Conheça a trajetória de Marlene Taschen, CEO da editora de arte mais prestigiada do mundo

Fernando Eichenberg
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os 31 anos, Marlene Taschen soube de forma inusitada de sua nomeação como CEO da editora alemã Taschen, célebre tanto por democratizar os livros de arte como transformá-los em verdadeiros objetos de luxo. Seu pai, Benedikt Taschen, fundador da editora, era entrevistado ao seu lado numa das livrarias da casa, em Berlim, e sem aviso prévio fez o anúncio. “Receber esta responsabilidade, assim deste jeito, foi um choque. Mas decidi aceitar o desafio”, conta ela em uma conversa por Zoom de Londres, onde vive com o marido e a filha Aurelia, de 9 anos.

Hoje, aos 35, Marlene, que deu à luz no final de janeiro a uma segunda menina, dirige da capital britânica as criações e os negócios da Taschen, que tem sede na cidade alemã de Colônia e 13 livrarias no mundo. E diariamente, no final do dia, faz uma reunião virtual de trabalho com o pai, que mora na famosa Chemosphere, uma casa suspensa em forma de disco voador projetada pelo arquiteto John Lautner, em 1960, nas colinas de Hollywood.

A Taschen nasceu em 1980 como uma livraria de HQs em um modesto espaço de 25 metros quadrados em Colônia, inaugurada pelo então jovem empreendedor Benedikt na véspera de completar 19 anos. Logo se tornou uma marca de referência por suas edições sobre artes em geral, fotografia, arquitetura, design, erotismo, viagem ou lifestyle, em parcerias exclusivas com grandes nomes internacionais.

Na infância, Marlene conheceu artistas como Jeff Koons e a ex-atriz pornô Cicciolina. Aos 18 anos, recebeu a missão de acolher no aeroporto, sozinha, Muhammad Ali, que desembarcava para as dedicatórias da obra “GOAT (Great of All Times)”, uma homenagem ao fenômeno do boxe em edição limitada da coleção SUMO, de livros de dimensões gigantescas. Apesar da precoce convivência com o universo da editora, seu percurso foi sinuoso até entrar profissionalmente na empresa familiar.

Aos 16 anos, saiu de casa para morar com um namorado. Aos 18, deixou a Alemanha para passar temporadas na Austrália, em uma experiência de intercâmbio, e depois no Panamá, por amor a um australiano. Mais tarde, acabou se estabelecendo na Inglaterra. Diplomada em Comércio e Psicologia, colaborou em Londres com o “Museum of everything”, exposição itinerante de arte bruta criada pelo colecionador James Brett.

Foi em 2011, aos 26 anos, grávida, que surgiu o interesse de ingressar na Taschen: “Enquanto a Aurelia crescia dentro de mim, me dizia por que não dar minha energia para a empresa da família”, lembra. O pai ficou feliz. “Um dos primeiros projetos de que participei foi o livro ‘Gênesis’, de Sebastião Salgado”, conta.

O Brasil continua presente nos planos da editora. Para este ano, além de uma nova obra do fotógrafo brasileiro, sobre a Amazônia, está prevista uma reedição atualizada do livro da artista Beatriz Milhazes. Mais do que isso: o país poderá ter em breve sua primeira livraria Taschen. “Há uma possibilidade, hoje, de uma parceria bem interessante para uma loja em São Paulo. Acho que seria bem bom. Estou também pessoalmente envolvida como integrante do conselho do Instituto Terra, do Salgado. E ainda temos a pretensão de um grande projeto sobre Oscar Niemeyer. Tivemos, inclusive, a assinatura dele, já adiantamos uma parte do trabalho, e espero que um dia chegue o momento de concretizá-lo”, diz Marlene.

O catálogo de 2021 promete ainda obras dos artistas britânico David Hockney e da mexicana Frida Kahlo e do estilista americano Virgil Abloh, diretor criativo da linha masculina da Louis Vuitton. “Hockney planejou permanecer todo o ano de 2020 em sua casa no interior da Normandia, pintando todas as mudanças das estações em um Ipad. Será um belo e poético artwork de 220 desenhos. O livro de Frida Kahlo foi algo muito difícil, nossa equipe está exausta. Trabalhamos com muitos museus e colecionadores, e tivemos de lidar também com o governo mexicano, em uma operação complicada. Em termos de conteúdo visual, será a obra mais substancial e ambiciosa já publicada sobre ela, um livro sobre vida e arte, com muitas fotos e pinturas”, conta. Já a obra de Abloh surpreendeu pela enorme quantidade de encomendas antes mesmo de ser lançada. “Foi uma loucura. Incrível como a notícia se espalhou rapidamente, e a demanda foi impressionante. Tivemos de reimprimir antes do lançamento, algo inacreditável”, espanta-se.

Nos seu horizonte está também um maior investimento em livros para crianças e em torno dos universos do tarô e da cozinha, e para este último formou uma parceria com a publicação britânica The Gourmand. “Temos as mesmas visões de estilo e de estética. Hoje estava conversando com eles sobre o nosso primeiro livro, que será exclusivamente sobre o ovo. Não terá apenas receitas, mas também referências na arte, no cinema. Será uma abordagem artística e cultural do ato de cozinhar”, revela.

Em 2020, para comemorar seus 40 anos de existência, a Taschen criou a coleção T40, de edições compactas de grandes sucessos XL da editora (Ai Weiwei, Araki, Tadao Ando, Basquiat, Bruegel), que sai a 20 euros, na Europa. Ao mesmo tempo, são vendidas edições limitadas a valores elevados. O livro sobre a marca Ferrari, por exemplo, esgotou em uma semana a 25 mil euros, o exemplar. A coleção SUMO pode trazer inseridas tiragens de trabalhos dos artistas, e inclui ainda móveis de apoio para os livros concebidas por nomes como Philippe Starck, Marc Newson e Renzo Piano. “É algo muito único para uma empresa, não apenas para um publisher, atuar nestes dois extremos. Somos muito orgulhosos desta abordagem democrática. Nossas edições limitadas são fantásticas, e investimos tudo para fazê-las da melhor forma. Não há economias para alcançar a excelência. Vendemos por um preço caro, e depois fazemos uma versão comercial”, justifica Marlene.

Já a coleção de fotografia erótica, iniciada nos anos 2000 sob a curadoria de Dian Hanson, não contribuiu de forma significativa para as vendas, mas colaborou para dar visibilidade ao universo homossexual e queer. “Somos bastante orgulhosos de alguns destes livros, porque ajudaram a uma certa liberação, tive testemunhos pessoais disso. Eram criativos e de espírito aberto. Alguns não publicaríamos novamente, mas no conjunto não temos nada a esconder. Dian é uma expert em sexualidade, e pensamos em editar livros sobre sexo em geral”, confirma.

No ano que passou, sem poder viajar e com jornadas limitadas no escritório por causa da pandemia, e grávida, Marlene refletiu sobre os novos tempos em meio à Covid-19. Seu pai teria dito certa vez: “Quando a maré está baixa, vê-se o banhista nu”. “Não é um bom momento para o mundo, são tempos bastante tristes. Fizemos 40 anos em 2020, havia muitos eventos planejados e um programa para o Japão em torno da Olimpíada, e por causa da pandemia tudo mudou. Usei o tempo muito bem para ter uma visão clara, mais focada. Quando tudo está bem, você deixa o barco correr, mas em momentos ruins, nota outras coisas que não veria em situações normais e que devem ser mudadas. Para nós, foi uma catalisador para mudar e melhorar."