ao livreiro, peço: me sugere um que eu não vou querer nem comer? Isso é folhetinesco? Defina, por favor”, diz, com a corda imaginária nas mãos.

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