Conheça a história do casal que comanda cursos e terapias que repensam o sexo e desconstroem o machismo

O Globo
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Mariana Stock e Claudio Serva se conheceram nus — literalmente. “A gente se encontrou num curso sobre sexualidade. Ele já estudava esse tema. Trabalhava no mercado imobiliário, mas estava passando por uma transição de carreira”, lembra Mariana. A terapeuta está à frente da Prazerela, enquanto Claudio responde pelo Prazerele. Os dois vivem juntos e têm uma filha, Maria Luiza, de 2 anos. A missão da dupla é repensar o sexo, desconstruir o machismo e difundir conceitos, como o da sexualidade positiva, por meio de cursos e terapias, presenciais (interrompidos durante a pandemia) e on-line.

Publicitária de formação, a curitibana chegou a ser gerente de marketing de uma multinacional de cosméticos. A vida seguia um roteiro predeterminado e tudo parecia ir muito bem. Até que uma amiga com problemas sexuais falou, maravilhada, sobre os benefícios da massagem tântrica. Intrigada, Mariana decidiu experimentar e mergulhou, pouco a pouco, num transformador processo de autoconhecimento. Começou pela tal massagem, prosseguiu no estudo da psicanálise e culminou num curso de doula. Quando se deu conta, a publicidade não fazia mais sentido e, em 2017, mesmo ano em que conheceu e começou a namorar Claudio, fundou a Prazerela. “Decidi ajudar outras mulheres a terem uma relação mais potente com a sexualidade”, conta.

O Prazerele nasceu na sequência, em 2018. “Comecei a dar muitos cursos para mulheres nos quais falava sobre a contextualização histórica, política e biológica da sexualidade feminina. Elas saíam impressionadas e me pediam para falar sobre esse assunto com os homens. Porém, eu tinha resistência por ser outra abordagem, e sugeri a ideia ao Claudio. Além de tratar de sexualidade, ele palestra sobre a desconstrução do machismo. São trabalhos complementares”, explica Mariana. Segundo o terapeuta carioca, os homens ainda estão “engatinhando” no tema. “São muito atravessados pela pornografia e pelo sexo performático, que geram ansiedade, falta de ereção, ejaculação precoce e retardada. Quando se tocam de que aquilo não é legal, não sabem para onde ir e vão atrás de outros que também buscam essa desconstrução.”

Entre os conceitos cunhados por Mariana está o da sexualidade positiva. “Não temos educação sexual e quando temos é muito repressora. A sexualidade positiva incentiva, desde a infância, uma educação sexual que celebra o fato de sermos seres sensoriais e a descoberta do prazer”, explica. A terapeuta conta que o Instagram (@prazerela, com 196 mil seguidores, mais do que o dobro do @prazerele, que coleciona 82 mil fãs) costuma ser a porta de entrada para desbravar esse universo. “A gente compartilha conteúdos que ‘falam’ com uma diversidade

de mulheres”, frisa. A partir das reflexões, despertadas pelas publicações, segue-se o diálogo, que acontece em cursos coletivos, realizados no ambiente digital. “As mulheres se conectam e interagem”, descreve Mariana. Só então vem a proposta da terapia orgástica, suspensa devido à pandemia. “É individual e realizada somente por terapeutas femininas. A mulher vivencia sensações novas. É um processo disruptivo. Mais de 90% das mulheres que passaram pela terapia orgástica falaram: ‘Como ainda não tinha vivido essa experiência com o meu corpo?”.

Segundo Mariana, o problema mais frequente relatado pelas mulheres é justamente a dificuldade de alcançar o orgasmo. “E também os bloqueios enfrentados por quem sofreu abusos e traumas na infância, adolescência ou em qualquer fase da vida. Sobre a questão do orgasmo, costumo dizer que chegar lá por meio da penetração é algo bem difícil. A vagina é um canal de parto. Se tivesse muitas terminações nervosas, seria difícil parir. O órgão que existe para dar prazer é o clitóris”, ressalta.

Claudio, por sua vez, descreve os obstáculos que enfrenta ao mexer com preconceitos masculinos arraigados. “Muitos homens não se consideram machistas, principalmente os brancos, cis, héteros e de classe média alta. É complicado desconstruir esse lugar. Quando eles percebem que o micromachismo está presente em piadas e comentários, ligam um alerta e pegam um caminho sem volta, que é

a tomada de consciência”, comenta o terapeuta. “Também questiono o sexo falocêntrico, que nem sempre os agrada mas é reproduzido de forma automática, e aponto zonas erógenas pouco exploradas.”

Ambos destacam que o tema sexualidade, por si só, desperta sentimentos contraditórios. “Envolve medo e vergonha, além de estar contextualizado numa sociedade, estruturalmente, misógina. Os homens, especialmente os brancos, ocupam lugar de poder e as mulheres ficam numa posição de submissão, a serviço deles”, analisa Mariana. Segundo a terapeuta, para eles, o desafio é conseguir estabelecer uma relação sexual horizontal, que inclua o respeito. “Já as mulheres precisam parar de reproduzir comportamentos e falas machistas”, emenda. Até nas publicações no Instagram o casal se depara com barreiras. “Nossos conteúdos costumam ser censurados, a gente não consegue patrocinar nada. A internet ainda não vê diferença entre a abordagem educativa da sexualidade e a pornografia”, lamenta Mariana, que, ao longo desses três anos, pensou inúmeras vezes em desistir. “Mas sigo impulsionada pelos depoimentos de mulheres que dizem ter mudado radicalmente de vida a partir da Prazerela.”

O fato de eles serem casados representa um trunfo para o trabalho. “A nossa relação é um laboratório importante. Utilizamos nossos aprendizados”, observa Mariana. “É uma honra caminhar ao lado dessa mulher. A parceria amorosa fortalece a nossa atuação profissional”, retribui Claudio. Entre os projetos para 2021, está a interação do casal com outros casais. “Entendemos que um precisa ouvir mais o outro”, afirma Mariana.

Impactados pela pandemia, Claudio e Mariana revolucionaram, mais uma vez, o curso de suas trajetórias. “Morávamos em São Paulo, mas acabamos de nos mudar para Garopaba, em Santa Catarina, para ficarmos pertinho do mar”, relata Mariana. O terreno no meio do verde foi comprado há dois anos e seria desfrutado somente no futuro. Porém, o nascimento de Maria Luiza e a Covid-19 adiantaram os planos. “Chegamos à conclusão de que não faz sentido criar uma criança num mar de concreto como São Paulo. Também percebemos ser possível fazer trabalhos transformadores e potentes de forma virtual”, avalia Claudio. Mais para frente, a ideia é levar a Prazerela e o Prazerele para o meio do mato. “Queremos desenvolver um projeto que integre sexualidade com natureza. Estamos semeando esse novo sonho”, adianta Mariana.