Conheça poema que Anielle Franco leu em posse como ministra

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 11.01.2023 - A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 11.01.2023 - A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O texto de "Vozes-Mulheres", de autoria de uma das principais escritoras brasileiras em atividade, fala sobre a progressiva saída do silenciamento de mulheres negras ao longo de gerações.

O poema está contido na coletânea "Poemas de Recordação e Outros Movimentos", lançado pela editora independente mineira Nandyala em 2008 e depois reeditado pela carioca Malê, que publicou outros livros de contos de Evaristo, como "Insubmissas Lágrimas de Mulheres" e "Histórias de Leves Enganos e Parecenças".

A literatura de Evaristo tira suas raízes da oralidade das culturas afro-brasileiras para construir suas histórias. A escritora se notabilizou por contos, como os de "Olhos d'Água" e "Becos da Memória", e romances como "Ponciá Vicêncio", mas sua obra poética também é reconhecida nos círculos literários.

Franco classificou "Vozes-Mulheres" como um de seus poemas favoritos ao introduzi-lo durante a cerimônia de posse no Palácio do Planalto, que também oficializou Sônia Guajajara como ministra dos Povos Indígenas.

Veja na íntegra o poema.

VOZES-MULHERES

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

E fome.

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem —o hoje— o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade.