Conheça Fran Jones, a tenista britânica que superou deficiências para chegar a um Grand Slam

Tatiana Furtado
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O Australian Open começou no domingo à noite de olho nas estrelas Rafael Nadal, Novak Djokovic e Serena Williams - que continua na saga de conquistar o 24º Grand Slam na carreira e se tornar a maior vencedora ao lado de Margaret Court. Mas há uma jovem tenista que merece atenção pelo feito já alcançado até o momento. A britânica Francesca Jones, de 20 anos, disputará seu primeiro Grand Slam. Pela idade e sua colocação (número 241 do ranking da WTA), nada deveria chamar a atenção para Jones. Não fosse o fato de ter ouvido de médicos e professores, na infância, que jamais se tornaria uma tenista profissional por causa da sua condição física.

Fran Jones, como é conhecida no circuito, nasceu com displasia ectrodactilia ectodérmica, uma síndrome que afeta as mãos e os pés. A britânica tem quatro dedos em cada mão e apenas três dedos no pé direito, o que usa como apoio no jogo. Nada disso a impediu de na madrugada de terça-feira fazer sua estreia no Australian Open, contra a australiana Shelby Rogers.

O caminho até aqui, no entanto, não foi fácil. Jones passou por várias cirurgias nas mãos e nos pés desde a infância. O tênis entrou na sua vida apenas como uma diversão de criança e para perda de peso. Mas aos 9 anos ela já deixava a Inglaterra para se dedicar ao esporte. Foi para academia Sánchez-Casals, em Barcelona. Lá começou a trilhar o caminho comum a tantas meninas que sonham com o tênis profissional. Com algumas diferenças. Aos 14 anos, perdeu os juniores de Wimbledon, pois precisou passar por três operações. No ano seguinte, lá estava ela.

Jones não se incomoda que seja definida por sua condição física. Ela se orgulha por ter superado o que seriam limitações aos olhos alheios. Sabe que, em alguns aspectos, precisa reduzir a diferença a outras atletas. Mas o mais importante é o exemplo que dá a milhares de crianças.

"A razão pela qual comecei a me comprometer como profissional e a querer conquistar grandes coisas no tênis é porque eu quero que as pessoas, com sorte, tirem pontos positivos do que consegui fazer até agora e se inspirem. Seria ótimo ter esse impacto positivo sobre as crianças mais novas e pessoas que estão em posições semelhantes às minhas", disse Jones em entrevista ao jornal inglês "The Guardian".

E é isso que Jones representa não só para as mais jovens. A brasileira Luisa Stefani, que também está na Austrália, a viu jogar na qualificatória que deu a vaga à britânica.

- Ela é claramente uma inspiração. Ela não se deixa abalar pelas deficiências físicas. É inspiracional ter alguém por perto assim que faz a mesma coisa que estamos fazendo. É uma joia para o nosso esporte de que é possível sim superar as dificuldades - diz.

Jones, inclusive, aproveitou a parada dos torneios por causa da pandemia para reduzir a distância física entre ela e as adversárias. Enquanto a academia de tênis esteve fechada no ano passado, ela reforçou o trabalho de força e musculação de braços e pernas. No segundo semestre do ano passado, também teve a chance de enfrentar jogadoras mmais bem qualificadas em competições menores uma vez que os grandes torneios foram cancelados ou adiados.

- Se alguém for vê-la jogar sem saber da condição física dela, não vai ver diferença alguma nos gestos e na técnica. Na execução dos golpes, ela não precisou de adaptação técnica. O maior cuidado que ela precisa ter diante das particularidades é com a força, é trabalhar tendões e músculos. Ela pode ter mais problemas com a falta e dedos nos pés pois precisa de compensação grande para fazer os movimentos de pernas - avalia o professor de tênis Carlos Omaki, acrescentando. - Ela tem tido ótimos resultados mas nada fora do padrão. Agora, na chave principal de um Grand Slam ela pode fazer algo fora do normal se tiver um crescimento meteórico. O que se percebe nela é uma garra pessoal diferente.