Conheça a história de Andrea Murgel, que virou terapeuta do luto depois da morte do filho

O Globo
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"Estou com 55 anos. Sou carioca e me formei em Publicidade, mas trabalhei durante 28 anos no setor de seguros. Comecei com uma prancheta na mão e suei a camisa para abrir a minha própria empresa. Bem jovem, também me casei e me tornei mãe. Primeiro, nasceu Carol, que tem hoje 30 anos, e, na sequência, Eduardo, o Dudu, que estaria com 28. Está com 28, prefiro falar assim.

Quando eles eram ainda muito pequenos, em 1994, meu casamento terminou. Meu ex-marido deixou de ser presente nas nossas vidas e tive que me virar ainda mais. Dez anos depois, me casei de novo. Passei a ter bons lucros na minha empresa de seguros e construí uma nova vida. Carol e Dudu cresceram e os coloquei debaixo da asa, trabalhando comigo.

Em janeiro de 2013, Dudu partiu. Ele morreu num acidente de banana boat em Angra dos Reis. Estava em Itaipava quando recebi a notícia. Naquele momento, eu também morri.

No início do luto, tive muito apoio da minha família e, depois, do meu pai e da minha mãe. Eles moravam num sítio e foi lá que me refugiei. Tinha apenas dois caminhos: ou ficaria sentada, como uma árvore cheia de raízes, ou me levantaria. Como sou guerreira, me levantei. Comecei a escrever um diário para extravasar a minha dor. Toda noite, eu redigia. E assim nasceu o livro “A mariposa azul”, lançado em 2014, em que relato os primeiros 365 dias sem o Dudu. Também iniciei um blog, pelo qual me conectei a outras mães, e entrei na terapia com a única profissional especializada em luto que existia naquela época.

Dois anos depois da morte do Dudu, me separei do meu segundo marido e encerrei minha atuação na área de seguros. Tudo aquilo havia perdido o sentido para mim. Desde jovem, atuo em obras de caridade. Decidi, então, me especializar em terapia do luto e ajudar, voluntariamente, mães carentes enlutadas. Pensei assim: ‘Vivi esse poço e saí’. Foi na intenção de ajudar o próximo, como uma verdadeira missão de vida, que iniciei a minha jornada. Me formei em terapia cognitiva, positiva e como coach em análise comportamental. Nas consultas, também utilizo métodos holísticos, como reiki e meditação guiada. Em 2016, abri meu consultório.

O luto tem cinco estágios: no primeiro, vem uma espécie de entorpecência e/ou a negação. Em seguida, a negociação, com a vida. Na sequência, a raiva de tudo, que chega junto com a culpa e a busca por respostas. A penúltima fase é uma tristeza muito profunda. E, por último, a aceitação.

No segundo semestre do ano passado, contraí o coronavírus e fiquei quase 40 dias internada devido às sequelas da Covid-19. Meu pai, que havia tido um AVC, estava no mesmo hospital, no andar de cima. Fiquei ao lado dele até o fim.

Durante esses longos dias, tenho certeza de que falei com Deus e fotografei três anjos na parede do quarto. Revi minha trajetória e me dei conta de que preciso, mais do que nunca, seguir com a minha missão de vida. Devido à pandemia, muitos perderam pai, mãe, irmãos, filhos; outros se viram sem emprego, trabalho, comida, em desespero. Coloco-me à disposição para apoiar quem está sofrendo. Além de atender on-line, criei, recentemente, um perfil nas redes sociais chamado Terapia de luto, em que compartilho meu conhecimento e testemunho. Quero ajudar muita gente.”