Conheça o diretor por trás dos clipes divas do pop nacional, como IZA e Ludmilla

Gilberto Júnior
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O plano inicial de Ludmilla para o clipe do hit “Rainha da favela” era “meio pesado”. A estrela do funk iria interpretar uma menina que sofria abusos do padrasto alcoólatra, e que recorreria ao poder paralelo da comunidade em que morava para salvá-la daquela situação. Para isso, a garota teria que fazer “favores” para o tráfico — uma espécie de “aviãozinho”. Sem alternativa, a moça acabaria envolvida no “movimento” até encontrar a liberdade na música.

Corta. Entra o diretor Felipe Sassi, de 27 anos, o papa da videografia do pop nacional contemporâneo. Ele pega a personagem desenvolvida por Lud e a transforma em “sentimentos”. E a rainha da favela fica mais leve, ao ponto de dançar com shortinho preto e camisa azul cropped da seleção e tomar banho de refrigerante — além de se sentar ao lado dos ícones Tati Quebra Barraco, Valesca Popozuda, MC Carol e MC Katia para confraternizar.

“É uma parceria. Sassi e eu nos complementamos. Venho com ideias, ele arredonda e vice-versa”, observa Ludmilla, que trabalhou com o diretor em “24 horas por dia”, “Bom”, “Cheguei” e “Jogando sujo”. “Ele agrega em um dos pontos mais fundamentais hoje para um artista da indústria da música. O clipe conta a história da canção com imagens e, atualmente, isso precisa ser extremamente bem bolado, porque vira número de visualizações, né? Então, essa responsabilidade precisa estar nas mãos de quem confio para rolar exatamente como pensei em entregar ao meu público.”

IZA, Gloria Groove, Duda Beat e Lia Clark parecem comungar da mesma opinião. “Sinto-me bastante segura com o Sassi. Ele entende muito de pop, coreografia, intenção e cinema”, diz IZA, pilotada pelo paulista em “Pesadão”, “Evapora” e outros tantos. “Para o vídeo de ‘Brisa’, por exemplo, eu queria que a gente filmasse no deserto, num cubo de vidro, suando. O diretor veio com navio e bailarinas da Jamaica. Esse trabalho tem muito o seu dedo na arte e na criação.”

Para o projeto mais ambicioso de sua carreira, o curta-metragem musical “Bumbum no ar/Terremoto”, Lia não pensou duas vezes no momento de convocar o rapaz para comandar o set. “Temos uma conexão enorme e somos inspirados pelo universo pop”, pontua a cantora e drag queen.

Para compreender o universo de Sassi, é importante ressaltar que ele é um consumidor voraz das obras de Wes Anderson (“Os excêntricos Tenenbaums”, “O Grande Hotel Budapeste” e “A lula e a baleia”), Tim Burton (“A fantástica fábrica de chocolate”, “Edward mãos de tesoura” e “Alice no país das maravilhas”) e Quentin Tarantino (“Kill Bill”, “Pulp fiction: Tempo de violência” e “Era uma vez em... Hollywood”). “Amo coisas fora da caixa”, observa o paulista, que sonhou aos 7 anos que ganhava um Oscar. “Eu me lembro que eu chorava ao receber a estatueta, fazia discurso. Ainda no ensino fundamental, dirigi um curta estrelado pelos colegas de classe. Enfim, sempre fui interessado por cinema.”

Nascido em Campinas e criado no Guarujá, o diretor era tão aficionado pela sétima arte que chegou a trabalhar numa videolocadora pelo salário de R$ 100. O bônus, segundo ele, era poder assistir ao catálogo inteiro do local — sem precisar desembolsar um centavo. “Minha vontade era ter cursado Cinema na universidade, mas minha família e eu não tínhamos recursos para arcar com as despesas. Fui estudar Publicidade; e no terceiro período gravei um vídeo da música “Bloody Mary”, da Lady Gaga (de quem é fã), que acabou sendo um prenúncio do que estava por vir.”

Ainda na faculdade, Sassi foi indicado por um professor para fazer parte do time do produtor e empresário KondZilla. Seu primeiro projeto foi o clipe “Tombei”, da rapper Karol Conka. “Na sequência, voltei a colaborar com ela em ‘Lista vip’. O divisor de águas da minha carreira, no entanto, foi ‘Pesadão’, de IZA. Consegui imprimir tudo que eu tinha dentro de mim, sabe? Depois foi uma crescente. E arte é justamente isso: evolução constante”, diz o paulista.

Tímido, o diretor afirma que parou de contar as visualizações de seus clipes quando os números ultrapassaram a marca de dois bilhões no YouTube. “Pesadão”, por exemplo, soma 317 milhões de reproduções; “YoYo”, de Gloria Groove, foi visto 51 milhões de vezes; e “Rainha da favela”, o lançamento mais recente de Sassi, teve 16 milhões de cliques em apenas três semanas. “O clipe fala muito sobre quem é aquele artista. Tento enxergar o melhor daquela pessoa”, comenta. “Gosto de pensar que meus vídeos fazem diferença no mundo ao colocar em pauta temas importantes como diversidade e representatividade.”