Conheça histórias de pessoas que, apesar de tudo, tiveram um 2020 positivamente inesquecível

Talita Duvanel
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A expressão latina annus horribilis (ano horrível, famosa por ter sido usada pela rainha Elizabeth em 1992) cai perfeitamente na descrição de 2020 para a maioria dos habitantes do planeta. Sobram cicatrizes do isolamento e da crise econômica impostos pela pandemia e, principalmente, da perda de entes queridos para esse vírus impiedoso, embora tão simples de estrutura a ponto de se desfazer com água e sabão.

Só no Brasil, já são mais de 183 mil pessoas mortas até o fechamento desta edição. Apesar do cenário devastador, há quem consiga enxergar esse ano como positivo. Caso da fisioterapeuta Márcia Arosteguy, viva por causa de um transplante realizado no início da pandemia, da executiva Danielle Nunes, promovida para um cargo em Paris, e da advogada Raphaela Almeida, que deu à luz depois de um câncer. Pessoas que, a despeito de dores e dificuldades, olham para trás e dizem: “Foi ruim, mas foi bom”.

Márcia

A fisioterapeuta Márcia Arosteguy, de 47 anos, exibe com orgulho a fina cicatriz na barriga em forma de T invertido. Foi resultado do melhor presente que poderia ganhar neste ano ou em qualquer outro: o transplante de fígado que salvou sua vida.

Em 2012, a carioca descobriu que o seu órgão era cheio de pequenos cistos. Eles cresceram e, em 2015, começaram a dificultar seus movimentos e sua alimentação. “Ele chegou a pesar 8kg, parecia que eu estava grávida”, conta.

Em meados de 2019, foi preciso entrar na fila de transplantes, e a operação aconteceu em março deste ano. O crescimento das infecções de Covid-19 fez com que o tempo de UTI fosse menor e ainda lhe rendeu um susto grande. Quando seu corpo começou a rejeitar o novo fígado, cuidar disso no hospital era um risco. Por isso, o tratamento aconteceu em casa, com remédios e cuidados extras, que se estenderam pelos últimos meses. Hoje, o fígado novo já funciona, mas ela vive isolada com o marido. Nenhum problema diante do renascimento. “Ganhei minha vida em meio a todo esse caos. Então, 2021 que me aguarde porque estou novinha em folha.”

Ana e Aládia

A produtora de cinema Ana Luz Henrique, de 30 anos, estava numa reunião virtual quando a esposa, a médica Aládia Queiroz, também de 30, veio com a notícia: “Nossa filha está chegando”. Não que M.L*, de 5, estivesse na porta da casa delas, no Rio. Para as duas, ela ainda era apenas uma foto compartilhada num chat de “busca ativa” no WhatsApp. Autorizados pela Justiça, esses grupos conectam famílias habilitadas à adoção em contato com crianças consideradas de “difícil colocação”, como, por exemplo, as que passaram da primeira infância ou têm alguma deficiência.

Juntas há dez anos e casadas legalmente há três, as duas receberam o o.k. da Justiça para adotar em agosto de 2019, mas foram avisadas que uma criança de 5 anos só chegaria, com sorte, dois anos e meio depois. “Já estávamos pensando em inseminação”, diz Aládia. A mensagem daquela inesquecível quinta-feira de julho veio provar que, em 2020, nem tudo segue previsões. Elas correram para responder à remetente que aquela menina era a filha que tanto sonhavam. Nas semanas seguintes, dos primeiros encontros até a finalização do processo, não negam que houve medo, angústia e ansiedade. Mas quando M.L* finalmente chegou em casa, em agosto, tudo se tornou administrável. “Ela é a filha que desejamos a vida inteira. Foi um dos dias mais felizes das nossas vidas”, comemora Ana. Aconteceu em 2020, e elas podem provar.

*O nome foi resguardado a pedido das entrevistadas.

Danielle

Enfrentar a pandemia num cenário conhecido, como a própria casa ou cidade, não tem sido fácil. Imagina longe disso tudo? O desafio pode soar quase intransponível para muitos, mas não para a jornalista Danielle Nunes, de 40 anos. Encarar a distância e a saudade nesse ano atípico estava ligado à realização de um dos sonhos dessa carioca. “Desde adolescente, quis morar fora. Tentei fazer intercâmbio, mas meus pais não conseguiram bancar.”

Por isso, assim que entrou na L’Oréal, há sete anos, deixou claro estar disposta a arrumar as malas para qualquer lugar. As primeiras conversas para ocupar um cargo de direção de comunicação operacional em Paris começaram no ano passado, mas a Covid-19 esfriou os planos da empresa e dela. “Minha prioridade era a segurança da minha família.”

Quando os casos começaram a diminuir na Europa, o papo foi retomado. Em agosto, Danielle, o marido e a filha de 5 anos chegaram à França para morar num apartamento que só viram por foto, para uma vida que tinham almejado quando o ir e vir era liberado. “A verdade é que isso é uma aventura”, diz ela, atualmente sem poder sair de casa entre 20h e 6h por causa de medidas de segurança. “Sinto-me até constrangida, mas foi um ano muito bom. Temos poucos momentos na vida de turning point, de dar uma volta dessas.” Era pegar ou largar.

Tatiana

Foram cinco dias consecutivos de muito álcool em janeiro antes que Tatiana Dourado, de 40 anos, tomasse a decisão de que 2020 era o momento de parar de beber. Dez anos antes, a paulista de Itaquaquecetuba descobriu uma doença progressiva que atinge os nervos responsáveis pela locomoção. Foi obrigada a parar de trabalhar, ao mesmo tempo em que enfrentava uma relação abusiva com o ex-marido em casa. A bebida virou um subterfúgio para a solidão. “Não tive ajuda emocional, meu apoio era o álcool.”

Nem as sessões de quimioterapia, um dos métodos que ajudam os pacientes a não perderem completamente os movimentos, a livrava dos porres. Quando percebeu que a doença estava em franca evolução, impedindo-a até de pentear os cabelos, deu um basta. “Tive medo de ficar paralisada de vez e acordei para a vida.”

Tatiana começou a participar de reuniões no Alcoólicos Anônimos e, desde julho, faz parte do coletivo “Alcoolismo Feminino” (@alcoolismo_feminino), uma rede de apoio virtual para mulheres alcoolistas. Com a ajuda que recebe e compartilha, completa, mês que vem, um ano sem cachaça, sua companheira favorita de tempos sombrios. “Mesmo com a pandemia, consegui encontrar serenidade. Por isso, 2020 tem sido tão diferente, foi o ano do amor-próprio”, reflete. Um amor que, mesmo com as dificuldades, só cresce.

Raphaela

Um dos momentos mais marcantes da gravidez da advogada Raphaela Almeida, de 39 anos, aconteceu quando o marido, o marceneiro Élberte, encheu a mão de álcool gel e acariciou sua barriga. Sem conseguir parar de trabalhar na rua durante a pandemia, quis resguardar a família e saiu de casa. Naquele dia, num encontro no corredor do prédio, foi difícil segurar o desejo de tatear o sonho que outrora pareceu impossível.

A carioca adiou os planos de ser mãe até os 35 anos. Quando engravidou, a felicidade durou pouco. O embrião se fixou nas tubas uterinas e não sobreviveu. Sem as duas trompas, retiradas por causa das complicações, Raphaela e o marido procuraram o Vida Centro de Fertilidade. A ideia era fazer uma fertilização in vitro, mas ela descobriu um câncer no seio. “Mais uma vez, meu mundo caiu.”

Apesar de o tumor ser agressivo, não estava relacionado a hormônios. Ou seja, Raphaela poderia gestar um bebê e, por isso, congelou os óvulos antes de se submeter à quimioterapia. Com o tratamento concluído, tirou “férias” em 2019 para tentar ser mãe só em 2020. Só não contava com uma pandemia. “Duas semanas após a transferência dos embriões, o negócio ficou sério no Brasil”, relembra. A advogada viveu a gravidez isolada da família e amigos, mas agradece por cada minuto com Maria Antônia e Raphael, de 1 mês e meio. “Foi o ano da superação e da vitória”, ela diz. Ninguém há de negar.