Conheça quem vai chefiar controversa renovação da biblioteca da Fundação Palmares

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Após uma cruzada ideológica contra obras marxistas e comunistas e um relatório que considerou mais da metade da biblioteca da Fundação Palmares “inadequada”, a prometida e controversa renovação do acervo da entidade ficará a cargo do bibliotecário goiano Henrique Bezerra de Araújo. A nomeação foi publicada no dia 1º de outubro e divulgada nas redes sociais da Fundação Palmares e de seu presidente, Sérgio Camargo, nesta terça-feira (5).

Araújo chefiará o acervo bibliográfico e iconográfico da entidade, trabalhando ao lado de Marco Frenette, ex-assessor de Roberto Alvim, demitido do cargo de secretário da Cultura por apologia ao nazismo, que em março foi nomeado coordenador-chefe do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra e promete “trazer o acervo da Palmares para o século 21”.

Frenette assina o relatório divulgado em junho que considerou que 5.300 livros, folhetos ou catálogos do acervo são de temática alheia ao escopo do órgão. A maior parte deles, afirma o autor, de caráter panfletário e com evidências do que ele e Sergio Camargo chamam de dominação marxista da entidade.

Henrique Bezerra de Araújo se apresenta como bibliotecário, especialista em Arquivologia e Museologia e revisor de trabalhos acadêmicos em seu perfil no LinkedIn. De acordo com informação da rede social e do seu currículo lattes, é graduado em biblioteconomia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e tem especialização em Filosofia da Arte pelo Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás (IFITEG).

Araújo atuou como professor na UFG, foi gerente do departamento de comercialização e divulgação da editora da universidade, bibliotecário do Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia, e mais recentemente, até assumir o cargo na Palmares, no Conselho Federal de Contabilidade, em Brasília.

Entre seus trabalhos, consta a catalogação, em 2008, da reedição pela editora da UFG, do livro “Confesso que peguei em armas”, de Antonio Pinheiro Salles. A obra lançada originalmente em 1979 denuncia a tortura cometida pelo aparato de repressão da ditadura militar no Brasil.

Acervo na mira

Criada em 1988, a Fundação Palmares tem como função promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira. Mas, segundo Camargo e Frenette, apenas 5% dos 9 mil títulos de seu acervo 'cumprem a missão institucional' do órgão.

Um relatório analisando as obras que compõe a biblioteca da entidade foi divulgado em junho. O documento divide os mais de 9 mil títulos (incluindo 1.530 folhetos e catálogos), segundo a equipe de Frenette, em 46% de "temática negra" e 54% de "temática alheia à negra". Destes 46%, o relatório avalia que apenas 478 títulos têm "cunho pedagógico, educacional e cultural dentro da missão institucional".

O restante estaria dividido entre "catálogos, panfletos e folhetos" e obras de "militância política explícita ou divulgação marxista, usando a temática negra como pretexto" (28%, ou 2.678 títulos). Entre os 54% das obras consideradas de "temática alheia à negra" o documento destaca temas como "ideologia de gênero", "manuais de greve", "bandidolatria" e "bizarrias".

O documento afirma que as publicações expurgadas não serão destruídas e permanecerão armazenadas "de forma adequada e em ambiente protegido, aguardando os procedimentos de doação".

O relatório diz ainda que o atual acervo estaria “parado nos anos 70” e que não constam obras “fundamentais à temática negra” lançadas nos últimos 30 anos. O novo integrante da equipe, Bezerra de Aráujo, deve participar da renovação da biblioteca defendida por Camargo e Frenette, com conteúdos para a "promoção da cultura negra", "sem vitimismos, militâncias e segregações".

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