Conheça o Instituto Oya, em Salvador, que qualifica mulheres por meio da moda

Nivia Luz reverencia a avó materna, Anísia da Rocha Pitta, a Mãe Santinha, em palavras, gestos e ações. A baiana de 39 anos, que nasceu no terreiro, localizado no bairro Pirajá, na periferia de Salvador, cresceu sob a batuta da avó Ialorixá, que logo cedo mostrou para ela que a educação, a arte e a fé têm poder de transformar o mundo. “Ela cuidou de mim”, conta. Em 2013, Nivia partiu para os Estados Unidos, onde iria continuar a sua formação (ela é graduada em Turismo). Porém, o estado de saúde da avó a trouxe de volta. Depois da morte de Mãe Santinha, em 2015, foi escolhida, por meio do jogo de búzios, para sucedê-la. “Muito tempo atrás, olhei para Nivia e senti que seria ela, a rainha que iria ocupar o lugar da avó, Mãe Santinha, uma mulher admirável e muito amada por todos nós”, diz a atriz e apresentadora Regina Casé.

Hoje, além de liderar o Terreiro Ilê Axé Oya, de candomblé, coordena o Instituto Oya, fundado por Mãe Santinha na década de 1990. “Ela tinha um dom nato para a educação e a palavra que usava aqui era acolhimento”, diz Nivia. No local, mais de 150 crianças têm aulas de dança, teatro, música, inglês e reforço escolar. “Esse espaço é literalmente o quintal da nossa casa”, lembra.

As peças carregam histórias. “A roupa de Marinalva é da lojinha do Instituto. A de Malvina é um vestido de noiva com aplicações de búzios, feito à mão pelos alunos para o desfile do ano passado. A da Dona Lúcia foi criada pelo Pitta (Alberto Pitta, artista plástico e fundador do Cortejo Afro) para os integrantes do Cortejo. Já a da Rosângela é de fuxico”, descreve Felipe Veloso. “Envolvemos todas as alunas no processo de criação. O Instituto abraça a causa da religiosidade, do ensino, da capacitação e do empoderamento. Deveria servir de exemplo para todo país.”

Nivia herdou e honra o legado de Mãe Santinha: em 2015, lançou o Oya Criativa. Em 2020, novamente influenciada pela avó, uma craque no bordado Richelieu e apaixonada pela leveza do linho, criou o curso de Moda, Modelagem, Corte e Costura para profissionalizar mulheres — em 2021, o desfile de fim de ano teve curadoria do diretor criativo Giovanni Bianco. Neste ensaio, resultado das aulas ministradas pelo stylist Felipe Veloso, estão quatro delas, Dona Lúcia, Malvina, Marialva e Rosângela. “A gente quis mostrar a beleza dessas mulheres fortes, que vêm de uma realidade periférica, mas não acreditam na pobreza”, diz Nivia.

Os projetos não param: o núcleo de moda do Instituto Oya fez collab com a Ocupação 9 de Julho -— Movimento Sem-Teto do Centro. Juntos, lançarão, em julho, em São Paulo, uma coleção de moletom, que vai do básico ao sofisticado, com intervenções de macramê. “Também planejo lançar a Universidade Preta de Moda, Artes e Design, a Unipreta. Tudo gratuito”, diz Nivia, que, na área de design, tem parceria com Marcelo Rosenbaum. O Instituto tem um patrocinador até o fim do ano e vive de doações. “Queremos criar maneiras de gerar a nossa própria renda”, frisa.

Ela lamenta a intolerância religiosa do cenário atual. “Em um Brasil diverso, plural como o nosso, ter problemas com a cor da pele e a religião é um retrocesso. As ações violentas só serão modificadas por meio da educação. O Instituto Oya e outras iniciativas contribuem para esse processo de transformação”, analisa. Diante das dificuldades, Nivia não esmorece. “Quando você nasce uma menina preta de terreiro numa comunidade, são as lutas que nos movem”, conclui.

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