Conheça a diretora da primeira escola chinesa internacional do Rio, recém-aberta em Botafogo

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A pedagoga chinesa Yuan Aiping, de 59 anos, não poderia imaginar o que o destino a reservava quando, a caminho dos Estados Unidos, decidiu incluir o Rio no roteiro, para distrair a mente e encher os olhos antes de uma temporada de estudos. “Fiquei tão encantada pela cidade que nunca mais fui embora”, conta. O ano era 1997 e a especialização em línguas programada nos EUA foi adiada para sempre. “Desde pequena tinha o sonho de morar perto do mar, em um lugar de clima e pessoas quentes”, lembra Yuan, que é de Pequim. “Ao me deparar com a beleza da Praia de Copacabana, decidi ficar”, diz. Determinada, conseguiu um visto e ingressou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para aprender português. “Em seis meses, dominei o idioma.”

A forte conexão com a cidade — “sou a chinesa mais carioca que existe” — fez com que ela se tornasse, nos últimos 24 anos, uma ponte entre as duas culturas. Em 2004, fundou o Centro Cultural China-Brasil, com filiais em Xangai e Pequim, dando aula de mandarim para brasileiros e de português para chineses, além de ter publicado mais de 20 livros, didáticos e de turismo. “Comecei a carreira com quatro alunos. Hoje, pelo Centro, já passaram mais de 40 mil”, comemora. Não à toa, Yuan ocupa o cargo de diretora-geral da Escola Chinesa Internacional, que abriu as portas em fevereiro deste ano, em Botafogo. “Já existiam as escolas Americana, Britânica e Alemã. Precisávamos de um espaço para disseminar a cultura chinesa”, afirma. “Nosso objetivo é proporcionar um ensino de referência internacional no Brasil, em um ambiente trilíngue (mandarim, português e inglês)”, emenda.

Justamente na implantação do mais desafiador projeto de sua carreira, ela enfrentou um obstáculo, até então, pouco vivenciado: o ódio contra os chineses decorrente do coronavírus. A xenofobia assustou a pedagoga. “Sempre fui abraçada pelos brasileiros. Porém, desde a pandemia, fomos atingidos por uma verdadeira onda contra a China. Os professores da escola passaram a ser alvos de insultos e xingamentos nas ruas, no metrô e até na praia”, lamenta. “Esse ódio é fruto da Covid-19, pelo fato de muita gente culpar a China pelo que está acontecendo no mundo, e consequência da política do governo Bolsonaro”, analisa a pedagoga. “Também acho que o crescimento da China assusta o mundo ocidental.”

Ela lembra do choque cultural que sentiu nos primeiros meses de Rio. “A nossa cultura é muito fechada. E, quando saí de lá, o país ainda era bastante pobre”, conta. “Ao chegar, fiquei escandalizada, por exemplo, com revistas com fotos de mulheres nuas, penduradas nas bancas. Isso na China daria cadeia”, compara. Mas, de lá para cá, muita coisa mudou. “Na minha época, enxergávamos os estrangeiros como monstros. Hoje, a China é uma potência, está bem mais aberta e absorvendo muito o que vem de fora.”

Mãe de Liu Si, de 31 anos, ela conta que a filha permaneceu na China com o ex-marido e, atualmente, cursa um MBA em Finanças nos Estados Unidos. “Sofri muito com a distância, mas sem o meu sucesso profissional no Brasil, ela não teria tido tantas possibilidades, como estudar fora.”

Totalmente adaptada ao lifestyle carioca, Yuan não abre mão de pedalar, todos os domingos, seis quilômetros pela orla da Barra, onde mora, é Mangueira de coração, escola de samba pela qual já atravessou mais de uma vez a Avenida, e coleciona amigos pela cidade. Sobre namorados “from Rio”, despista sem alterar a voz: “Me casei com o meu trabalho.”

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